Dá-lhe, Joel!

2 07 2009

A essa altura do campeonato, todo mundo já deve ter visto pelo menos uma das várias entrevistas que o Joel Santana, brasileiro técnico da seleção sulafricana (ou sul-africana?) de futebol, deu na televisão. Minha caixa de e-mails recebeu links para os vídeos todos os dias nas últimas 2 semanas.

Nunca tinha ouvido falar dele antes (bom,  eu não acompanho quase nada de futebol, então tá explicado) mas vou te dizer uma coisa: o Joel é o cara. Pessoas com a atitude dele para falar uma outra língua fazem a alegria de qualquer professor. Claro que pronúncia é importante, lógico que estrutura e vocabulário contam. Mas Joel não está nem aí. Ele tem que dar seu recado com o pouco inglês que sabe (e que provavelmente aprendeu na marra, não em cursos de idiomas ou programas de intercâmbio como muitos de nós). O microfone aparece na frente, o repórter faz uma pergunta e ele não se faz de rogado: mistura o que sabe com o que imagina que é, coloca uma palavrinha ou outra em português mesmo e estamos conversados.

E enquanto muita gente faz pouco do inglês macarrônico do Joel, eu pergunto: se fosse um sulafricano (ou sul-africano, ai que saco, alguém tem a nova gramática aí?) tentando falar português, esse pessoal estaria nessa gozação toda ou estaria achando o máximo alguém tentar se virar com o que sabe? Joel faz um uso 100% instrumental da língua. Deve saber muito bem que comete erros, que sua pronúncia e entonação deixam - e bastante – a desejar. Mas ele vai lá e fala. Pergunte para qualquer professor de idiomas quantos alunos assim eles têm. Geralmente dá pra contar nos dedos. De uma mão. Talvez da mão esquerda do Luis Inácio.

Uma das melhores alunas que já tive na vida foi uma psicóloga super culta e inteligente, dessas que podem conversar com você sobre qualquer assunto. Tinha um ótimo nível de inglês e ninguém conseguia saber disso, porque seu sistema de auto-censura entrava em cena um milésimo de segundo antes dela abrir a boca. Estava sempre preocupada com ‘como’ estava falando e raramente com ‘o que’ estava falando. Simplesmente travava e não falava. Sua filha, que sabia muito menos da língua, se virava muitíssimo bem, conversava com todo mundo, reclamava do quarto do hotel, substituía ingredientes de seu prato no restaurante, pedia informações a quem estivesse passando na rua. E aí todo mundo achava que ela era muito mais fluente do que a mãe, e geralmente tinham a maior boa vontade com ela.

Não é que a gente não tenha que se preocupar com a forma. Ninguém quer falar o inglês do Tarzan a vida toda. Mas é que muitas vezes as pessoas dão muito pouco importância à comunicação e só querem saber de ‘falar sem errar’. Só não erra quem não tenta, né? Uma vez um professor que eu tive perguntou a uma plateia com gente do mundo inteiro qual era o idioma mais falado no mundo. ‘Inglês’, disseram. Nada disso. ‘Mandarim’, sugeriram. Ele riu. ‘Que nada. A língua mais falada no mundo é o inglês ruim‘.


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11 respostas

2 07 2009

Bah… eu não sei nada de inglês… :(
Eu queria aprender, o problema é que os cursos -na maioria, são longos e caros! Tenho um amigo que aprendeu inglês sozinho, escutando músicas, depois ele fez uma prova em um cursinho e falta somente 1 ano e meio pra ele se “formar”.

2 07 2009
Monica

Eu também comecei nesse embalo de ouvir música, Rê, é um ótimo exercício, além de ser muito divertido! Já essa história de ‘formar’ é muito relativa: imagina, eu dou aulas desde 1987 (quando ainda estava no jardim de infância, hehehe) e ainda aprendo horrores todos os dias. Quando alguém me pergunta ‘quantos anos leva para eu aprender inglês?’, minha resposta costuma ser: ’sei não, quantos anos você está pensando em viver?’ ;-)

2 07 2009
Cassiano

Concordo com o elogio ao Joel.
Primeiro, pq muitos dos que criticam, também não sabem falar inglês perfeitamente. Segundo, pq muitos dos que criticam, provavelmente não sabem falar seu próprio português corretamente.

Mas… que é divertido vê-lo e ouvi-lo falar, ah isso é…hehehe.

Bjo

2 07 2009
Monica

Pois é, Cassiano, há mais tempo, quando fiz mestrado, entrevistei os alunos (em português) sobre algumas atividades que tinham feito. Depois mostrei a gravação para cada um. Todos, sem exceção, ficaram chocados com o português que estavam falando. E isso em adultos de nível universitário, pensa bem. Cada língua é cada língua, cada uso é cada uso (filosófico isso, hein?). Mas claro que é divertido, e aposto que o Joel deve ser o primeiro a morrer de rir! :-)

2 07 2009
A Outra

ai meu zeus!
eu sou a psicóloga.
e agora tenho que me virar em alemão. quer coisa pior que isso? tá, ok, japonês, russo, mandarim… kkkkkk
mas eu travo MERMO!

bjs

e eu ainda tenho que estudar para o IELTS se eu quiser fazer mestrado na zoropa, como to pretendendo. morri!

2 07 2009
Monica

Nossa, meus conhecimentos de alemão já foram pro saco há muito tempo! Só aquela confusão de artigos femininos, masculinos e neutros já me dá nos nervos! O Veríssimo (acho que foi ele) disse que “alemão é uma língua tão esquisita, que uma senhorita não tem sexo, mas um nabo tem!” :-P

Ah, é, vai rolar IELTS mesmo, se bem que algumas universidades também aceitam o TOEFL. Mas eu, particularmente, prefiro o IELTS…

2 07 2009
Rodrigo Andreiuk

vale muito mais a pena “ser interessante” do que estar dizendo
“algo correto”! E o Joel é isso aí!

2 07 2009
Monica

Concordo, Rodrigo. Com tanta gente falando bobagem por aí nos microfones, gente como o Joel é tudo de bom!

3 07 2009

Pois é, também acho!
Tô no 3ª semestre de italiano e confesso que os 8 semestres do curso não vão me deixar nada “formada” hahahaahah!
Até espanhol, que falo todos os dias com meus pais em casa, não é 100%.
Tem que olhar pro livro do curso e dizer “me dedico”, hahahaha!

3 07 2009
Monica

Pois é a matemática que eu faço com os alunos: a gente fala português 24 horas, 365 dias por ano. Isso dá quanto? 8760 horas por ano. Agora multiplica pela sua idade e tem uma ideia do número de horas (nem tô considerando os anos bissextos!) que já passou falando sua própria língua, e mesmo assim de vez em quando a gente tropeça.

Agora faça o mesmo cálculo em outra língua. Com sorte, duas aulas por semana de 90 minutos: 3 horas por semana. Se fizer aula todas as 52 semanas do ano, o que nunca acontece, terão sido 156 horas em um ano. Isso corresponde a mais ou menos 7 dias da sua vida em português. Menos que uma semaninha.

E ainda tem gente que acha que dá pra ‘formar’ e colocar um ponto final…

3 07 2009

É verdade!!! Nunca pensei dessa maneira, vou até explicar esse raciocinio para as colegas, hehehehe ;)

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