Manobra radical

12 11 2009

O moço vinha andando distraidamente pela calçada, o guarda-chuva aberto, sem a menor pressa. De repente, parou. Parou e olhou para mim dentro do carro, parada em fila dupla com a luz de ré e a seta pra direita indicando que eu iria estacionar naquela vaga. A cara dele era de ‘isso eu quero ver, a dona maria não vai conseguir enfiar o carro dela nessa vaga nem por decreto’. Eu olhei pra ele, ele olhou pra mim, calculou mentalmente o espaço e deve ter concluído que aquela era uma batalha perdida. Foi pra debaixo da marquise, fechou o guarda-chuva e ficou assistindo de camarote.

A vaga era pequenininha mesmo, mas tinha que ser suficiente. Eu já estava em cima da hora pra aula e a avenida, que até no ano passado era uma sucessão de lotes vagos, de uma hora pra outra virou um enorme canteiro de obras e agora os caminhões de concreto e as caçambas ocupavam boa parte do espaço pra estacionar. E aquela vaga era bem na frente do prédio, sei lá onde eu acharia outra?

Eu já estava pronta pra começar a manobra quando lá na frente um carro bem maior saiu de outra vaga. Pensei em mudar os meus planos e evitar a trabalheira de fazer um carro tamanho 40 ‘calçar’ uma vaga 38, mas agora o porteiro do prédio também me olhava assim, meio de rabo-de-olho, duvidando das minhas habilidades. Ah não, pois agora aquilo era uma questão de honra, eu tinha que estacionar naquele espaço!

Respirei fundo, um-dois-vamos-e-já e… voilà. De primeira! Manobrar nunca foi um grande problema pra mim, mas aquela tinha sido minha obra de arte, coisa pra dar replay em câmera lenta pra ninguém perder os detalhes da operação. Peguei minha bolsa, saí do carro com a tranquilidade de quem estaciona em microvagas todos os dias e passei pelo moço, que já abria o guarda-chuva para continuar seu caminho. Nem olhei pro lado dele, mas lá no fundo do ‘meu eu’ tinha uma vozinha dizendo ‘Nãnã nãnã nããã nããã…’. Dei bom dia pro porteiro e segui em direção ao elevador. E comecei a rir sozinha. Vou te contar, às vezes a gente tem um inexplicável ataque de bobeira…





Nãovembro

11 11 2009

Novembro ainda nem bem começou e eu já estou doida pra ele terminar logo. Não acho lá muita graça em novembros, um mês que me dá a sensação de que o fim do ano está logo ali na esquina, mas na verdade ainda tem um bocado de chão pela frente.

Em novembro os meus alunos já estão cansados e bem mais preocupados com os problemas no trabalho ou as provas na escola e o gás está no fim. Novembro costuma ser insuportavelmente quente, quando o verão ainda vai levar mais de mês pra chegar, ou inesperadamente frio, em geral quando a gente sai de casa desprevenido ou mandou o edredom pra lavar, porque d’agora até abril deveria ser só termômetro nas alturas. Mas invariavelmente chove nesta época do ano. Chove e faz calor, chove e inunda ruas, chove com vento e você fecha as janelas e quase morre assado dentro de casa. Chove e a cidade tem engarrafamentos homéricos e você não lembra onde foi parar sua paciência zen-budista.

Em novembro a lista de pendências do ano TEM que diminuir e as pessoas saem estressadas por aí, tentando resolver em um mês o que não foi feito em dez. É o mês das dietas malucas, porque dezembro vai ser aquela overdose de panetone e festas, um estrago que só vai aparecer mesmo na sua vida em janeiro, quando você for experimentar o modelito pra praia. É quando o gerente do banco, o operador de telemarketing e o pessoal da Associação de Auxílio ao Htohjkghri dão aquela olhada  no calendário e percebem que de jeito nenhum eles vão conseguir preencher as cotas em tempo hábil, e aí passam a te infernizar a paciência com ligações diárias pedindo a sua colaboração ou oferecendo aquela promoção que não te interessa.

Novembro é o mês em que algumas pessoas importantes saíram da minha vida assim sem mais nem menos, é quando eu tento me organizar um pouco mais porque já sei que dezembro tem no máximo uns dez dias úteis, é quando eu vou ao supermercado e ao shopping e tem Papai Noel e luzes por todo lado, mas eu ainda não estou no clima de Jingle Bells, porque isso só acontece depois que eu monto a minha árvore de Natal, e a sistemática aqui só monta a árvore no último domingo de novembro.

