Tossi um arco-íris

Eu sei. Hoje é véspera de eleição, tá todo mundo naquela vibe mezzo-entusiasmada-mezzo irritante (pelo menos, pra mim) de sair pelas redes sociais elogiando os seus candidatos e descendo o pau nos candidatos dos outros. Mas é preciso manter bem claras as prioridades nesses momentos, amiguinhos, ainda mais porque 4 de outubro é dia de São Chiquinho, e São Chiquinho é, de longe, o meu candidato para qualquer coisa nesse mundo. Portanto, tenho apenas três coisinhas pra dizer pra vocês: Pandinhas. Tomando. Dedêra. Todo o resto é secundário.

Curtinhas – um post mimimi

tudo coisadoRá. Eu ando sumida, o blog juntando poeira e, quando resolvo aparecer, ainda é pra reclamar? Olha, tou boba de ver a paciência de vocês para com esta que vos escreve…

* “A edição desta obra contou com o trabalho, dedicação e empenho de vários profissionais. Porém podem ocorrer erros de digitação e impressão.” Bom, primeiro que uma obra que conta com o trabalho de vários profissionais não deveria incluir erros de digitação e impressão. E se ficasse só nisso, se fossem só umas coisinhas de nada, eu até daria um desconto. Mas, amiguinhos, já fazia um bocado de tempo que eu não lia um livro com uma tradução tão meia-boca (‘audience’ de um show de rock traduzida como ‘audiência’, sem falar nas expressões idiomáticas passadas ao pé-da-letra para o português), sentenças incompletas, erros básicos de ortografia (‘brexó’, gente, sério?), o mais que temido ‘haviam’ (em “Haviam tantas seringas…”), erros de concordância (“as malas começaram a serem feitas”), nomes errados nas legendas das fotos, e que diabos significa “Um pouco de atenção sussurada foi prestada”?, tudo isso mostrando que a coisa toda deve ter sido feita a toque de caixa. Lá pela página 80, resolvi parar tudo e recomeçar a leitura, dessa vez com uma caneta marca-texto amarelona para destacar as aberrações. Olha, se o livro não fosse interessante pelo conteúdo, te garanto que já teria atirado ele pela janela. Francamente, que tortura.

* Um lado chamando o outro de ‘coxinha’ e ‘elite’. O outro lado acusando o ‘um’ de ser um bando de aproveitadores vagabundos que só querem botar o burro na sombra e aproveitar bolsa-isso e bolsa-aquilo. Tou doida pra esse negócio de eleição acabar logo, pra eu poder tentar gostar das pessoas de novo porque ó, tá Soda, Fócrates.

* Uma coisa que me impressionou no debate ontem na TV Record (não, não assisti, vi os comentários e links hoje na internêta) foi ver o senhor Levy Fidelix falar aquela monstruosidade toda sobre os direitos de cidadãos como eu e você e na hora nenhum, eu repito, nenhum dos outros candidatos colocá-lo em seu devido lugar. Alguém sem medinho ali pra mandar um ‘shut the fuck up’, cadê? A indignação veio mesmo em tempo real só nas redes sociais. Que vergonha, senhores candidatos, que vergonha.

* Meu conhecimento sobre o mundo das artes (sobretudo sobre o que é pós-moderno e pós-tudo) é, reconheço, limitado e não avança muito além do gostei-não-gostei. Mas, gente, a moça vai lá e faz uma instalação na galeria de arte. Arte-invisível, ela chama. Você chega na frente da parede e tem um nada de mais ou menos dez metros de comprimento. Ou tem que desviar do meio da sala porque, né, tem uma escultura invisível bem ali. E o povo lá, achando o máximo. Só falta dizer que a trilha sonora é o John Cage e seu 4’33”. Sim, eu sei, existe todo um questionamento por trás dessas coisas, um mega ponto de interrogação sobre o que é a arte e talicoisa, tá, concordo, uma certa transgressão do que já está aí estabelecido, uma quebra de paradigmas e coisital. Ok. Mas daí a me pedirem pra fazer cara de conteúdo pra isso, sorry, rola não.

* A diferença, amiguinhos, é que numa democracia as pessoas podem ir às ruas elogiar e pedir a volta dos militares ao poder. Agora tentem fazer o caminho inverso procês verem no que dá.

* A Sabesp teimando em dizer pros paulistas que não há racionamento de água em São Paulo parece o personagem do Michael Palin tentando convencer o John Cleese de que aquele papagaio duro e seco que ele comprou não está morto, está só dormindo.

* Os algoritmos do Google e do Facebook são uma pândega. Você faz uma busca qualquer, sabe, aquela coisa que, estivesse numa loja, você diria pro vendedor “obrigada, tou só olhando”, e no instante seguinte você é bombardeada com zilhões de anúncios online oferecendo produtos similares. E a brincadeira continua durante semanas, mesmo depois de você já ter se esquecido completamente de que raios você estava procurando.

