Ouça sempre a sua mãe

Naquele 1962, meu pai, mãe e irmão mais velho embarcavam para a Itália, onde iriam morar por pouco mais de um ano. Primeira parada, Milão. Em cima da cama as malas abertas, pencas de roupas, casacos pro inverno, alguns brinquedos, ‘artigos de toucador’ (como diria o Roberto), chega minha avó com uma caixa de velas e outra de fósforos.

- Pra que isso, mãe?
- Nunca se sabe, vai que acaba a luz de repente, vocês ficam no escuro num país estranho com uma criança de colo?
- Mãe, a gente vai pra Milão, não é pra Mateus Leme (minha avó era de lá).
- Pois em Milão a luz também pode acabar, uai. Não custa colocar na mala, o pacote é pequeno.

Você desafiaria a sua mãe? Manda quem pode, obedece quem tem juízo, lá se foram o pacotinho de velas e o de fósforos devidamente embarcados para Milão. Viagem longa, chegam todos no hotel, cai uma tempestade. E o que acontece? Acaba a luz. Menos pra minha mãe, que abre a mala e diligentemente acende uma vela. Aliás, duas: uma pra iluminar o escuro, outra pra agradecer a minha avó.
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(postei este texto em 2010, aproveito o dia das mães pra relembrar…)

Mãe só tem uma, mas posts tem um monte!
Sábios ensinamentos das mães
Drummond e um poema de mãe
Mães e filhos

Girafas

Gente. Tossi um arco-íris aqui. Que coisa marrrlinda essas girafas. Que animação, senhoras e senhores. Que animação maravilhosa.
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Vai dar no New York Times

Então tá. Foi uma das conversas paralelas desse início de semana pelas redes sociais. Luiz Inácio (nunca lembro se ele é com ‘s’ ou com ‘z’, sempre olho no Google e depois me esqueço, agora deixa pra lá) vai ter uma coluna no New York Times. ‘No NY Times!’, brada incrédula a galera que adora pegar no pé. Gente, um cadinho menos no tom seria uma boa ideia, eu acho. Não, não tenho nenhum apreço especial pelo Luis Inácio (vou alternar ‘s’ e ‘z’, pra acertar 50% das vezes), mas tampouco vejo no senhorinho a reencarnação do Tinhoso. Vá lá, saíram algumas coisas boas no plano social naqueles oito anos (o que é bom). E sim, ele tem uma vaidade e arrogância que me deixam deveras irritada (o que é ruim). Nunca me decepcionei com ele ou com o PT porque, falando cá entre nós, nunca esperei nadinha diferente do que eles fizeram. Nunca duvidei nem por um segundo de que o que todo mundo da nova turma queria lá na Corte era entrar pro clube. E, como bem nos lembrou o comediante George Carlin (falando dos Istêitis, mas você vai ver que dá no mesmo), ‘é um grande clube, mas você não é sócio dele’. Eles não estão nem aí pra você, pra mim, pra nós. Nunca. E nunca estiveram. Também nunca estarão.

Mas não sei o que isso tem a ver com o Luiz Inácio ter uma coluna no jornal americano. Não sei sobre o quê ele vai escrever. Não sei se ele é bom de escrita. Imagino até que não seja lá grande coisa – mais ou menos como muita muita gente que conheço, inclusive jornalistas. O próprio Luis Inácio falou em público mais de uma vez fazendo pouco da importância dessas coisinhas banais como leitura e educação formal, pequenos detalhes que, creio eu (talvez ingenuamente), ajudam pra caramba na hora de alguém se meter a escrever qualquer coisa, ainda mais pra publicar. E sim, pro meu gosto ele fala mal pra burro. Eu já critiquei aqui as bobagens que ele diz (e critico as bobagens que são ditas e publicadas pela imprensa também, diga-se). Então não tenho muita expectativa não. Mas pra isso é que existe revisor e, já que estamos falando de NY Times, tradutor. Dois profissionais que, pensando bem, qualquer pessoa com juízo e pouca experiência no ramo requisitaria sem pestanejar. Eu chamaria, você não? Olha, conheço muito poucos que se aventurariam a redigir um artigo e mandar pro editor assim, na cara dura. Quem sabe inglês nem sempre escreve bem, quem escreve bem nem sempre sabe se expressar em inglês, modosque é capaz de dar pra contar nos dedos da mão quem daria conta do recado. Ficar criticando por criticar, dizendo que é um absurdo chamá-lo pra escrever uma coluna porque acha que ele não sabe escrever, não leva a lugar nenhum. O editor do jornal deve estar ciente do fato. Deve ter seus motivos pra fazer o convite. Se vir que o senhorinho não dá conta do recado, provavelmente vai dizer ‘muito obrigado’, tapinha nas costas, foi um prazer, até logo, passar bem. Ou então a brincadeira acaba assim que a brasilândia deixar de ser modinha lá fora.

