Arquivo do autor:Monica

Ano Novo de novo

Que o novo ano seja, para todos nós, uma celebração da alegria, dos sorrisos, da beleza e da harmonia, e que nunca nos falte cores, música e dança! Um lindo 2014 para todos!!!
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A lista do moço

O link chegou num e-mail com um bilhetinho: “Você TEM que ler isso”, mas o título do artigo – ‘20 motivos para eu odiar morar no Brasil’ – me deu uma certa antipatia imediata. É que a ideia toda me pareceu incrivelmente idiota. Pensa bem, você passa três anos em um país diferente do seu e o melhor que consegue fazer é produzir uma lista com algumas das coisas que te deixaram p. da vida por lá? Sério? Já pensou alguém ser convidado para ir a sua casa e depois sair por aí com ’10 itens medonhos na decoração da sua sala de visitas’, ‘5 coisas intragáveis no seu jantar’ ou ’20 detalhes ridículos da sua festa de casamento’? Delicadeza, saudades eternas, descanse em paz.

A lista me pareceu mais tola ainda quando parei pra pensar que, se eu conseguir enumerar vinte coisas que me irritam em qualquer esfera da minha vida – trabalho, relacionamento, lugar onde moro, vida pessoal –provavelmente vou achar bem mais produtivo gastar meu tempo e energia fazendo alguma coisa a respeito (pedindo demissão, me divorciando, mudando de casa, bairro ou cidade ou procurando terapia), ao invés de ficar de mimimi na internet, como se fosse uma criança mimada que não teve suas vontades atendidas a tempo e hora.

Resolvi dar uma chance ao moço e considerar que, sei lá, vai ver ele desembarcou nas nossas praias totalmente contra sua vontade, vai ver ele chegou em casa um belo dia e encontrou a esposa brasileira com a mudança empacotada e encaixotada e anunciando com um sorriso maroto,“Adivinha só, querido, vamos nos mudar para o Brasil!”, ou então vai ver ele perdeu carro, casa e as economias na confusão de 2008 e, pra não perder também o emprego, teve que aceitar a transferência para um canto qualquer do patropi. Nessas circunstâncias, fica difícil mesmo encontrar qualquer espacinho no coração pra boa vontade para com a nova terra.

É claro que eu concordo com vários itens da lista do moço. Sou a primeira a reclamar da péssima qualidade dos nossos serviços, da falta de pontualidade das pessoas, do cultivo à cultura do improviso e do ‘jeitinho’, da burocracia burra que me dá a impressão de estar perpetuamente numa gincana, onde a cada nova cópia de documento entregue a um funcionário mal humorado e incompetente, uma outra ‘tarefa’ me é apresentada. Concordo que pagamos caro por serviços ruins de telefonia, internet, eletricidade e o escambau, que temos impostos demais (e pagamos tudo de novo para ter um serviço privado apenas alguns graus acima do remotamente tolerável), que a corrupção é um problemão que está cada vez mais difícil de resolver. Se a gente, que convive com essa esculhambação há anos, fica a um passo de pegar um lança-chamas pra resolver a questão toda de uma maneira, digamos, menos filosófica, calculo então o que deve ser tudo isso para um estrangeiro.

Mas fico pensando cá com os meus botões que existem algumas criaturas nesse mundão de modêus que realmente não deveriam jamais sair de sua zona de conforto, não deveriam nunca se aventurar para adiante de seu bairro, da sua cidade, do seu mundinho cercado e murado, que fariam por bem ficarem quietinhas e bonitinhas em seus próprios cantos, seguras e protegidas de tudo que lhes é diferente, inusitado ou potencialmente ‘ameaçador’.  Essas pessoinhas querem ver a sua cultura estampada na cultura do outro, querem encontrar sempre as mesmas coisinhas que povoam o seu universo, elas se encolhem frente ao desconhecido, ao invés de abraçá-lo e dizer ‘ôba, vamos explorar’.  Reclamam dos hábitos do outro, do que comem e bebem (gente, o moço disse que a comida brasileira é sem graça, cadê os amigos – ele devia ter algum, não é possível – pra levar o coitado a qualquer botequim pra comer e beber algo que preste?). E, curiosamente, reclamam também de coisas que estão presentes na sua própria cultura. Em resumo: são uns chatos.

