Maldade

Enquanto tem gente que chora baldes em seu murinho de lamentações por causa do horror ao horário de verão, eu acho essa horinha esticada tudo de bom. Amo mesmo de verdade. E, como sou uma morning person que já está a postos a partir das seis da madrugada, não me deixo abater por ter que pular da cama com as estrelas ainda no céu ou por eventualmente dar uma topada no pé da cama porque fiquei com preguiça de acender a luz do quarto. Mas gente, eu gostaria muito de saber quem foram os responsáveis por essa lei ou sei lá o que é que resolveu que o horário de verão deve ir até o terceiro domingo de fevereiro (até o quarto este ano, porque o terceiro é domingo de Carnaval e nada pode atrapalhar o desfile das mulatas na Sapucaí). Eu acho que quem resolveu fazer uma coisa dessas já se esqueceu que um dia foi criança e adolescente nessa vida, e nem deve ter filho ou netinho pra ajudar a lembrar a dureza que é para os pequenos levantarem cedinho pra ir pra escola (porque levantar cedo pra brincar não é problema nenhum). Imaginem, eles dormiram no domingo ainda no climão de férias e de repente acordaram na segunda-feira com lua no céu. Pra esstudar, ô judiação. Daí que desde ontem eu passo cedo pelos pontos de ônibus e paro ao lado das vans escolares e vejo aquele monte de mini-zumbizinhos sentados no banco de trás, todos provavelmente tirados da cama por papais e mamães exasperados - ’vai atrasaaaaar…’ - e fico me perguntando por que raios esses legisladores não tiveram a brilhante ideia de encerrar o horário de verão assim que as férias terminam e as aulas começam.
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Coisas da vida

Segundo o Dieese, o salário mínimo aqui na brasilândia deveria ser de R$ 2.398,82 em janeiro. Tudo bem, o futuro do pretérito tá aí pra ser usado. Eu deveria ter nascido com a voz da Ella Fitzgerald, morar em um apartamento com vista pro Central Park e o George Clooney deveria estar aqui em casa neste momento mas, né.
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Sentir frio é para os fracos

O inverno tá um horror na Europa central, mas minha amiga Ruth e seus intrépidos compatriotas não deixam a peteca cair, nem o bom humor congelar. Da terra do Papai Noel ela me envia uma versão finlandesa daquela piadinha sobre o frio segundo baianos, cariocas, mineiros, paulistas e curitibanos. Pra gente ver que, com um cadinho de boa vontade, sempre dá pra adaptar uma boa historinha.

+15 °C, Espanhóis vestem gorros, luvas e casacos de frio. Os finlandeses tomam um solzinho.
+10 °C, Franceses tentam desesperadamente fazer o aquecimento central funcionar. Os finlandeses estão no jardim plantando flores.
+5 °C, Os carros italianos não dão partida. Os finlandeses dirigem seus conversíveis.
0 °C, A água congela. A água do rio Vantaa fica um pouquinho mais densa.
−5 °C, São encontradas as primeiras vítimas congeladas na Califórnia. Termina o festival de verão na Finlândia.
−10 °C, Escoceses ligam o aquecimento de suas casas. Os finlandeses passam a usar mangas compridas.
−20 °C, Suecos não saem de casa. Os finlandeses fazem o último churrasco antes do inverno.
−30 °C, Metade da população da Grécia morre congelada. Os finlandeses começam a secar suas roupas dentro de casa. .
−50 °C, Ursos polares evacuam o Polo Norte. O exército finlandês inicia seu treinamento de inverno.
−70 °C, Moradores da Sibéria começam a migrar para Moscou. Os finlandeses estão bastante chateados porque já não dá mais para deixar a vodka Koskenkorva do lado de fora de casa.
−273 °C, Zero absoluto. Os finlandeses admitem que está bem friozinho lá fora.
−300 °C, O inferno congela. A Finlândia ganha a Copa do Mundo de futebol.
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Inglês com Crônicas Urbanas – lição 1

