Ah… bons tempos os de antigamente (e antigamente = virada do milênio), quando as pessoas armavam barraco e ficava tudo por ali mesmo, só o/a protagonista sem-noção e alguns poucos ou muitos coitados presenciando tudo (e, no meu caso, morrendo de vergonha pelo cerumano em questão)! No máximo, rendia uns dez segundos nas videocassetadas do programa do Fausto Ô Lôco Silva, mas era só.
Bom, os dez segundos de sub-celebridade aparentemente continuam, mas agora espaço e tempo ficaram muito mais dilatados, graças aos telefones celulares e suas microcâmeras e a internet. Da moça pedindo o chip de volta no meio da noite até aquela chinesa aos berros no embarque no aeroporto de Hong Kong (com tradução pro português…), piti virou sinônimo de upload no YouTube, geralmente acompanhado de comentários de internautas muitas vezes igualmente ofensivos e sem-noção.
O descontrole mais recente a cair na rede foi o daquela médica de Aracaju, que devia estar achando que embarque em voo internacional é igualzinho a tomar ônibus na rodoviária, basta chegar no último minuto e tudo bem. Frustrante, eu sei, eu também já perdi avião, e nem foi por culpa minha; foi cortesia da TAM, que atrasou pra descer em Heathrow, demorou horas pra soltar a bagagem (nossas malas, mesmo na classe executiva, foram as últimas na esteira) e, mesmo com mais de 4 horas pra ir de um aeroporto pra outro, de trem expresso, perdemos a conexão pra Dublin. O moço da Ryanair até que tentou, mas o voo estava no horário e nada feito. Morremos numa grana legal dormindo no hotel do aeroporto, pra embarcar no dia seguinte logo cedo.
É, dá vontade de voar no pescoço da atendente no check-in. Mas aí é que entra o superego. Dá vontade, mas a gente não faz. A gente fica puto, fica triste, faz cara de cachorro que caiu da mudança pra ver se a moça amolece aquele coração de pedra, apela pra Santo Expedito, tenta ser simpática enquanto vê aquela maldita plaquinha de ‘check-in closed’. Mas a gente não pula o balcão, xinga o funcionário da companhia aérea ou grita e berra pelo saguão vazio. Nãnãninã. Principalmente quando não se tem razão. E até mesmo quando a gente tem lá sua dose de razão, apelou, perdeu.
Agora, tão feio quanto o comportamente da médica foram os comentários de alguns internautas, convenientemente protegidos por nomes de usuário indecifráveis. Uma enxurrada de opiniões sexistas e xenófobas (como se idiotice escolhesse sexo e origem) mostrando que, no fundo, esses seres diferem muito pouco da barraqueira.
Olha, o descontrole circula livre, leve e solto no ciberespaço. Lembre-se bem disso da próxima vez que tiver vontade de protagonizar uma cena, sobretudo se estiver errado. Você provavelmente não vai gostar nada nada do que vai ver.
é, como eu já disse, essa história de “no meu tempo” é um sinal perigoso. Viver é um exercício de adpatação constante. Antes nos surpreendemos com o bem da velocidade da informação (de jangada leva uma eternidade, de saveiro leva uma encarnação). Agora temos que nos adaptar com o mal da velocidade da informação. Estamos sujeitos a acontecer de outras pessoas saberem o que acontece com a gente antes que nos mesmos saibamos.
Vai ser mais ou menos como naquele filme ‘Minority Report’: antes mesmo do fato acontecer, alguém já vai estar sabendo que vai acontecer… Como diriam os franceses, ‘chôze de lóc’!
Olha, Camargo, adaptar não acho que seja o verbo correto pro atual momento.
Acho que é mais fazer de conta que não existe. Ignorar.
A ignorância anda solta e agressões para pularem de patamar, de verbal pra física, é apenas questão de tempo.
Essa, por exemplo, é uma das razões da minha atual fobia por multidões.
Parece-me mais um degrau acima na patologia social, esse negócio de barraco, de “quero-os-meu-direito”!
Ela foi influenciada pelas novelas e filmes onde o mocinho compra a ultima passagem, faz o aviao parar, entra e termina sentando ao lado da mocinha!!
hahahahah
Pois é, Asnalfa, acho que o pessoal vai ter que começar a exibir em letras garrafais no começo do filme “Atenção: esta é uma obra de ficção. Não tentem fazer isso na vida real. Não funciona.” Será que assim vai?
Infelizmente, Mônica, o mundo hoje está cheio de “se acha”. É tanta gente “se achando” que se acha no direito de armar o maior barraco (e que barraco!) só por achar que é mais que todos, o (a) superimportante, não é vero?
Bjos de montão.