E isso tudo eu tou dizendo de palpiteira, porque nunca li absolutamente nada que o Luiz Inácio tenha escrito. Então, ó, eu vou preferir aguardar um cadinho antes de fazer minhas críticas e ponderações. Vou esperar aí, quem sabe, lá pela terceira, quarta coluna. Porque, gente, o começo costuma ser bem ruinzinho. Eu vejo as minhas primeiras postagens aqui no blog e me espanto de ver que as pessoas deram conta de ler, algumas até acharam bacanas, voltaram e leram mais. Escrever é um exercício. É pouco provável que a coisa fique boa já de saída. É capaz do revisor e o tradutor terem bastante trabalho nessa empreitada. Mas não vou entrar nessa de criticar antes não, viu. O Luis Inácio nunca fez nada que me fizesse acreditar que esteja apto para escrever pra um jornal desses. Mas, como diz a Chris, vai que o inesperado faz uma surpresa? Acho meio feio sair por aí detonando por nada, antes mesmo do apito inicial.

É a da novela

Eu achando a música uma gracinha, melodia fácil e gostosa de ouvir, dessas que grudam na cabeça e a gente cantarola distraída no chuveiro, presa no engarrafamento ou enquanto espera o elevador. Letra bonitinha, tudo me fazendo lembrar um pouco as composições bacaninhas  do Jim Croce no começo dos anos 70, antes daquele avião dele se espatifar. Nada muito original, ok, mas o tipo de música que daqui a muitos anos a gente vai continuar ouvindo e gostando e achando fofa. Só que eu sempre pegava a música pela metade ‘na rádia’, quando pegava do começo o moço não dizia o nome, nem quem estava cantando. Quando eu estava do lado de alguém e perguntava ‘que música é essa? quem tá cantando?’, a resposta era sempre ‘ah, essa é a música da novela!’. Da novela! Gente, eu não vejo novela desde aquela que tinha a Odete Roitman (e não foi a reprise não, hein, foi a original, sei lá há quantos anos), não dava pra ser um cadinho mais específico? Todo mundo achando a música bonitinha mesmo, mas informação pra me ajudar, que é bom, nadinha. Mas eu só precisei de uma coisa, uma coisinha só, pra resolver o meu problema: uma adolescente. Que me deu nome, título, letra, link pra baixar e tudo mais. Adolescente, meus amiguinhos. É tudo de que preciso para sobreviver no universo das musiquinhas pop da atualidade.
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Quase deu certo

O plano era infalível: entra na loja, compra caixinha pra colocar o presente, paga e sai depressa, sem olhar pros lados. Mas era uma livraria. Com as palavras mágicas: ‘Por Apenas’. Imagina se eu tivesse ficado por lá mais do que 5 minutos… :P
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livros 001

Bestas esféricas

Meu pai dizia que muito, mas muito pior do que uma besta quadrada, é uma besta esférica. Porque, se você analisar bem, uma besta quadrada é menos besta ali nos cantinhos do quadrado, né, enquanto que a besta esférica não, a besta esférica é igualmente besta de qualquer ângulo que você a observe. Meu pai adoraria alguns congressistas dessa brasilândia, que resolvem sentar praça lá na Corte e de lá não querem sair de jeito nenhum. Eles seriam a evidência irrefutável de que sua teoria estava certa.

