Você chega em casa morta de sono depois de um aniversário e sabe que tem que acordar dali a pouco e estar com a melhor cara do mundo para a primeira aula às sete da manhã. O despertador quase te derruba da cama às seis e você vai em direção ao banheiro que nem um zumbi. Enquanto tenta em vão lavar do rosto os sinais das várias taças de vinho da noite anterior, você ouve o barulhinho inconfundível: catchicatchicatchica. Você sabe que não tem ninguém em casa acordado àquela hora, a chuva está desabando lá fora e com certeza todo mundo do prédio vai perder a hora, está tudo o maior silêncio. Você está sozinha e acordada o suficiente para ouvir aquele barulhinho de novo: catchicatchicatchica. Você olha pelo espelho da bancada da pia e não vê nada. Vira-se bem de-va-ga-ri-nho em direção ao barulho e lá está ela, tentando se esconder atrás do porta-revistas. Deeeeeste tamanho. Só a antena. Ela ainda te lança um olhar desafiador de “você não ousaria!” e some entre as revistas. “Ah, é, bebé? Estou descalça e não ousaria mesmo, mas fica aí pra você ver uma coisa.” Fecha a porta do banheiro e o basculante – ela só pode ter entrado por ali – e volta pouco depois armada com o inseticida. Em um minutinho a insolente já está ali, morta atrás da porta. E você está prontíssima para começar o dia.