Em novembro eu estou exausta e quero ‘pedir altas’, em novembro tenho que começar a fazer o planejamento financeiro pro ano que vem, porque janeiro é aquela cacetada no bolso e o governo tem certeza que meu carro é um Rolls Royce e minha casa fica em Beverly Hills, e portanto os impostos devem ser recalculados segundo essa nova lógica, mesmo que meu aumento de salário esteja hibernando em uma caverna há tempos. Novembro é quando eu só quero ler e ver e conversar amenidades porque minha bateria para discussões pertinentes está basicamente descarregada. E a única coisa boa que eu consigo pensar é que novembro, ao contrário de outubro, tem só 30 dias…





Quem apagou a luz?

10 11 2009

CandleDeu primeiro no Twitter e agora mesmo nos jornais que uma parte do país fez tchibum e mergulhou na escuridão. Blecaute. Nem sei se a gente ainda pode falar em blackout, porque dizer ‘black’ hoje em dia não é politicamente correto. Mas acho que ‘africanamericanout’ também fica meio complicado. Aqui nas montanhas deu um piquezinho de nada, o estabilizador deu um estalinho, mas da minha janela tudo continua iluminado. Vão dizer que é culpa do Lula. Ou do aquecimento global. Ou então dizer que é represália do pessoal da Uniban. Eu vou dormir. Ando meio estabanada, se a luz acabar, vou sair trombando nas quinas dos móveis e metendo o dedinho do pé nas portas.





Quatro mãos e um violão

10 11 2009

 

Quando eu era pequena, a casa do meu tio era o ponto de encontro da família toda, fosse para o café de sábado à tarde com broa de milho e biscoito frito feitos pela Conceição, as emocionantes partidas de pingue-pongue e campeonatos de futebol de botão dos primos, as festas de final de ano ou para os frequentes saraus musicais. Quando o repertório era Zequinha de Abreu, meu avô, pé-de-valsa e seresteiro de mão cheia, puxava Branca no violão, enquanto dona Amita, professora de piano das primas, encerrava a rodada com Tico Tico no Fubá. Ela dizia que o chorinho devia ser tocado de maneira ‘brejeira e saltitante’, como se fosse uma brincadeira, mas que ninguém se iludisse, aquela era uma peça que de simples não tinha nada.

Pois parece que a Cecília Siqueira e o Fernando Lima, do duo Siqueira Lima, também tiveram uma dona Amita na vida deles, porque nessa versão a quatro mãos o que mais impressiona, além da técnica fantástica dos dois, é o tanto que eles parecem estar se divertindo tocando juntos.

(muitos beijos de obrigado pro Murilo, Flávio e Gabrio que, no maior ‘transmimento de pensação’, me enviaram o vídeo quase ao mesmo tempo!)





Nova moradora

9 11 2009

mafalda

Rá. O Jay trouxe a Mafalda pra morar aqui em casa.





Filosofia de Twitter

8 11 2009

Eu não sigo muita gente no Twitter, nem muita gente me segue. Esse negócio de ficar atrás dos outros me dá uma sensação de ser uma stalker, me esquivando atrás de árvores, escondendo em soleiras de portas  por becos mal iluminados ou fingindo que estou lendo um jornal em um café enquanto vigio discretamente o outro lado da rua. Overdose de Roliúde, certamente, mas certos hábitos não são fáceis de abandonar. Sigo alguns amigos e parentes pra saber o que estão aprontando (suas vidas são tão excitantes quanto a minha, pelo visto…), uns poucos blogueiros, colegas de trabalho que costumam postar links interessantes pra quem faz pesquisas exploratórias no ciberespaço, e um punhado de gente que usa o Twitter para, entre outras coisas, filosofar coisas como estas:

- Ficar pelada na Playboy é fácil. Quero ver andar de biquini na Uniban. (@samara7days)
- Blasé é uma categoria de vinho produzido em Nonchalance, sudoeste da França, e que é muito servido em coquetéis literários. (@aomirante)
- Twitter me lembra a universidade. Começamos discutindo o futuro da humanidade, terminamos querendo saber quem comeu quem. (@apyus)
- Cuidado ao mandar roupas para lavar. Confira se não há dinheiro nos bolsos, pois lavagem de dinheiro é crime e você pode ser preso. (@marcorelho)
- Não me preocupo com a Inteligência Artificial. O que me apavora de verdade é a burrice natural.
- Como disse o filósofo carnavalesco Platãosinho Trinta, o povo gosta de Wittgenstein. Quem gosta de Lair Ribeiro é intelectual. (@aomirante)
- Um chato nunca perde o seu tempo. Perde o dos outros. (@carol_calheiros)
- Aí eu peguei, virei e falei assim, sonho de consumo mesmo é uma fila de caixa rápido de supermercado onde pessoas sabem contar seus volumes. (@claaudio)
- A preguiça é a mãe de todos uns lances aí que eu esqueci e nem vou pesquisar agora porque estou bebendo, fumando e jogando. (@aomirante)
- Novo Orkut. Nova Schin. De onde tiraram que, pra salvar o que é uma merda, basta colocar um ‘novo’ na frente? (@marcurelio)