Sem mimimi

Daí que uma bela hora todo Super Homem tem seu dia de kriptonita e sou acometida de uma avassaladora e inexplicável (bem, nem tão inexplicável assim, estou realmente precisando de férias) crise de mimimi-ninguém-me-ama-ninguém-me-quer. E, como soe acontecer (minha mãe adorava a expressão), nesses momentos a gente fica absurdamente insuportável até pra gente mesma, modosque é de bom alvitre manter uma distância segura dos outros que, afinal de contas, não têm nada que ver com a nossa rabugice e não têm a menor obrigação de nos aturar. Exatamente o que fiz, para melhores resultados.

Daí que leio nos jornais sobre o temporal que desabou na Argentina e deixou La Plata debaixo d’água, 350 mil pessoas afetadas diretamente pelas inundações. Envio uma mensagem para uma amiga argentina muito querida que mora lá e, dias depois, ela me manda um alô. Tudo bem com ela e a família, mas eles perderam tudo. A casa ainda está de pé, mas foram-se os móveis, as roupas, os utensílios, documentos, fotos, equipamentos; faça a lista, foi tudo. Com sorte, vão conseguir recuperar alguma coisa ao longo do tempo, e agora vem aquela fase longa e tediosa de tirar nova via dos documentos, consertar o que tem conserto, jogar fora o que não tem, conseguir ajuda oficial, retomar a vida.

Daí que eu enfiei a viola no saco e tomei tento, que mimimi tem hora e limite, boralá que PCA (Puta Carência Afetiva) tem data de validade. Não é a primeira vez que o Chefe lá em cima me dá uma lambada dessas pra ver se eu aprendo. Eu devo estar precisando fazer mais exercícios de fixação.

Curtinhas

* Quem nunca, né Dexter? Amo-LHO.

apagando

* Todos os dias – TODOS – no mesmo horário (e lá se vão meses de cuidadosa observação de minha parte), o twitter da BHTrans(torno) fala de engarrafamentos exatamente nos mesmos trechos das mesmas ruas e avenidas da cidade. Eu tinha cá comigo que, a essa altura do campeonato, já era pra alguém ter tomado alguma providência, né, mas acho que isso seria uma grande viajada na maionese de minha parte.

* Pouco me importa se o caboclo é ateu, agnóstico, crente de qualquer denominação ou alienígena. Só tem uma coisa, uma coisinha só, que eu acho o fim da dinastia e me tira do sério: fanatismo. Cujo, diga-se de passagem, é encontrado em doses generosas em ateus, agnósticos, crentes de toda denominação e alienígenas.

* Dizer uma coisa procês, viu. Jimmy Carter é amor. Se você lê em inglês (não achei nenhuma tradução - voluntários, cadê vocês?), não pule este texto do ex-presidente dos Istêitis.

* Gente. Tossi um arco-íris aqui, que coisinha mais fofa esse lobinho aprendendo a uivar.

* Diálogo a ser ouvido brevemente no balcão de uma companhia aérea mais perto de você:
Atendente: – A senhora tem bagagem de mão?
Passageira: – Só este marmitex pra durante o voo.
#classemédiasofre

* Querido seja-lá-quem-foi-que-fez-a-seguinte-manchete:
“Cura de leucemia é anunciada por cientistas”
A gente vai lá na matéria do jornal e vê que é sobre UMA garota que tinha UM tipo raro de leucemia e que, sim, APARENTEMENTE, ELA (mas não outros pacientes com o mesmo tipo de leucemia) está curada, 1 ano depois. E só. É promissor, é uma ótima notícia, sim, mas daí a generalizar pra tudo e todos vai uma distância amazônica, pelamor. Da próxima vez, contenha seu entusiasmo, meu filho. Me ajuda aê.

* Grandes verdades costumam vir em forma de tweet: “Três coisas são infinitas: a estupidez humana, a fome de madrugada e as atualizações Java disponíveis.”  (via @dcechetto)

* Primeiro um deputado sei-lá-das-quantas resolve propor a extinção das aulas de línguas estrangeiras do currículo das escolas públicas da brasilândia. Depois a imprensa publica várias matérias dizendo que o programa Ciência Sem Fronteiras, do governo federal, tá capengando porque os candidatos não têm proficiência em línguas estrangeiras, pra dar conta de estudar no exterior (suspeito inclusive que não tenham muito jeito até na língua materna mas, né).  O governo, definitivamente, parece sofrer de algum tipo raro de esquizofrenia sem fronteiras.