Também acho, Cláudio. Arrogância é o fim da dinastia. Aqui em casa tudo sempre foi na base do ‘pode falar o que quiser, mas olha o tom.’ e ninguém nem cogitava a possibilidade de sair da linha. Crescemos indivíduos calmos, educados e quase normais!
bjk
bah… que vergonha…
aliás… o povo faz barraco por tudo, o que é aquela guria da Unibam que estava na faculdade com vestido vermelho??? acho q ela ia fazer teste pra filme… kkkk
Os barracos estão mesmo em todo lugar, Rê. E a falta de noção – de ambos os lados – também, infelizmente…
Ah, nesse assunto eu já discordei da Mônica uma vez, não é? Pois serei coerente e discordarei novamente: um bom barraco às vezes é a melhor solução. Mas legal mesmo é quando a simples ameaça de um bom barraco já resolve o problema.
Uma vez eu estava tentando entrar em um banco e a porta giratória sempre travava quando eu tentava entrar. Celular, carteira, chaves, moedas, tudo foi colocado naquela maldita gavetinha e nada de a porta liberar minha passagem.
Pedi para destravarem manualmente a porta, porque obviamente estava regulada de modo excessivamente sensível, mas mentiram para mim que isso não era possível.
“Não posso fazer nada, o senhor deve estar com alguma peça de metal consigo” – dizia o segurança a cada vez que a porta trancava. No total acho que foram cinco tentativas de passar na porta, todas frustradas. Minha irritação era visível à distância.
A essas alturas o gerente já havia percebido o problema e tinha se aproximado e ficado olhando a cena a uns poucos metros, de braços cruzados.
Eu estava de calça jeans e camiseta, então não tinha onde esconder um Kalashnikov, mas o guarda só insistia que devia ter algo de metal comigo. De fato, havia uma coisa de metal comigo: a fivela do cinto. E sim, sugeriram que eu tirasse o cinto. Foi a gota d’água.
Sem dizer nada, olhei para o segurança e para o gerente com aquela cara de “tão brincando, né?” e eles permaneceram impassíveis. Aí eu pensei: se baixou o espírito-de-porco aqui, vamos ver quem é o melhor médium.
Ainda sem dizer uma palavra, subitamente tranqüilo, sob os olhares triunfante do segurança e curioso do gerente, voltei atrás, fui até a gavetinha, peguei todas as minhas coisas, o segurança abriu um sorriso de vitória… e eu entrei novamente pela porta giratória.
Logicamente a porta trancou de novo. A essas alturas o sorriso bobo do segurança se desmanchou e o gerente arregalou os olhos. MInha vez de sorrir. Com toda a calma, eu me sentei no chão, me encostei no vidro e calcei a porta com os pés. Para me tirar dali só havia duas soluções: quebrar o vidro ou abrir minha passagem para dentro do banco.
O segurança bateu no vidro e disse o óbvio: “o senhor não pode ficar aí”.
E eu respondi o óbvio: “quer que eu saia daqui, abre a porta. Daqui eu só saio para dentro do banco”.
Ele: “eu vou chamar a polícia”.
Eu, sacando o celular: “e eu vou chamar meu advogado e a imprensa, vai ser divertido demais explicar na TV que vocês queriam que eu fizesse um strip-tease no saguão de entrada para poder entrar e pagar um boleto, é capaz até de sair no Jornal Nacional”.
Não deu um minuto e o gerente da agência estava mandando abrir a porta para eu entrar. Nem chegou a fazer fila atrás de mim.
Ai, ai, ai… mais uma resposta mais comprida que a postagem original… queres uma parceria no blog, Mônica?
Ah, Arthur, mas você acabou então de concordar comigo! Você não deu barraco nenhum. Não berrou pelo saguão do banco. Não xingou a mãe do segurança. Não desceu as calças (tem horas que dá vontade de fazer isso mesmo, que nem fez a Solange Couto, lembra?) na frente de todo mundo. Simplesmente fez o certo: forçou o gerente a tomar uma atitude. Sem gritaria, sem ‘você sabe com quem está falando?’, sem espumar e descabelar nem nada. Isso não foi barraco não… E eu acho que fazer uma coisa assim é infinitamente melhor do que perder a compostura. Tem horas que dá vontade de fazer valer o ‘quando eu espalho, ninguém me junta’, eu sei. Uma vez, levando a faxineira do prédio ao pronto socorro, eu só consegui atendimento pra ela quando resolvi engrossar, caso contrário eu acho que ela estaria lá até hoje. Mas não gosto de fazer isso não. Sou mais a sua estratégia: mantenho a calma e deixo os outros descabelarem…
Barraco é o que a médica fez em Aracaju. Piti foi o que a chinesa fez no aeroporto de Hong Kong.
Quer dizer que eu sou chique e nem sei?
de alguma maneira o assunto mudou meu comportamento hj e talvez tenha me livrado de algumas encrencas. Fiz uma postagem no meu blog, misturando pitis e cidadania… quando puderem, passem lá e me ajudem a classificar um novo gênero social.
Êba, já vou!