Pra quem eu apelo?

4 07 2009

Nos momentos de maior aflição, quando o tempo ameaçava fechar e o bicho pegava, minha mãe sempre recorria às Almas do Purgatório. Para proteger e iluminar durante as provas finais dos filhos no colégio, para desembaraçar situações complicadas para as quais parecia não haver saída, precisando encontrar algum objeto de estimação ou documento muito importante que estivesse perdido no meio da ‘bagunça organizada’ que meu pai dizia ser o escritório dele, até nos estrondos dos trovões durante as muitas tempestades espetaculares que costumavam cair lá em casa, as Almas eram sempre requisitadas.

Não sei se era sua fé inabalável ou se realmente ela possuía um ótimo círculo de relacionamentos lá em cima, mas a verdade é que não me lembro de nenhuma ocasião em que mamãe tenha sido deixada na mão. Ela dizia que era importante não abusar ou preocupar as almas com pedidos fúteis ou com aqueles cuja solução dependesse do seu próprio empenho, e não da forcinha delas; as almas, aparentemente, eram ocupadíssimas.

Pois é. Então veio o Bento e, numa canetada só, extinguiu o purgatório. Não sei se ele entrou em negociações com o Criador nas Alturas ou se foi na base do tapetão mesmo, mas agora as almas já vão direto para seu destino final, sem escalas. Não sei que destino tiveram as que já estavam lá ‘de quarentena’ mas, não existindo mais esse limbo intermediário, imagino que hoje elas se encontrem dispersas pela Eternidade. E agora quem ficou na mão fui eu.

Cheguei no escritório ontem e reparei que o cordão de prata que estava usando no pescoço tinha perdido o fecho. O pingente, uma cruz celta que trouxe ano passado da Irlanda, tinha desaparecido. Tentei refazer o caminho da garagem até a minha sala, mas não encontrei nada. Também não estava dentro do carro. Otimista, pensei que talvez tivesse caído ainda dentro de casa, e que mais hora, menos hora, eu encontraria a cruzinha de prata no chão da cozinha ou na bancada do banheiro. Até agora, nada. Lembrei-me da mamãe, das almas e, logo em seguida, do Bento e do seu decreto-lei que estabelece que ‘Artigo 1: Fica, a partir de hoje, definitivamente extinto o Purgatório. Parágrafo Único: Revogam-se as disposições em contrário’. Hmpf.

Agora estou aqui, pensando em quem será que assumiu essa tarefa importantíssima de nos dar uma mãozinha nos problemas do cotidiano. Não queria incomodar o primeiro escalão celeste por conta de uma simples cruz banhada em prata que me custou a bagatela de 3 euros numa lojinha de souvenir em Dublin, mas é que era de estimação. Foi das poucas coisas que comprei para mim durante a viagem e, afinal de contas, era uma cruz, né? Genérica, mas era. Já apelei pra São Longuinho e prometi ‘dar três pulinho’, mas já se passaram 24 horas e nada. Vamos ver. Alguém aí tem outra sugestão? Tá valendo até simpatia, boralá ajudar a encontrar minha cruzinha?


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12 respostas

4 07 2009
asnalfa

Vire atéia que a cruz aparece!

4 07 2009
Monica

Asnalfa, do jeito que a lei de Murphy é implacável, capaz até de achar mesmo! Mas foram só 3 eurinhos, né, tô achando muito baratinho pra mudar assim, as minhas convicções… E depois, se eu não achar, olha só que desculpa mais legal pra eu voltar ao país – vou lá porque tenho que comprar outra cruzinha!

4 07 2009

Ahhhhh, se é pra te consolar… eu NUNCA acho nada.

HAHAHAHAAHHA, ninguem merece.

Certa vez perdi um pingente de bailarina que meu pai me deu quando fiz 18 anos, quase morri chorando e procurando ao mesmo tempo, parecia aquelas locas refugiadas agachada por todo o canto da casa procurando pelo tal pingente, depois de umas 3 semanas a minha prima achou no lugar mais ridiculo da casa: embaixo da minha cama. Lugar que olhei por diversas vezes!!!!