* Preço do ingresso de pista premium (a famosa ‘fila do gargarejo’) pra ver sir Paul McCartney em maio em BH: 600 dilmas. Tudo, tudinho, até os ingressos no poleiro atrás da pilastra, vendido em menos de 24 horas. Tou achando que ano que vem tem Paul McCartney na festa do peão em Barretos e no São João de Campina Grande. Tá que nem dengue o senhorinho, tem todo ano, a gente só precisa saber onde vai aparecer.
***

O tuíte

Não é do meu feitio ficar reciclando post, mas é que hoje eu me lembrei disso aqui. E dela.

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Eu não atendo telefone durante as aulas. Já passava das nove da noite quando eu peguei meu celular e vi: cinco ligações não atendidas. Do celular dela. Do celular do pai. Do da mãe. Do telefone de casa. Alguma coisa devia ter acontecido pra ela me ligar 5 vezes em menos de 20 minutos, ela que geralmente escolhe conversar comigo pelo Facebook e pelo Twitter, que é como qualquer adolescente normal e sadio conversa com qualquer outro ser deste planeta. Ela atendeu e, por um momento, eu não sabia se ela estava rindo ou chorando; pela respiração um pouco ofegante, devia estar pulando e falando ao mesmo tempo, hábito que tem desde muito pequenininha. O pai disse que na última meia hora ela tinha ido do risador frouxo às lágrimas e de volta, mas ele também estava morrendo de rir. ‘Mona, ele me respondeu! Eu postei uma mensagem no twitter e ele me respondeu! Ele agora sabe que eu existo!’

Ele, no caso, é o ídolo-mór da sua vida até aqui, o líder da banda que ela ama e venera e cujas músicas sabe de cor, junto com inúmeros detalhes da vida de todos os cinco integrantes. E o caso tinha sido bem esse mesmo, ela postou uma mensagem inocente no twitter e o moço, que normalmente não é de sair respondendo ninguém, deu um RT (algo como ‘copiar e colar’ na linguagem do twitter) e adicionou um comentário curto e simpático. E foi o que bastou para transformá-la em instant celebrity em sua escola e entre as muitas outras fãs que seguem a banda virtualmente. Por um momento, um segundozinho à toa, ela tinha estabelecido uma conexão real com seu ídolo, muito mais do que qualquer garota poderia imaginar que um dia fosse acontecer de verdade. Ele nem notou isso tudo, claro, não faz a menor ideia. Mas pra ela tinha sido o mundo.

E eu fiquei de cá rindo e matutando que hoje, já bem longe da minha adolescência, eu não tenho ídolo nenhum que eu ame e venere e para quem eu mandaria uma mensagem e de quem esperaria ansiosamente por uma resposta. E pensei que, no meio de todo esse turbilhão de crises e problemas pra resolver e contas pra pagar, é bom, é mesmo muito bom pegar carona na adolescência dela por um instantezinho só e ter 13 anos de novo.

Eu e mais um tanto de ‘eu’

elton e pipa 003Eu acho que já contei aqui, em algum post aí pra trás, que eu não gostava muito do meu nome quando era pequena. Implicância pura e simples, mas é que, para mim, esses nomes proparoxítonos (desculpas antecipadas a todas as Bárbaras, Verônicas e Déboras que não concordarem comigo) soavam muito fortes e um tanto mandões – e nesse quesito bastava meu gênio leonino, que já me dava uma trabalheira danada. Bom mesmo seria poder ser doce e delicada como as Alines, Lucianas e Marinas, mas meus pais acharam por bem me batizar com o nome da mãe de Santo Agostinho, que em priscas eras tinha dado suas voltinhas pela região onde nasci.