O ponto de vista do moço poderia ser uma fonte interessante pra gente analisar como somos vistos por olhos estrangeiros. Esse é um exercício extremamente importante (e o qual, diga-se de passagem, estrangeiros como esse aí raramente se dão ao trabalho de fazer).  Seria também uma oportunidade bacana de procurar compreender o que torna cada cultura única e o que nos faz semelhantes, e como essas diferenças e semelhanças podem ser usadas para melhorar o entendimento entre as pessoas.  Mas pra mim, depois de ler e reler a lista algumas vezes, tudo me soou como um desabafo mal humorado de alguém que nem queria estar aqui, pra início de conversa. Quanto desperdício.
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números

Para 2014

Esse discurso não faz parte de nenhuma palestra motivacional. É Tim Minchin, então a gente pode esperar humor e ironia de ótima safra. Porque tudo bem, o mundo até que precisa de coisas grandiosas, pessoas superlativas, grandes feitos, momentos de ‘uau’. Mas a vida da gente também é feita de coisinhas corriqueiras, pequenos gestos, cuidados cotidianos, miudezas que nos fazem felizinhos e nos dão sentido. E não podemos nos esquecer disso de jeito nenhum. Boa hora pra se pensar nisso, com um 2014 aí, novinho em folha.
(se a legenda em português não aparecer, clique no ícone pequenininho do teclado, na parte inferior direita do vídeo)
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Rebobinando 2013

Foram tantas as reclamações, tão enfáticos os clamores, tão veementes os lamentos, que no fim eu me vi obrigada a parar e me perguntar “Êpa, mas 2013 foi assim esse horror todomussum - fim do ano que as pessoas estão dizendo?” Procurei por sinais inequívocos de encrenca, tentei listar os maiores problemas, recapitulei meus passos pra detectar onde foi que pode ter dado merda e olha, folgo em afirmar que não, este ano que ora está por um beiço de pulga não foi (pelo menos pra mim) esse pandemônio todo e, pra falar a verdade, passou léguas distante de outros anos em outras épocas que, citando Sua Majestade, eu tranquilamente arriscaria chamar de ‘annus horribilis’.

Tudo bem, ainda não foi desta vez que acrescentei muitos zeros à direita na minha conta bancária (não acertei uma mísera quadrinha na MegaSena, não ganhei nem mesmo um brinde de plástico na pescaria da festa junina da escola da pequena), George Clooney continuou ignorando minha existência, não enviei postais de Bora Bora ou qualquer outro lugar exótico e paradisíaco para os meus amigos, não falei nem dez por cento dos f***-se que eu deveria e gostaria de ter dito, e ainda fiquei devendo ver este patropi abençoado por Deus e bonito por natureza (mas que beleza!) dar passos firmes e resolvidos na direção de se tornar um lugar realmente civilizado pra se viver (ensaiamos uns passinhos aqui e ali, mas não fomos assim muito longe não, pensando bem).

Em compensação, trabalhei muito e bem, e continuo apaixonada pelo que faço, ‘ganhei’ alunos que, mais que aprendizes, me ensinaram montes de coisas bacanas (uma troca que sempre me encanta e me renova, eu lá com o present perfect e os pronomes relativos, aí eles vêm com receitas de suflê que só a avó tinha, técnicas para fazer uma sutura perfeita que não deixará cicatrizes, explicações sobre a diferença entre calúnia, injúria e difamação, dicas maravilhosas de livros e filmes que eu nem sonhava que existiam…), encontrei profissionais online e off que generosamente compartilharam comigo suas descobertas, suas dúvidas, suas vivências.

