Filmes-catástrofe costumam ser mais ou menos como as novelas do Manoel Carlos: você viu um, viu todos. Se a história for sobre o fim do mundo, então, dá pra antecipar tranquilamente todos aqueles clichês manjadíssimos, como o mocinho ‘loser’ na vida particular, mas que salva a pele de todos nos 45 do segundo tempo (e a gente sabe que é o último segundo porque sempre tem aquela voz feminina em off dizendo ‘dez segundos para a explosão/ impacto/ destruição final); tem também o político antiético, o vilão malvado e e fura-olho e sua namorada loura e ingênua, o presidente capaz de atitudes heróicas e altruístas, o namorado da ex-mulher do mocinho, que obviamente tem que sair da equação pros dois terminarem juntos, e por aí vai. Tem ainda roteiro com mais furos do que um bom queijo suíço, diálogos absolutamente idiotas e aproximadamente 436 efeitos especiais por fotograma quadrado.
E, mesmo sabendo disso tudo, topei encarar o 2012 numa über escaldante noite de novembro, quando qualquer programa que significasse ficar duas horas e meia no ar condicionado parecia uma ótima ideia. Foi menos traumático do que eu esperava, viu, foi só deixar todo e qualquer vestígio de racionalidade e capacidade analítica do lado de fora do cinema e vambora. O problema é que nem assim o filme dá muito certo. Ainda bem que o diretor Roland Emmerich prometeu que essa seria sua última investida no gênero. Os céus dizem amém, ‘dois mil e doze’ ficou com cara de ’dois mil é dose’.
A vantagem, se você é como eu e não tem muita paciência pra esses filmes apocalípticos, é que a gente assiste a vários filmes pelo preço de um. Pense em terremotos que destroem as ruas como os alienígenas de A Guerra dos Mundos, mega tsunamis como em O Dia Depois de Amanhã, navios virando como em Titanic e Poseidon, a Casa Branca indo pelos ares como em Independence Day; está tudo lá, e o diretor nem faz questão de disfarçar o déjà vu. Por um breve momento a gente tem uma recaída e tenta questionar alguma coisa que realmente dói (que raio de telefone celular é esse que um sujeito fala com qualidade dolby estéreo da esquina de um tsunami na Índia com o colega em uma arca pós-moderna à prova de rigorosamente tudo? Um casaquinho pro inverno novaiorquino é suficiente pra agüentar o frio do Himalaia?), mas aí a sua voz interior te traz pra realidade (“relaxa, Mônica, a única coisa que faz sentido aqui é que o ar condicionado está ótimo e a promoção da TIM te deu duas entradas pelo preço de uma…”) e você segue em frente.
No final das contas, claro, a gente sabe que sempre tem o happy end. Mas, pra chegar nele, você vai ter que agüentar a dentadura nova do Danny Glover, que fazzz com que todosss osss esssesss sssaiam sssibilantes demaisss, os russos que conversam entre si em inglês e não em russo, os efeitos especiais, que são muitos e ótimos, só que a gente já viu tudo aquilo em pelo menos militrocentos outros filmes, e aquelas falas edificantes sobre ética e o ser humano, que é pra depois os atores poderem dizer nas entrevistas que o filme tem uma mensagem super importante e atual.
O filme meio que diverte, se você for do tipo que ri de um trem do metrô voando sobre o avião em fuga. É uma bobajada sem fim, bem baldão de pipoca mesmo, embora eu imagine que a turma das profecias já deva estar procurando terreno pra comprar no Cabo da Boa Esperança. Eu fiquei um pouco decepcionada. Se a ideia de construir aquelas mega arcas pós-tudo era de levar gente pra perpetuar a espécie, eu teria deixado o chato do John Cusack assando em Yellowstone e levado Sasha (Johann Urb), o piloto russo super gato. Pelo menos dava um upgrade nas próximas gerações…
Em tempo de Dia de Ação de Graças nas terras do sr. Barack (este ano é dia 26), é sempre bom lembrar: em português, tem peru, Peru e tem Turquia. E Turquia, em inglês, é Turkey. E, com letra minúscula, turkey é peru. Mas o Peru é Peru mesmo. Fala sério, essas coisas devem existir só pra sacanear a cabeça dos alunos…