Aí minha mãe disse que na hora do desespero, ele nos cega. Acabamos não vendo as coisas mais bestas pela frente.

Quem sabe tu acha esse pingente quando tu tiver com todas as esperanças perdidas e o desespero de “estimação” bem longe de ti.

:D

4 07 2009
Monica

Rê, não é só o desespero que cega a gente não, meu pai tinha a Teoria da Perversidade dos Objetos Inanimados, que explica muito bem a situação: os objetos sabem que nós estamos procurando por eles, e aí se escondem de propósito. Depois voltam ao lugar de origem com a cara mais limpa do mundo! O Fernando Sabino dizia que isso era obra do ‘caboclo mexedor’… Eu ainda vou dar uma passada de pente fino no escritório, se o cordão estava lá, vai ver o pingente está lá, enfiado em algum cantinho! :-)

5 07 2009
Mercedes

Mônica, fica com vergonha não, pode pedir pro Pai que ele ajuda. Se seu pai estivesse aí, do teu lado, não ia pedir a ele pra te ajudar a procurar? Papai do céu é a mesma coisa. Pede prá ele como se fosse pra seu pai (porque é o que Ele é mesmo…). Pra mim sempre funciona.

5 07 2009
Monica

Menina, pois eu já pedi foi pra Pai, pra Mãe, pra Família toda! ;-)

5 07 2009
Mercedes

Ôôôôôô… ela é tão linda… parece as coisas do Highlander (minha graaaaande paixão). Se fosse eu que a tivesse perdido, 3 euros por 3 euros, chorava por 3 meses….

5 07 2009
Monica

A minha não é idêntica a essa, mas é parecida – aliás, é incrível a variedade de modelitos das cruzes celtas. A gente ía visitar os monastérios e ficava horas apreciando aquelas cruzes enormes, de pedra, muitas com uma riqueza de detalhes impressionante… E pensar que muitas delas estão ali desde o século 6… Na Escócia eu também vi um bocado, mas em geral as irlandesas são mais variadas. Mas é tudo lindo demais! Uma hora eu faço um post só sobre elas, foram fotos e mais fotos! :-)

5 07 2009
Cláudio Farias

Mônica, você ja pensou na escala dos santos? Pois é… você pode pedir para alguns deles cujas intercedências estão relacionadas às grandes dificuldades que surgem em nossa caminhada aqui na Terra. Por exemplo, Santo Expedito, que é o santo das causas urgentes, urgentíssimas; Santa Rita de Cássia, santa das causas impossíveis; São Judas Tadeu, que, salvo engano, intgercede por aqueles que, num momento de desespero, julgam irreversíveis certas situações. Se não der certo, lembre exatamente do momento em que você sentiu realmente a falta do fecho. Se foi a partir do momento em que você chegou ao escritório, provavelmente a cruz estará num desses lugares em algum cantinho bem, mas bem escondidinho mesmo. Talvez esteja dentro do carro, entre os bancos ou num cantinho qualquer. Para finalizar, já que você disse que não abandona a fé, lembre-se de que para Deus todas as coisas são possíveis. Grande abraço. Cláudio.

5 07 2009
Monica

Cláudio,
na segunda-feira vou ‘passar um pente fino’ no escritório, acho que, se ela caiu, foi ali mesmo. Pois é, tem esse monte de santos, minha causa não chega a ser urgentíssima, nem impossível – acho que o santo vai ficar é bravo comigo por ocupar seu tempo por causa de um miserê de 3 euros! :-)

Mas é bom saber a hierarquia, vai que uma hora dessas a gente precisa, né? Sempre fui uma católica muito chinfrim, então foi bom saber quem é quem! Sempre fui de ir direto ao primeiro escalão…

Abraço!

6 07 2009
Cláudio Farias

Oi, Mônica. Já passou o pente fino e conseguiu encontrar a cruzinha de prata? Espero que sim. Que a santa cruz seja a tua luz. Bjão no fundo coração.

10 07 2009
Monica

Necas da cruzinha até agora. Parece que sumiu num buraco negro…

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