Oi leva eu

7 11 2009

Marcel (o labrador preto meio invisível à esquerda) e Leda (da raça ‘flex’, à direita) faziam a maior cara de ‘oi, leva eu?’ enquanto a gente preparava a tralha para descer o rio de caiaque. O adesivo de ‘por favor, me resgatem’ pregado na janela nunca me pareceu tão apropriado…

 

Leda e Marcel resized





Berlim em todo lugar

6 11 2009

Berlim Oriental/Berlim Ocidental. Leste/Oeste. Norte/Sul. Capitalismo/Socialismo. Direita/Esquerda. Negros/Brancos. Ricos/Pobres. Elite/Povão. Magrinhos/Gordões. Feministas/Machistas. ‘Putas’/'Santas’.  Gays/Heteros. Ateus/Crentes. Árabes/Judeus. Católicos/Protestantes. Fumantes/Não fumantes. Pedestres/Motoristas. A favor/Contra.

Ainda são muitos os muros a serem derrubados.





Telemarketing expresso

5 11 2009

- Alô, eu queria falar com a dona Mônica, por favor?
(caramba, esse ‘dona’ é de matar…)
- É ela mesma.
- Boa tarde, aqui quem fala é a Bmbeotrihtri, da NET. Eu vejo no seu  cadastro que a senhora tem assinatura do pacote X de tv a cabo e Y de internet. A NET está oferecendo um upgrade: por mais 29 reais mensais, a senhora terá direito a mais (não me lembro quantos) canais de filmes…
- Ahn… obrigada, mas sabe o que é? Eu não tenho tempo nem muita paciência para assistir filmes na televisão. Eu iria pagar por uma coisa que eu sei que não vou usar, né?
- Ah, então obrigada. Tenha uma boa tarde!

Oi? A atendente já estava com a cota de vendas do mês completinha? Era o último dia de trabalho dela? A supervisora viajou? Tava apertada pra ir ao banheiro? Eu nunca tinha visto alguém de telemarketing simplesmente aceitar uma explicação assim, de primeira, e não insistir e argumentar até esgotar a minha paciência. E – pasme você! – em nenhum momento ela disse ‘nós vamos estar oferecendo’ ou ‘a senhora vai estar recebendo’. Tem mesmo uma primeira vez pra tudo nesse mundo.





Descontrole

4 11 2009

Ah… bons tempos os de antigamente (e antigamente = virada do milênio), quando as pessoas armavam barraco e ficava tudo por ali mesmo, só o/a protagonista sem-noção e alguns poucos ou muitos coitados presenciando tudo (e, no meu caso, morrendo de vergonha pelo cerumano em questão)! No máximo, rendia uns dez segundos nas videocassetadas do programa do Fausto Ô Lôco Silva, mas era só.

Bom, os dez segundos de sub-celebridade aparentemente continuam, mas agora espaço e tempo ficaram muito mais dilatados, graças aos telefones celulares e suas microcâmeras e a internet. Da moça pedindo o chip de volta no meio da noite até aquela chinesa aos berros no embarque no aeroporto de Hong Kong (com tradução pro português…), piti virou sinônimo de upload no YouTube, geralmente acompanhado de comentários de internautas muitas vezes igualmente ofensivos e sem-noção.

O descontrole mais recente a cair na rede foi o daquela médica de Aracaju, que devia estar achando que embarque em voo internacional é igualzinho a tomar ônibus na rodoviária, basta chegar no último minuto e tudo bem. Frustrante, eu sei, eu também já perdi avião, e nem foi por culpa minha; foi cortesia da TAM, que atrasou pra descer em Heathrow, demorou horas pra soltar a bagagem (nossas malas, mesmo na classe executiva, foram as últimas na esteira) e, mesmo com mais de 4 horas pra ir de um aeroporto pra outro, de trem expresso, perdemos a conexão pra Dublin. O moço da Ryanair até que tentou, mas o voo estava no horário e nada feito. Morremos numa grana legal dormindo no hotel do aeroporto, pra embarcar no dia seguinte logo cedo.