Reencontrei amigos, renovei e fiz novas e muito queridas amizades – e quem desdenha as redes sociais não faz ideia de quanta gente bacana, linda e interessante está espalhada aí por esse mundo de modêus, só esperando uma chancezinha de nada pra virar seu amigo de infância – tive família, amores e amigos ao meu lado, recarregando minhas energias tanto ao vivo e a cores como pela virtualidade, fui a festas, batizados, aniversários, casamentos e tantas outras celebrações onde pessoas queridas estavam lindas e felizes e me fizeram linda e feliz junto com elas, fiz muitos brindes, vi ótimos filmes, li muito (como há muito tempo não lia), fui a concertos, exposições, vi Elton, vi Paul e faltou um cadinho só pra ver também Bruce e Eddie, fiz pequenos passeios deliciosos, caminhadas nas montanhas, fiz muitas fotos, ouvi muita música boa (porque eu não ouço música ruim, hoho). Me mantive saudável e até a onda de perdas que andava rondando os meus nos últimos anos fez a delicadeza de dar um tempinho.

Então acho que eu tenho mesmo muito mais a agradecer do que reclamar. 2013 não vai chegar a receber um Oscar por seu desempenho, mas aparentemente me foi mais suave do que pra muita gente. 2014 taí nas portas, com muitos (e alguns complicados) desafios, com problemões com os quais eventualmente teremos que lidar, bons projetos na cabeça e aquele inevitável otimismo que costumamos ter ao dar início a qualquer empreitada. Não tenho assim grandes pretensões, espero que os dias me sejam leves e que eu continue recebendo toda essa energia bacana que chegou até mim neste ano. E que eu possa continuar retribuindo com a minha própria. Um muito Feliz Ano Novo para todos nós!

Madiba

“We are all islands till comes the day we cross the burning water”…
(Asimbonanga – Johnny Clegg)

R.I.P. Nelson Mandela.
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curtinhas

* Entra o mês de dezembro e eu automaticamente abandono o mimimi que se apossa de mim em novembro, caio no clima das festas de fim de ano e me divirto horrores com o combo ‘enfeites, presentes e reuniões etílicas’. Se você joga no time dos que odeiam Natal e Ano Novo, é bom manter uma distância segura de minha pessoinha, porque eu entro na vibe Jingle Bells e adoro tudo. ‘De menas’ o trânsito insuportavelmente caótico, claro, esse é um teste em que a minha paciência zen-budista sempre tira nota zero.

* Os moços (já bem grandinhos na casa dos 40 anos, diga-se de passagem) resolvem dar um rolé no sábado à tarde e explodem o Porsche num poste, a mais de 150 por hora numa área urbana onde a velocidade máxima é 70. Fiquei com muita pena e tal, moço tinha filha, fazia sucesso no cinema, estava empenhado em causas humanitárias pelo mundo afora, era bonito pra dedéu e tudo o mais. Mas olha, uma morte besta dessas tem muito mais a ver com falta de juízo na cabeça do que com fatalidade.

* Kyle Lambert é um artista inglês que faz ilustrações e animações sensacionais. E como papel não é suficiente pro seu talento, ele também pinta com os dedos. Num iPad. E faz coisas absolutamente sensacionais, como este retrato do ator Morgan Freeman.

* Daqueles mistérios pro Poirot investigar: o helicóptero tem dono, a empresa de onde saiu o helicóptero tem dono, a fazenda onde o helicóptero pousou tem dono, o piloto que pousou o helicóptero da empresa na fazenda tem patrão, o voo foi encomendado e pago por alguém. Já a droga – e não estamos falando de uma trouxinha desavisadamente colocada no bolso do seu paletó, meu amigo, estamos falando de quase meia tonelada – essa é filha bastarda de pai desconhecido.

* Eu já tou velha pra pelo menos duas coisas nessa vida: perder o sono por causa da opinião dos outros sobre a minha pessoa e pra achar que avaliações subjetivas são algo que se deva levar minimamente a sério. Dito isso, mas que coisa mais idiota e sem-noção esses aplicativos Tubby e Lulu, que permitem que seus respectivos usuários e usuárias saiam por aí dando notas de avaliação nas pessoas, hein? Em tempos de cyber-bullying, discussões sobre invasão de privacidade e de jovens cometendo suicídio por terem suas vidas expostas nas redes sociais, programinhas como esses mostram que no fundo, no fundo, o cerumano continua sendo uma criaturinha muito da besta.