Iemanjá, e mais

Hoje, dia dois de fevereiro, é dia de Iemanjá e também de:
- Iemanjar, orixá da sobremesa
- Iemangiare, orixá da cozinha italiana
- Iemangá, orixá das histórias em quadrinhos japonesas
- Iemanjada, orixá que todo mundo sabe muito bem como é.
(tá bom, chega)
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Curtinhas

* Quando a brincadeira vira total falta de noção: num concurso público em Jaboticabal, uma das perguntas da prova de conhecimentos gerais foi ‘em qual estado mora Luiza, que estava no Canadá?’ WTF???

* Comercial de cerveja sensacional sem bunda, sem futebol e sem pagode. Deu pra entender como se faz, queridos publicitários?

* Aquele abraço pros cerumanos que vão almoçar no restaurante de comida a quilo, aquela fila quilométrica logo atrás, e eles retiram as ervilhas da travessa u-m-a-p-o-r-u-m-a pra colocar no prato. A gente é testada na nossa paciência zen-budista nos momentos mais inesperados.

* O lado hardcore da família pode receber registro de patrimônio imaterial em breve. Rá.

* Cinco dicas preciosas do site Viaje na Viagem para aqueles que gostam de viajar fazendo dez cidades em dez dias. Aprenda a enxugar o roteiro.

* A gente se achando o suprassumo da quintessência porque fala 2 ou 3 línguas razoavelmente bem, aí chegam os hiperpoliglotas com dez ou onze…

* George Clooney continua um cavalheiro de fina estampa (acho que o único defeito do moço deve ser não encher o vidro de água na geladeira), Os Descendentes é um filme bacaninha, tem humor e diálogos bem sacados, mas não entendi ainda as indicações ao Oscar de melhor filme e ator. Se existir justiça nesse mundo de modêus, George não vai tirar a estatueta das mãozinhas do Gary Oldman nem de jeito maneira (mas ainda não vi o Jean Dujardin, então…).

* Que venham os maias, o mundo já pode acabar: li por aí que a Nestlé vai lançar este ano o ovo de Páscoa do Kit-Kat.  \o/

* Marketing à moda mineira: carro passando na rua vendendo queijo. E aí a grande promoção: compre três e ganhe uma goiabada. Resistir, quem há de?…
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O espião que sabia demais

A vida dos arqueólogos tem menos que um nadinha assim em comum com a do Indiana Jones. O cotidiano dos peritos da polícia é muito diferente do dia a dia do pessoal do seriado CSI. Eu já perguntei para várias amigas médicas (nem adianta perguntar essas coisas pros rapazes) e todas me garantiram que não há nenhuma sala de emergência com um pediatra remotamente parecido com o dr. Doug ‘George Clooney’ Ross quando a gente mais precisa. Ficção é uma coisa, meus amiguinhos, realidade é coisinha bem outra.

David John Moore Cornwell sabe disso melhor que ninguém. Por muitos anos ele foi agente secreto do MI6 a serviço de Sua Majestade, isso até ele e alguns colegas serem denunciados por um agente duplo que fazia hora extra pra KGB. Terminava ali a carreira de espião mas nascia, para nossa sorte, a do escritor John Le Carré. Nada de perseguições em Aston Martins pelas estradinhas da Costa Amalfitana ou explosões cinematográficas. Sai o smoking Armani, entra a capa de chuva da liquidação na C&A, adeus equipamentos tecnológicos mirabolantes de última geração, entram em cena horas e horas pesquisando documentos e transcrevendo conversas telefônicas no porão do quartel-general. Loosho e glamour é coisa para Bond, James Bond, a vida de um agente secreto genérico está mais para George Smiley e seus enormes óculos de grau, cabelo raleando e trenchcoat marrom.