É, dá vontade de voar no pescoço da atendente no check-in. Mas aí é que entra o superego. Dá vontade, mas a gente não faz. A gente fica puto, fica triste, faz cara de cachorro que caiu da mudança pra ver se a moça amolece aquele coração de pedra, apela pra Santo Expedito, tenta ser simpática enquanto vê aquela maldita plaquinha de ‘check-in closed’. Mas a gente não pula o balcão, xinga o funcionário da companhia aérea ou grita e berra pelo saguão vazio. Nãnãninã. Principalmente quando não se tem razão. E até mesmo quando a gente tem lá sua dose de razão, apelou, perdeu.

Agora, tão feio quanto o comportamente da médica foram os comentários de alguns internautas, convenientemente protegidos por nomes de usuário indecifráveis. Uma enxurrada de opiniões sexistas e xenófobas (como se idiotice escolhesse sexo e origem) mostrando que, no fundo, esses seres diferem muito pouco da barraqueira.

Olha, o descontrole circula livre, leve e solto no ciberespaço. Lembre-se bem disso da próxima vez que tiver vontade de protagonizar uma cena, sobretudo se estiver errado. Você provavelmente não vai gostar nada nada do que vai ver. 





Extreme power training

3 11 2009

Não tem aquela história de que o que te engorda não é o que você come entre o Natal e o Ano Novo, mas sim o que consome entre o Ano Novo e o Natal? A indústria da boa forma sabe que você sabe disso muito bem, mas provavelmente não vai fazer muita coisa para mudar velhos hábitos. Daí que entra novembro e sai todo mundo correndo em desabalada carreira pras academias e nutricionistas, procurando aquela super mega fórmula milagrosa que faça desaparecer instantaneamente o Michelin de tecido adiposo que está aí, acumulando na sua ex-cinturinha de pilão há meses, quiçá anos. As academias, as revistas especializadas e os fabricantes de shakes com gosto de serragem esfregam as mãos e enxergam cifrões, muitos cifrões.

A matemática para perder peso é tão simples que até assusta: ela é o contrário do sucesso financeiro. Para a conta bancária ficar em dia, você precisa ganhar mais do que gasta, certo? Para emagrecer, é gastar mais do que ganha. Mas isso não tem glamour nenhum quando vem acompanhado de torrada com ricota, folhas de alface, natação e abdominais. So last season. O que você precisa é de um shake exclusivo + cápsulas de vitamina de alguma fruta do alto Xingu, aliados a alguma nova modalidade de exercícios físicos que incluam as palavras power e fitness.kangoo jumps

Como essa geringonça aí do lado, chamada Kangoo Jump. Você fica pulando como se fosse um canguru atrás do trio elétrico da Ivete Sangalo e ainda queima umas 600 calorias/hora. Eles deviam incluir o boxe nessa equação (os cangurus são famosos por suas brigas, lembra?) e oferecer algo como o Ultra Kangoo Jump Power Boxing.

Perto dele, o Extreme Circuit (sempre combine palavras como extremetraining e o nome da atividade em questão – em inglês, naturalmente, porque running é muito mais cool do que corrida) parece coisa de amador: cordas, bolas, exercícios abdominais e para a postura,  maior jeitão de aula de Educação Física do colégio. Não é à toa que só queima 100 míseras calorias. Mas o nome impressiona. 

Descendo o Deschutes - ME imagina, agora dá até pra fazer caiaque na piscina! Aliás, é Kayak Training. Deve ser tão emocionante quanto assistir à transmissão de uma melhor-de-três de par-ou-ímpar, mas também, né? tem gosto pra tudo. Qual é a graça de ficar remando de lá pra cá com a água paradinha no mesmo lugar? Eu só entendi o apelo das águas de verdade quando resolvi (resolvi, nada, eu não sabia no que estava me metendo, quando ‘dei por si’, já estava indo rio abaixo) descer umas corredeiras caprichadas. Devo ter perdido umas 500 calorias só com o susto.

Mas enfim, tem de tudo pra todo mundo, e aqui tem mais algumas ideias. Eu até animo o dia em que criarem o Power Yoga ou o Extreme Pilates. Super radical.





O minêro e o Sarmo 23

1 11 2009

caipiraO Sinhô é meu pastô e nada há de me fartá.
Ele me faiz caminhá pelos verde capinzá.
Ele tamém me leva pros corgo de água carma.
Inda que eu tenha quiandá nos buraco assombrado,
lá pelas encruzinhada do capeta, num careço tê medo di nada modo-de-quê Ele é mais forte que o “coisa-ruim”.
Ele sempre perpara prá nóis uma boa bóia, na frente di tudo quanto é maracutaia.
E é assim que um dia, quando a gente tivé mais-pra-lá-do-qui-pra-cá, nóis vai morá no rancho do Sinhô, pra nunca mais se acabá…
AMÉIM!

(ê trem doido, sô… Valeu, dotô Stélio!)
O original tá aqui.