* Blue Jasmine. Olha, acho que há muito tempo não via o Woody Allen detonar tanto um personagem protagonista. Depois da temporada de filmes mais levinhos que ele andou fazendo, esse é um soco no estômago. E Cate Blanchett reina absoluta. Vale a pena demais, e se você se lembrar de ‘Um Bonde Chamado Desejo’, não é mera coincidência.

* Coisa marrrrlindinha e delicada esse vídeo da francesa Emilie Simon, com uma animação com a maior pinta de Tim Burton…
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Diferente, mas bem parecido

O ano era 1963. Enquanto olhava as imagens de Martin Luther King falando para centenas de milhares de pessoas em Washington DC durante a marcha pelos direitos humanos, um italiano amigo dos meus pais comentou: “É um absurdo o que estão fazendo nos Estados Unidos, esse preconceito contra os negros, toda essa violência, a discriminação…” Meu pai comentou que sim, era um absurdo mas que, pensando bem, os italianos do norte também discriminavam horrivelmente os do sul (embora sem a mesma violência explícita), faziam pouco deles e em geral consideravam a turma abaixo de Roma inferior a galera de Milão e, né, não se falava muito sobre isso por ali. Vira o italiano, claramente alterado: “Mas não, aquela é uma outra gente!!!”

Quer dizer. O caso é que é facinho apontar o preconceito dos outros. Enxergar o nosso próprio preconceito, admiti-lo e (de preferência) fazer alguma coisa a respeito, taí o grande desafio.
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O conselheiro do crime

Eu e a minha perpétua antipatia das distribuidoras e suas escolhas de títulos de filmes em português. Ok, ‘counselor’ pode ser traduzido pro português como conselheiro, mas no caso específico de ‘O Conselheiro do Crime’, a palavra mais exata talvez fosse simplesmente ‘advogado’, ou qualquer outro termo nessa linha. É assim, sem nome próprio mesmo, que o personagem de Michael Fassbender é chamado e, a bem da verdade, ele não aconselha coisa alguma pra ninguém – na realidade, são os outros que passam as quase duas horas de projeção dando dicas pro moço e questionando o que ele deve ou não fazer, alertando sobre os riscos e consequências de suas decisões e tudo o mais.

O trailer também pode te pegar no contra-pé. Javier Bardem, Penélope Cruz, Brad Pitt, Michael Fassbender, Cameron Diaz (a gente não vê, mas Bruno Ganz e Rosie Perez também estão lá), todos na mesma produção? Mais estrelas numa mesma tela do que isso, só se fosse coisa do Woody Allen ou Robert Altman. Parece que vai ser um filme com muita ação (falar sobre roubo de carregamento de drogas atravessando a fronteira do México pros EUA é garantia de bons tiroteios e explosões). Parece que vai ter intriga e muita ‘furação de olho’. Parece que a história vai ser firmar em um determinado personagem. Mas não, não e não.

O que tem de verdade é um texto do escritor Cormac McCarthy (em seu primeiro roteiro original) repleto de diálogos curtos, ácidos, rápidos e até mesmo um tanto cliché e fake (não parecem conversas que pessoas como aquelas teriam em condições normais de temperatura e pressão) contrastando com o desenvolvimento bastante lento da trama – acontece muito pouca coisa na primeira metade do filme. E quando as coisas acontecem pra valer, a impressão que temos é a de que nenhum dos personagens mostrados ali tem qualquer responsabilidade ou participação nos acontecimentos – as tramas seguem em paralelo e ao largo deles, e são os diálogos que as costuram. O arremate do contraste com o texto sofisticado fica por conta da fotografia e iluminação saturadas e uma ambientação decididamente cafona (o que são aquelas camisas do Bardem e as tatuagens de pegadas de onça da Cameron Diaz, meodeols?).