Foi só depois de adulta, viajando pelo mundo (bom, pelo menos um pedacinho dele), que eu pude perceber as vantagens de se ter um nome internacional. Todo mundo sabia escrever e pronunciar, ninguém fazia aquela cara de meu-Deus-o-que-é-isso quando eu falava, no máximo me perguntavam se era com ‘c’ ou ‘k’ ou se levava circunflexo. Meus pais só não conseguiram prever uma coisinha.

Os a-pe-li-dos. Devem ser uns 374, por aí. Alguns vêm do nome mesmo, outros têm todo um contexto histórico por trás, geralmente impublicável pelo excesso de bobeira. Na família tem muita gente que me chama de Monique, menos a tia Lúcia, que fazia sua própria versão com ‘Munique’. Moninha eu sou pra vários – o Júnior, a Maruza, a Ni, por exemplo; Mon(i)quinha pra Cris, pro Stélio e pro Paulinho, e Moniquita pra Carol e Dulce. Houve um tempo em que eu fui Schuller pros meus colegas de colégio, e a Ana Flávia ainda me chama assim. O Zé até hoje diz Almôndega, o Jerônimo prefere Môndiga. Eu vou do Mô (pra Vanessa e pro Murilo) ao Mona (pra Clara e Beatriz), passando pelo intermediário Mon, que é como o Graeme e o Luigi muitas vezes me chamam – e o Luigi começou com o Monicats, que a Marisa acabou adotando também. A Bernadette aportuguesou e pra ela eu sou a Moniquete. Pra Cristina, veja como são as coisas, eu sou a Márcia (longa história, mas nesse caso o apelido é mútuo, porque pra mim ela também é Márcia, e isso deixa as outras pessoas um tanto confusas).  Eu e a Ná nos chamamos de Brega. Pra Gi e o Átila, pra Lia e o Humberto, eu sou a Pipa.

E foi justamente com a Pipa que eu dei de cara hoje na hora do almoço. Tá, eu sei que a Pipa em questão é a praia, mas não quero nem saber, sou muito mais antiga do que a promoção da Coca Cola Zero e, pensa bem, quantas pessoas podem se gabar de terem encontrado seu nome E apelido numa latinha de refrigerante, né mesmo?

A Bela Adormecida

Uma amiga me disse que ‘inveja boa’ não existe. Inveja é inveja e ponto, mas olha que eu bem que gosto da expressão. Porque inveja é uma coisa muito feia e muito muito triste e o ‘boa’ faz tudo ficar um cadinho mais leve. Então eu tenho uma inveja (boa) danada dos poetas, que falam em algumas poucas linhas – às vezes em algumas poucas palavras – o que a gente levaria uma enciclopédia inteira pra conseguir exprimir. E talvez nem desse conta. Entre as mais queridas, Adélia. Adélia e sua simplicidade, sua tristeza tranquila, um encanto sereno com as coisinhas do dia-a-dia que fazem a gente mais feliz. Hoje é Dia Nacional da Poesia, então hoje é dia nacional da Adélia.
***

Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico,
como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.

(A Bela Adormecida – Adélia Prado)
***
- e tem mais Adélia aqui, aqui e aqui também.

curtinhas

lincoln* Essa cena aqui. Era nessa cena que o filme deveria ter terminado, Steven, não precisava desenhar pro pessoal entender. A cena é tão linda, o mordomo dizendo ao presidente que a primeira-dama o aguardava na carruagem para irem ao teatro, ele se despedindo dos amigos com um ‘mas bem que eu preferia ficar aqui comemorando com vocês’, a silhueta meio encurvada caminhando lentamente contra a luz a caminho da porta. Todo mundo sabe o que vai acontecer no teatro, quase dá vontade de gritar pra tela ‘vai não, Abraham!’, todo mundo sabe. Seu filme é muito bom, Steven, Daniel está maravilhoso como Lincoln, mas não precisava ir adiante. Era a cena mais bonita do filme, mais delicada e mais forte, o ‘the end’ devia ter entrado exatamente ali.