Teve gente achando ruim mas, pra mim, foi justamente esse clima anti-glamour que fez de O Espião que Sabia Demais (‘Tinker, Tailor, Soldier, Spy’) um filme interessante. Dirigido pelo sueco Tomas Alfredson (que eu cismo de chamar de Alfred Tomasson), o filme é um tanto quanto lento, sillencioso e econômico nos diálogos, traz uma fotografia em tons esverdeados e cheia de sombras, mostrando aquelas ruazinhas laterais estreitas e pouco turísticas da City londrina. em vez dos pontos turísticos de praxe. George Smiley (Gary Oldman) é um agente que se aposentou junto com seu chefe Control (John Hurt) depois que uma operação confidencial na Europa Oriental deu muito errado. Smiley é requisitado de volta a pedido do novo chefe, e com uma missão nada fácil: descobrir qual daqueles agentes especiais está trabalhando para o ‘outro lado’ (e o outro lado, no começo da década de 70 era, naturalmente, a União Soviética). Control deixa algumas dicas antes de morrer, mas cabe a Smiley/Oldman a tarefa de montar o quebra-cabeças: seria Bill Haydon (Colin Firth)? Percy Alleline (Toby Jones)? Quem sabe Toby Esterhase (David Dencik)? Talvez Roy Bland (Ciáran Hinds, que eu só consigo achar que é vilão, sempre sempre sempre)?

O problema, gente, é o roteiro. Ou pelo menos alguma coisa no roteiro, por isso fiquei tão surpresa quando vi o danado entre os candidatos ao Oscar. Eu gosto de filmes que me fazem prestar muita atenção, não poder piscar porque vai que perde a informação crucial, desses que a gente nem compra pipoca, que é pra não distrair nem um minutinho. E eu prestei a maior atenção, viu, mas ao acender das luzes eu estava com um monte de dúvidas na cabeça. Eram muitos nomes, vários flashbacks surgindo do nada no meio da história, e de repente eu estava mais por fora do que portão de garagem. E pelo tanto de gente que eu ouvi fazendo a mesma reclamação, acredito que, pelo menos desta vez, o problema não estava na minha dupla de intrépidos neurônios, Adamastor e Hermengarda. O roteiro é confuso mesmo.

Mas o filme é bacana, Gary Oldman está ótimo, Colin Firth é sempre de encher nossos olhos, a trilha anos-70 é tudo de bom e, se você for um dos felizardos que já leram o livro do John Le Carré, provavelmente vai tirar a salada do roteiro de letra. O meu meio de campo é que ficou bem embolado dessa vez. O espião sabia demais, mas eu saí do cinema sabendo de menos.
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Santa Morena


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O dia em que Jacob do Bandolim espanholou. E aí chorinho virou malagueña. Na execução da bela Santa Morena, Trio Madeira Brasil: Zé Paulo Becker (violão), Marcello Gonçalves (violão de 7 cordas) e Ronaldo do Bandolim (bandolim).
- e eu aqui me lembrando do meu pai: “Ele toca com os olhos fechados assim, porque já sabe a música de cor…”
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Depois do temporal

foto: Frederico Alvarenga (copyright)

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Ficou assim boa parte do dia – primeiro abria o céu azul, vinha o sol forte, de repente fechava tudo e começava a chover. Saí de casa com o asfalto seco, dois quarteirões pra frente já estava chovendo, coisa de um quilômetro adiante tinha enxurrada forte, dessas que a gente tem que esperar pra passar um carro de cada vez, dois minutos depois já tinha sol brilhando de novo. Aí, no final da tarde, a chuva resolveu desabar de vez, nuvens bem baixas resvalando a serra, ventania, raios. De repente o céu foi ficando amarelo com o sol poente, daí para alaranjado, vermelho e púrpura, e eis que no alto surgiram dois enormes arco-íris dando por encerrado o espetáculo. Quem correu pra janela viu e bateu palmas.   (thanks, Frederico!)
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Album de família

Duas certezas incontestáveis na minha família. A primeira é que em algum momento, uma bela hora, quando menos se esperar (ou quando mais se esperar), vai haver uma festa. Família grande com muitos tios, muitos primos – alguns já com netos e tudo – e amigos já incorporados à bagunça, modosque tem sempre um aniversário, um batizado, uma formatura, noivado ou um casamento marcado na agenda. Na entressafra das comemorações oficiais, alguém sempre providencia um churrasco, um cafezinho no fim da tarde, uma reunião qualquer na casa de alguém.