Mas, pra  mim, o filme ficou devendo. E eu vou arriscar um palpite assim, da minha cabeça. O que faltou foi um diretor com o mesmo senso de humor negro, crítico e irônico de McCarthy. Ficou faltando um Ethan e Joel Coen, que fizeram uma bela adaptação de ‘Onde os Fracos Não Têm Vez’, do mesmo McCarthy. Ridley Scott é um super diretor, mas acho que, para aproveitar ao máximo a riqueza de um roteiro assim, era preciso mais. Era preciso explorar e espremer o texto ao máximo. Daí que ficou um filme interessante, com uma fotografia interessante, com excelentes atores em papéis interessantes. Mas parou por aí. Pena.
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counselor2

O Queen faria 40 anos em fevereiro…

(há dez anos eu perdia um grande amigo. Há quase três, publiquei este post.)
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… e se você estivesse por aqui agora, certeza de que arrumaríamos um jeito de comemorar, você jamais deixaria passar uma data dessas em branco. Talvez a gente marcasse um jantar na sua casa, e mesmo com aquele tanto de vinhos maravilhosos na cave, você sairia pra comprar outra garrafa, porque nenhum deles combinaria com o que você estava preparando. Aí a gente ouviria toda a sua coleção, e isso poderia levar a noite inteira, mas tudo bem, porque tinha os vinis, os CDs (inclusive aqueles das carreiras-solo), as gravações exclusivas que só os fãs com carteirinha do fã-clube como você tinham acesso, antes que o mp3 e a internet entrassem em cena, facilitando a nossa vida. E você me contaria todas as histórias de novo, todos os casos com todos os detalhes, aquelas coisas que só quem tinha lido todas as biografias, colecionado todos os artigos, assistido a todas as entrevistas, podia saber. Se estivéssemos aqui em casa, tentaríamos pela milésima vez cantar ‘My Melancholy Blues’ direito, mas eu nem me arriscaria na introdução do piano e iria me atrapalhar toda com a partitura como sempre e a gente morreria de rir e continuaria cantando sem acompanhamento mesmo, e aquele riso frouxo não combinaria de jeito nenhum com a fossa da música, mas aí é que estava a graça. Se você estivesse por aqui, a gente poderia cantar de novo ‘Guide Me Home’, você fazendo a voz do Freddie, eu faria a da Montserrat, porque já tem tempo que eu não canto essa música, na verdade desde que a frase “Guide me back safely to my home where I belong once more” ganhou um significado totalmente diferente pra mim, e por isso eu sempre paro antes dela. A gente pegaria a reprodução do quadro ‘The Fairy Feller’s Master Stroke’ que você me deu de presente – e que está pendurada aqui mesmo no escritório – e tentaria encontrar todos os personagens descritos na música. E você me faria contar outra vez sobre quando vi o Queen no Rock in Rio, em um distante 1985, e me diria mais uma vez que esse show você queria muito ter assistido (embora você tenha ido a tantos outros em tantos lugares). Você tentaria me convencer pela centésima vez de que os albuns depois de ‘The Game’ eram bacanas, eu te explicaria por que eu achava aquele lado mais pop meio chatinho, mas ambos concordaríamos que ‘Somebody To Love’ é a melhor música pra cantar bem alto no banheiro ou dentro do carro. E então terminaríamos a noite cantando ‘Seven Seas of Rhye’, aquela que decidimos que era a nossa cara. Isso tudo a gente bem que poderia fazer agora, se 2003 nunca tivesse existido e você ainda estivesse por aqui pra comemorarmos juntos esses 40.

curtinhas

* “Ler bons livros não permite que você goste de livros ruins.” (isola Pribby em carta para Miss Juliet Ashton, no livro ‘A sociedade literária e a torta de casca de batata’). Olha. Tá coberta de razão a Isola, viu.

* Poizintão. Muita gente me falou de ‘O Arroz de Palma’, ganhei no aniversário, finalmente comecei a ler. E olha, parei faltando aí uns 20% pra acabar (um dia eu termino, porque minha esperança de que ele melhore na reta final é maior do que a preguiça de continuar a leitura). Mas nossinhora, que luta inglória! Não o tema, que eu até gosto bastante de histórias de imigrantes, das famílias através dos tempos e tals. Mas alguém precisa avisar pro autor que é totalmente possível escrever um livro para adultos usando orações subordinadas. Frases curtas podem causar um efeito incrível; trezentas e tantas páginas só com sujeito-verbo-predicado-ponto é de dar vontade de tacar o livro na parede.

