A arte não é sua

Hélio Oiticica - instalaçãoAquele trilhardário japonês que comprou os girassóis, do Van Gogh, disse uma vez que o quadro seria enterrado com ele quando morresse. O mundo inteiro protestou, quem ele estava achando que era, pra fazer uma maluquice dessas? O Van Gogh é seu mas não é seu não, ô moço, sabe? O senhor é o guardião de uma obra que, na realidade, pertence a todos nós, fineza baixar a bola e pensar com um pouquinho mais de cuidado antes de ter mais ideias idiotas. E o japonês san aquiesceu e o mundo então pode respirar um pouco mais aliviado.

A obra de Hélio Oiticica estava na casa da família, no Rio de Janeiro. Numa casa. Não numa ala especial em algum museu do país, não espalhada por centenas de museus ao redor do mundo, não em pavilhões em galerias de arte pelo Sistema Solar. Estava em uma casa. Em um piscar de olhos, 90% da obra de Hélio Oiticica foi parar no lixo, destruída por um incêndio na casa do Jardim Botânico.

Não vou fazer as perguntas tradicionais e entrar nos questionamentos de praxe sobre o público e o privado, não quero entrar no joguinho de empurra que acontece nessas horas, não me interessa as cotas de responsabilidade. Eu só fico triste, muito triste mesmo, de ver que não a família, não a cidade do Rio de Janeiro, não o país, mas o mundo inteiro acaba de perder 90% do acervo de um artista. Imagina 90% do Van Gogh desaparecendo? Visualiza 90% do Monet indo pro espaço? Não pode, gente, uma coisa dessas não poderia jamais acontecer.

Publicado em 17 outubro, 2009, em artes, gente, notícias e marcado como , . Adicione o link aos favoritos. 13 Comentários.

  1. Será que fizeram um seguro?

    • Asnalfa, até que seguro de algum tipo eles devem ter, né? Caso contrário, são mais doidos do que a gente imagina. O problema é que o seguro cobre a perda material, as centenas de milhares de dólares, mas é só isso que ele faz. Hélio Oiticica já não está mais vivo para pintar de novo, ou fazer suas instalações, então a perda é realmente total. Quem tem, tem (e agora o preço das obras dele deve ter ido pra estratosfera). Quem não tem e não viu, acabou-se o que era doce…

  2. é vero, querida, uma coisa dessas é uma facada no coração. a arte é patrimônio da humanidade e deveria ser, sempre, um bem não perecível.

    beijos meus e lindo domingo para ti.

  3. Asnalfa, então eles são realmente doidos. Eu tenho seguro do meu carro, do meu apartamento, do meu escritório, e se eu juntar tudo isso não dá nem uma lasquinha de unha do valor das obras, né? Ter um acervo desses sem seguro é suicídio. Impensável em qualquer outro lugar do mundo. E eu fiquei sabendo de mais: os parangolés foram destruídos e não tem nem como tentar recriá-los ou restaurar algum que tenha ficado menos detonado. Por que? Porque não existem fotos. Loucura: um acervo desses sem documentação!!!

  4. “Eles nao fizeram seguro. Mostrou ontem no Jornal Nacional, foram mais de 350 milhoes de reais jogados fora.”

    “os parangolés foram destruídos e não tem nem como tentar recriá-los ou restaurar algum que tenha ficado menos detonado. Por que? Porque não existem fotos.”

    Querem saber o meu recado para os herdeiros?

    BEM FEITO!

    Vão ser burros assim na casa do xxxxxxx (*), mané otário nesse nível tem mais é que se xxxxx (**) mesmo!

    .

    .

    .

    (*) Oiticica.

    (**) Danar.

    • Arthur,
      como eu disse, as perdas financeiras são dos herdeiros, mas o lado artístico quem perde é todo mundo. Li hoje uma manchete dizendo que o dano no bolso pode ter sido menor do que o estimado anteriormente, mas isso é problema da família. O triste é ver que uma obra quase inteira foi pro beleleu, e sabe-se lá onde fica isso, né? Não acharia a menor graça em perder acervos importantes de outros artistas (tá, exceto os do funk carioca), sobretudo aqui no Brasil, onde a memória das pessoas para a arte e a cultura costuma ser bem fraquinha…

  5. Mas rolou uma perguntinha aqui: se o cara compra, não é dele? Se o japa quisesse comprar e logo em seguida picotar o quadro, não teria todo o direito de fazer isso?

    O japa devia chantagear: “Ah, vocês não querem que eu picote o quadro? Podem começar a fazer uma vaquinha. Se eu não tirar o investimento mais 100% em cinco anos, picotarei o quadro. Se o lucro chegar a 200%, doarei o quadro ao Louvre. Os interessados que se mexam.”

    Hehehehe…

    • Arthur,
      acho que é mas náo é, sabe como? Por isso é que eu acho um perigo ficar leiloando essas obras para particulares potencialmente sem-noção. Essa ideia meio mega-über-plus capitalista de que ‘isso é meu e eu faço o que eu quiser’ precisa ter alguns limitezinhos nessas horas. Essa desculpa foi usada pelos talibãs para destruir aquelas duas estátuas enormes de Buda – tá no meu território, eu mando e faço o que bem entender. Até os americanos, reis absolutos da lógica do individual sobre o coletivo, impõem certos limites para esses casos.

      Vou anotar seu nome, passar pras casas de leilão e avisar pra não vender nada de valor artístico pra você, hehehe… :-P

      boa semana!

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