* Me falaram de Amour, que é um filme lindo, tocante, desses que marcam, mas não estou pra esse tipo de filme no momento não. Então fui ver o chileno NO, que além de levantar o astral e falar de coisa boa – o plebiscito que em 1988 tirou Pinochet do poder – ainda tem o bonitinho do Gael García Bernal na tela, e esse é um combo que eu não desdenho de jeito nenhum.

* Criatura sentada do meu lado no cinema comenta com o namorado lá pelas tantas: “Mas esse filme não vai acabar não, pelamordedeus, já não aguento mais essa cantoria?!” Sim, diletos amiguinhos. Era uma sessão de Les Misérables… (meus zoín reviram desconsolados) Uma ingrata ela, tinha o Wolverine sendo perseguido pelo Gladiador, tinha Paris com Notre Dame e tudo e algumas das músicas mais bacanas feitas para um musical, o que mais a mocinha queria num filme que é a adaptação de um musical, deusmeu?

* Faz tempo que o Tarantino tá dirigindo mais ou menos o mesmo filme e a gente nem aí, a gente gosta do mesmo jeito. Tem sempre o underdog – pode ser a moça, o negro, a judia – que vai dar a volta por cima no final, tem sempre uma trilha sonora de arrasar, não falta aquela cena de banho de sangue e carnificina que acaba com o estoque de ketchup de Hollywood. E tem aquela ponta de atores que te fazem pensar ‘uai, mas ele não tinha morrido?’. Em Django foram o Franco Nero e o Don ‘Miami Vice’ Johnson, que eu não via desde mil novecentos e matusalém de fraldas. E aquele bando de atores maravilhosos, mas eu olhei pro Leonardo di Caprio e pensei ’ó céus, esse menino não envelhece, o rosto não envelhece, a voz dele não envelhece, como é que ele quer me convencer que dá conta de encarar o Christoph Waltz?’. Até ele resolver dar aquele murro na mesa da sala de jantar. Aí sim, senti firmeza.

* O pessoal do marketing inventa umas coisas que eu vou te contar. Não tem ‘as aventuras’ de Pi, isso não é animação da Pixar pra meninada se esbaldar. Por favor, senhores, parem de achar que só títulos de filme de ação conseguem arrancar as pessoas de casa pro cinema. O Ang Lee teve uma trabalheira insana pra adaptar um livro como aquele e fazer um filme bonito, poético, reflexivo pra gente assistir. Tenham dó.

* Aí você lê no jornal que O Mestre tem Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman no elenco e pensa ’ôba!’. Duas horas e tanto depois, você sai do cinema se perguntando ‘pois é, então?’. O filme não chega em lugar nenhum, a história fica só por ali, rodopiando que nem enceradeira ligada. Olha, tinha muito, mas muito tempo que eu não via um filme tão chato com atores tão bons. Vai entender.

* Em compensação, saí de casa pra ver Argo sabendo tão somente que era um filme sobre o caso dos reféns na embaixada americana em Teerã. Véia que sou, me lembrava muito bem da história toda. E agora estou aqui pensando em como seria engraçado ver um filme bom desses levando a estatueta principal, quando seu diretor nem mesmo entrou na lista. Uma injustiça. Ben Affleck é bom ator, tem aquela phynna estampa que Deus lhe deu e que nós agradecemos penhoradamente, e ainda está se saindo um diretor de primeira.

* Eu dava quase nada pelo Bradley Cooper, e nos últimos tempos também não estava achando o Robert de Niro grandes coisas não. Mas O Lado Bom da Vida é daqueles filmes redondinhos, sabe, sem nada de muito espalhafatoso ou sensacionante (sensacional + emocionante), mas está tudo lá certinho – atores, roteiro, fotografia, direção, trilha. Trilha, gente, com Bob Dylan e Johnny Cash cantando Girl from the North Country e me levando de volta à infância. Gostei demais.

* Paperman é o curta de animação da Disney candidato ao Oscar. Olha, uma lindeza.

* Assistir a O Hobbit é uma coisa, mas aí você encontra no Iutubi uma série de videoblogs com mais de uma hora de making of, dando um monte de detalhes sobre a produção de proporções transamazônicas do filme e então conclui que por ali é todo mundo – da moça do cafezinho ao diretor – muito, mas muito bom de serviço.

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