* “Hemingway suicidou porque aceitou o papel que lhe impuseram, ou o que ele mesmo se impôs. A revista Time escreveu no seu necrológio: ‘Vivia olhando tudo como se fosse pela ultima vez. Estava sempre se despedindo.’ Resolvi fazer exatamente o contrário: estou sempre chegando. Não aceitei a imposição de um caminho que não era o meu, e procuro olhar tudo como se fosse pela primeira vez. Tento a cada dia recuperar esse estado de pureza. Renascer a cada manhã não digo que consiga sempre, mas tento. Como se eu tivesse acabado de desembarcar neste mundo.”  Fernando Sabino, sêolindo.

* Aquela esperança tola que eu cultivava com muito amor lá no cantinho do coração, de que a internêta nos traria uma muito bem vinda pluralidade de informações, ideias e pontos de vista, e que tudo isso seria ótimo para enriquecer os debates sobre qualquer assunto e fazer com que as pessoas aprendessem umas com as outras, olha, tá cada dia indo mais pro fundo do poço um cadinho. Galera hoje em dia não quer discutir, quer ganhar a discussão. Contra/a favor dos testes nos bichinhos, contra/a favor do governo, do aborto, casamento gay, alimentos transgênicos, da liberação da maconha, biografias não autorizadas, decisões do STF, desse ou daquele grupo religioso, nada disso tem importância. Interessa mesmo é a polêmica, o bate-boca, é estufar o peito e gritar mais alto pra não ouvir o outro e assim acreditar que seus argumentos são obviamente espetaculares e imbatíveis. Pelamor, o que foi que deu na cabeça desse pessoal pra achar que tudo tem que ser uma eterna final de campeonato de futebol?

* Primeiro foi o Mirror reclamando que o Brasil não tem condições de sediar a Copa no ano que vem, agora o Chicago Sun- Times fala que os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio vão ser um baita fiasco. Não sei por que esse pessoal lá fora tá surpreso e fazendo esse alvoroço todo. Passaram anos enchendo tanto a bola do Luiz Inácio que no final o senhorinho se comparou a Nelson Mandela e entrou naquela vibe-egotrip-Leonardo-di-Caprio de “I’m the king of the world”, daí resolveu que era pra sediar até torneio internacional de par-ou-impar. Poizé. De repente descobriram que não era exatamente bem assim. Tivessem perguntado pra um bocado de brasileiros por aqui lááá atrás, em 2007 mesmo, e a gente já teria cantado a pedra pra eles e explicado como as coisas (não) funcionam por estas bandas. Agora é respirar fundo, sentar à margem do rio Piedra e chorar, amiguinhos.

* Caetano, Paula, Chico, Milton, Djavan, Roberto, adôuro o otimismo de vocês. Pouco me importa o que suas biografias não autorizadas revelariam assim, de tão chocante e inimaginável sobre suas pessoínhas, quase tudo vocês provavelmente já contaram pra Caras ou já saiu publicado em algum site de sub-celebridades. O que me preocupa mesmo, de verdade, é de repente a gente ter que ler biografias que afirmam que Jair Bolsonaro e Renan Calheiros são homens de bem ou que José Sarney ama e faz tudo pelo Maranhão. Pensem nos perigos de só se poder contar uma história por um único ponto de vista, meus queridos, até parece que vocês não estavam aqui nos anos negros da ditadura. Não se deem tanta importância, mas preocupem-se um pouquinho mais com o que pode virar a nossa História. Tenham a santa paciência.

