Quando eu era pequena, a casa do meu tio era o ponto de encontro da família toda, fosse para o café de sábado à tarde com broa de milho e biscoito frito feitos pela Conceição, as emocionantes partidas de pingue-pongue e campeonatos de futebol de botão dos primos, as festas de final de ano ou para os frequentes saraus musicais. Quando o repertório era Zequinha de Abreu, meu avô, pé-de-valsa e seresteiro de mão cheia, puxava Branca no violão, enquanto dona Amita, professora de piano das primas, encerrava a rodada com Tico Tico no Fubá. Ela dizia que o chorinho devia ser tocado de maneira ‘brejeira e saltitante’, como se fosse uma brincadeira, mas que ninguém se iludisse, aquela era uma peça que de simples não tinha nada.
Pois parece que a Cecília Siqueira e o Fernando Lima, do duo Siqueira Lima, também tiveram uma dona Amita na vida deles, porque nessa versão a quatro mãos o que mais impressiona, além da técnica fantástica dos dois, é o tanto que eles parecem estar se divertindo tocando juntos.
(muitos beijos de obrigado pro Murilo, Flávio e Gabrio que, no maior ‘transmimento de pensação’, me enviaram o vídeo quase ao mesmo tempo!)
Outro duo:
Chico e Harpo Marx
Ge-ni-al!
Nada que eu pudesse dizer descreveria adequadamente um espetáculo assim.
E é a atitude dos dois – frize-se – que dá o tom mágico à apresentação.
Queria poder chegar nesse nível um dia.
Ô, ainda dá tempo!!!
Como diz um primo, ‘nunca é tarde quando se diz bom dia…’
Mas, brincadeiras de lado, o duo é realmente sensacional. Faz a gente ficar na maior ilusão de que tocar assim é facinho, facinho…
E tem umas coisas geniais que às vezes as pessoas não veem logo de cara. Por exemplo, na segunda parte, cada um está fazendo um dedilhado com a mão direita, mas a mão esquerda está tocando as notas do dedilhado do outro. Tem que dividir o cérebro em dois, né? E ainda fazer cara de feliz!!!
MInhasantaaquerupita, aí já é demais!
Eu me contento em aprender a tocar teclado direitinho, no nível de saber consertar com um floreio quando cometer um errinho besta, e já está de bom tamanho. Esse nível monstruoso de habilidade, cada um fazendo as notas para o outro dedilhar, eu deixo para a próxima encarnação.
Ao contrário de Salieri, eu considero uma dádiva a capacidade de reconhecer o gênio sem no entanto atingir seu nível de desempenho. Pobre daquele que, perante as maravilhas do mundo, ao invés do prazer da admiração, só consegue sentir inveja.
Arthur,
se o seu negócio é teclado, aqui estão Chico e Harpo Marx num quatro-mãos de tirar o chapeu (o acento caiu?). A leveza das mãos do Chico é quase irritante!