Há pouco tempo reli uma das crônicas maravilhosas do Luis Fernando Veríssimo, na qual ele se imagina um Fausto moderno negociando com o Diabo uma lista de exigências em troca de sua alma. Isso incluiria ítens absolutamente imprescindíveis: ver a sua mala ser sempre a primeira a apontar na esteira de bagagens do aeroporto, nunca mais morder cartilagem de frango e sempre conseguir encontrar vaga no estacionamento do shopping. Mas o pedido mais importante, na minha opinião, é conseguir abrir a embalagem de celofane do CD apenas com a unha, sem ter que apelar para dentes, estiletes ou maçaricos.
Muitas embalagens hoje em dia parecem ter sido pensadas por designers incrivelmente sádicos, que devem passar boa parte do tempo rindo secretamente pelas nossas costas a cada tentativa de se abrir um pacotinho.
O instrumento mais importante na minha cozinha hoje é a tesoura. Já desisti de tentar usar aquele picotadinho da embalagem que, teoricamente, deveria servir para facilitar a abertura do pacote; você consegue rasgar a embalagem em todos os lugares, menos no picotado. Também não adianta tentar puxar os lados da embalagem a vácuo porque o que estiver dentro vai explodir para fora do pacote e você vai passar os próximos dois meses encontrando pedacinhos de biscoitos pelos quatro cantos da cozinha, debaixo do fogão e atrás da geladeira.
Tampinha de iogurte abre de duas maneiras: rasgando no meio e sujando o seu dedo, ou rasgando aquela pontinha que deveria servir para você puxar todo o resto, só que agora ela rasgou e você não tem como puxar. Tampa de vidro de palmito e azeitona só abre se você enfiar uma faca por baixo da tampa e fizer ela de alavanca pra conseguir abrir. Embalagem de leite longa vida deve ser aberta dentro da pia, porque na hora em que você puxar a tampinha de plástico (quando ela existe), vai voar leite para todo lado.
Outro dia comprei um fone de ouvido todo sofisticado, digital, entrada USB, microfone acoplado, uma beleza. Só que ele não saía da embalagem. O plástico de proteção ultra resistente parecia ter sido selado com uma mistura de solda e Super Bonder e nenhuma das instruções de uso (apresentadas em todas as línguas da Comunidade Européia) ensinava como tirar o fone de lá de dentro. Quase fui a um hospital pra ver se talvez, quem sabe, um bom bisturi poderia dar conta do recado. Mais uma vez apelei para a tesoura, uma daquelas bem grandonas, aliada a uma faquinha de descascar vegetais e mesmo assim não foi fácil. Não sei o que esse fabricante estava pensando, mas deve estar morrendo de rir até agora.
Veríssimo estava otimista e teria vendido sua alma por muito pouco. Existe todo um universo inexplorado de embalagens herméticas que só abrem com contra-senha, código de segurança e informação do número do CPF. Reveja seu preço, Veríssimo.
Pois é, estamos no mesmo time. Não sei abrir embalagens.
E elas estão cada dia piores… Esse deve ser o caminho mais direto para uma dieta bem sucedida: compre apenas alimentos cujas embalagens sejam impossíveis. Além das calorias gastas tentando abri-las, você ainda corre o risco de desistir no meio do caminho e apelar, por exemplo, pra uma banana…
HAHAHAHAH eu tb não sei abrir embalagens… creme de leite, leite condensado sempre escapa, atum eu me corto, presentes eu rasgo (e sempre tem aquela tia que quer que tu guarde o papel de presente de recordação)… enfim… nunca tinha pensando nisso! É um horror mesmo abrir embalagens, precisa de técnica, kkkk!
bjo
É uma luta, Rê, é coisa mesmo de vender a alma pro Demo…
Já imaginou uma cozinha sem tesoura? Impossível.
E essas ‘embalagens práticas’ são o maior engodo, só servem pra gente emporcalhar tudo e desperdiçar horrores!
bjk