A segunda certeza é a de que vai haver registro. Muita gente vai levar câmera, alguns vão empunhando suas moderníssimas filmadoras, os mais práticos vão sacar seus celulares do bolso para cliques eventuais. Tem sido assim desde sempre, desde que eu me entendo por gente, e só lá em casa são caixas e mais caixas de fotografias a cores e em preto-e-branco, slides, gravações em fita de rolo, fitas de videocassete, gigabytes de sons e imagens. Na falta de um evento de maior vulto, fotografa-se a frente da casa com as crianças no jardim, a mesa de almoço no domingo, o passeio ao zoológico, o primeiro dia de aula, os amigos que vieram visitar, o cachorro deitado na varanda, o campeonato de ping-pong, isso sem falar nas fotos das viagens.

Meus avós se foram, meus pais também, assim como quase todos os tios, e as fotos de família começaram a se espalhar. O acervo era enorme, mas a gente já não tinha muita certeza de onde tinham ido parar as fotos do Natal de 1976, daquele passeio à fazenda, quem tinha ficado com as fotos das bodas de diamante do vovô e vovó. Isso até agora. Há umas poucas semanas um primo teve a ideia de montar um grupo fechado no Facebook, e ali estão sendo postadas e curtidas e comentadas fotos e vídeos que a gente nem imaginava. Fotos dos anos 20, a família ainda no interior, dos anos 30 e 40,  com uma Belo Horizonte muito diferente da capital que é hoje, os primos ainda bem pequenos nos anos 50, as festas nos anos 60 e 70 (modelitos e fartas cabeleiras que dão o que falar!), a nova geração que começou a chegar em meados dos anos 80, a novíssima acabando de adentrar o gramado.

E, mais bacana ainda do que poder baixar fotos antigas, fotos que não tínhamos mas que todo mundo queria uma cópia, tem sido a experiência única e divertida de recriar toda a história da família, relembrar eventos, pessoas, lugares, casos e notícias, brincar sobre a magreza de um, os óculos de gatinho da outra, o Maverick cor de abóbora do tio, a calça boca-de-sino listrada e justésima que o primo usava, o rádio enorme de válvula do escritório do vovô. E assim os mais novinhos vão conhecendo um pouco de uma época que não chegaram a viver, mas que agora podemos compartilhar. Foi uma ideia tão simples e tão facinha de executar, mas ninguém imaginava que o sucesso seria tamanho. Agora, além das comemorações tradicionais, a família também se encontra regularmente na virtualidade, reconstruindo e mantendo viva sua própria história. E as fotos não param de chegar…
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Uma abertura e tanto

Às vezes é muito divertido ir ao cinema sem a menor ideia do que vai assistir. Resolvi ver o filme sem ter lido (ainda) o livro, visto a adaptação sueca de 2009 ou lido qualquer crítica ou comentário. E, mesmo concordando que dá pra fazer milhares de ’análises psicanalíticas’ e encontrar textos, subtextos e metáforas para um monte de coisas na história, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (ainda gosto mais do título em inglês – The Girl with the Dragon Tattoo) é, antes de tudo, um desses filmes de mistério que conseguem prender a minha atenção do princípio ao fim. E ainda tem o Christopher Plummer, né gente, charmosésimo aos 82 anos. E uma abertura como há tempos eu não via na telona – a versão que Trent Raznor e Karen O. fizeram para Immigrant Song me fez relembrar por que essa música do Led Zeppelin me metia o maior medão quando eu era criança.
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Tato e sensibilidade

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