Quase surreal

Foram quase três dias. Cinco protocolos de atendimento. Uma visita à loja, que não deu em nada. No final, na última conversa, me apareceu o Felipe do outro lado da linha. O Felipe resolveu o meu problema, mas só porque eu apelei para o “Eu vou fazer uma reclamação formal na Anatel se você me deixar esperando meio segundo que seja.” Funcionou. Sempre funciona. Aí eu fiquei feliz porque, né, cinco protocolos de atendimento e uma visita à loja mais tarde, eu finalmente tinha conseguido fazer o cancelamento da linha, e a saga deveria ter terminado ali. Mas, no sábado, a mocinha da operadora me liga:

- A senhora Mônica, por favor? (é claro que é gente do telemarketing, nenhum amigo em sã consciência me chamaria de ‘senhora’)
- Sou eu.
- Bom dia, senhora Mônica. Sou a Fulana, da operadora XYZ. Gostaria de estar falando com a senhora sobre o seu cancelamento.
- Algum problema?
- A senhora cancelou a linha por qual motivo?
- Olha, deve estar aí no sistema de vocês, eu já repeti essa história cinco vezes. Estou de mudança pro exterior. (é claro que eu não estou de mudança nem pro apartamento ao lado, mas imaginei que essa seria uma boa explicação para um cancelamento de linha telefônica. Mais definitivo do que isso, só por motivo de falecimento, mas é que eu preferia continuar viva)
-
Mas a senhora vai estar mudando em caráter definitivo?
- Fulana, né? Ô Fulana, não existem certezas nessa vida. Certo mesmo, de verdade, só duas coisas: que eu, você e todo mundo um dia vamos morrer e que, até isso acontecer, eu, você e todo mundo vamos pagar uma fortuna em impostos. Mas te digo que sim, é definitivo, pelo menos por enquanto.
- Temos uma oferta para fazer pra senhora – a senhora vai estar pagando apenas X reais por mês durante um ano, e com isso vai estar mantendo seu número atual.
- E por que raios eu ia fazer uma coisa dessas, se vou estar noutro país?
- (ignorando minha pergunta) E, com mais Y reais, a senhora também vai estar tendo direito a TV a cabo e internet com velocidade de Z Mega.
- Querida (eu detesto usar ‘querida’, mas foi só o que me ocorreu pra não apelar para um ‘sua anta’), a operadora XYZ trabalha em outros países?
- Não, senhora Mônica. Operamos em todo o território nacional.
- Então você poderia por favor me explicar como é que vocês pretendem me garantir todos os serviços de telefone, internet e TV a cabo do outro lado do Atlântico (já que vai mudar, fia, vai pro outro lado do oceano, que é pro cabo não chegar de jeito nenhum), que é onde eu vou estar?
- Mas a senhora vai estar pagando um preço muito menor do que as assinaturas normais.
- Fulana, eu sei que vocês trabalham sob pressão. Não é fácil atingir as metas. Talvez o seu supervisor esteja neste exato momento bufando atrás do seu pescoço, querendo saber como você está trabalhando. E eu espero de coração que esta ligação esteja sendo gravada, que é pro pessoal do treinamento da operadora XYZ perceber que porcaria de treinamento eles estão dando pra vocês. Porque, francamente, não tenho nem palavras. (era pra eu completar ‘por favor, esfregue seus dois neurônios um no outro, quem sabe solta uma faísca e seu cérebro pega no tranco?’, mas achei que ela não iria entender). Eu não quero nada disso. Só quero continuar cancelada, como me prometeu o Felipe outro dia.
- Mas se a senhora vai estar mudando, vai ficar alguém no endereço?
- Acho que isso, querida (o ‘querida’ de novo…) não é da sua conta, nem da operadora XYZ. Vamos fazer o seguinte: vou contar até três e vou desligar. Se você contar junto comigo, a gente desliga juntas. Se eu for mais rápida, ‘vou estar desligando’ na sua cara. Combinado? Bora: 3… 2… 1… tuuuuuu…

Olha. Fica difícil manter o amor quentinho no coração quando aparecem criaturas assim na vida da gente, viu. Mais um naco da minha fé no cerumano desce o ralo.

Às vezes é assim mesmo

“De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo.
O mundo, cheio de departamentos, não é a bola
bonita caminhando
solta no espaço.”

(Paixão - Adélia Prado)

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