* Aí entra a primavera e o termômetro me diz que a temperatura está em 32 graus, com sensação térmica de 36. Olha, só não estou derretendo porque tá tão, mas tão seco aqui nas montanhas, que antes de me liquefazer eu já evaporo. Pensando seriamente em me mudar pra dentro da minha geladeira no verão.

* Mimimi de verdade. Uma cortesia do Dodô, o sábio, que me passou o link.

Ninguém me perguntou, mas…

Olha só, ninguém me perguntou, eu sei, mas eu acho assim, ó: todo mundo tem direito a opinião. Você pode ir pro lado que bem entender. Pode ser a favor do governo ou ficar com a oposição (embora eles sejam bem mais parecidinhos do que a gente gostaria que fossem). Pode acreditar que a democracia anda mal das pernas mas, né, ainda é o que temos para o almoço, ou achar que bom mesmo era quando os milicos chegavam derrubando tudo. Pode dar razão pra puliça ou pros manifestantes nas ruas. Você pode apoiar os israelenses ou os palestinos (embora não custe lembrar que a peleja é entre Israel e o Hamas), pode ficar putin com o Putin e os separatistas ou com o governo da Ucrânia. Pode ser fã do Obama ou achar ele um bocó. Você pode ter a fé que quiser e achar que a sua é mais legal, ou até preferir não ter fé nenhuma, pode achar que o seu time é o mais legal, pode achar funk ou sertanejo ou axé o máximo ou o fim da dinastia, pode ter a opinião que bem entender sobre todo e qualquer assunto, polêmico ou não. O que você não pode, ou pelo menos não deveria, de jeito maneira, é:
– guardar sua consciência crítica no fundo da gaveta e defender cega e incondicionalmente o ‘seu lado’, como se o ‘seu lado’ estivesse sempre e todas as vezes coberto de razão e o ‘outro lado’ sempre falando e fazendo merda, sempre sempre, e com esse raciocínio ser incapaz de encontrar furos nos argumentos do ‘seu lado';
– ofender e desrespeitar quem pensa como o ‘outro lado’, como se o ‘outro lado’ nunca tivesse absolutamente nada a acrescentar à discussão e que, portanto, qualquer coisa que o ‘outro lado’ pensa está, por definição, completamente errado;
– achar que se alguém não escancara a sua opinião e entra nas discussões curtindo, comentando e compartilhando nas redes sociais (como se as redes sociais da internêta fossem as únicas redes sociais existentes e o único espaço para troca de ideias nesse mundo de modêus), isso necessariamente significa que a pessoa não tem opinião e é uma alienada, coitada.
Tá puxado, brazeeew.

Diplomacia

chhinel no. 5A diplomacia mundial vai, de um modo geral, muito mal das pernas, mas isso todo mundo já tá careca de saber. Claro que não ajuda nem um pouquinho o fato das pessoas estarem demasiadamente chatas e cri-cri umas com as outras, nem a constatação de que todo e qualquer problema atualmente sempre tem o potencial de se tornar um problemão e ganhar uma escala praticamente estratosférica. Mas a minha teoria é de que o que anda faltando mesmo na esfera diplomática do planeta é MÃE. Ou, pelo menos, mães como a que eu tive e que um bocado de gente teve também, não dessas mães que morrem de medo de seus filhotinhos tiranos ou que os super protegem e fazem todas as suas vontades.

Divisão igualitária, por exemplo. Com dona Marina a regra era clara: um parte, o outro escolhe. Nem pense em querer dar seu jeitinho pra levar vantagem porque, se a faca estiver com você, é o seu irmão quem vai escolher o pedaço dele primeiro. Nunca vi um conflito sobre o último pedaço da sobremesa ser resolvido mais rapidamente do que com essa estratégia.

Tentativa baixa de manipulação com jogo de empurra, então? Com MÃE, é sem chance pra mimimi:

- Olhaqui, manhêêê… Olha o Israel no meu lugaaaaaar…
– ISRAEL, SAI DO LUGAR DA SUA IRMÃ AGORA!
– Mas o papai falou que eu podia ficar aquiiiii…
– Mas eu cheguei primeiro, esse lugar já é meu há muito tempo, táááá?
– Olhaí, manhêêê… a Palestina tá jogando os brinquedos dela nimim!!!
– PALESTINA, PÁRA COM ISSO JÁ E VAI BRINCAR NO SEU CANTO QUIETA!
– Ah não, manhêêê… é o Israel que tá me empurrando, ele fica com essa carinha de santinho do pau-oco, se fazendo de vítima, mas foi ele quem começooooou…
– NÃO QUERO MAIS SABER. OS DOIS PRO CASTIGO AGORA!!!
– Mas manhêêê… eu não tou fazendo nada, é ela que tá me provocando!
– Eu não, é você que tá me batendo, você é maior e muito mais forte do que eu, buááá…
– NÃO QUERO OUVIR NEM MAIS UM PIO. CALADOS TODOS DOIS E SÓ SAIAM DAÍ QUANDO EU MANDAR. NÃO TESTEM A MINHA PACIÊNCIA PORQUE DO CONTRÁRIO VAI SER PIOR, NÃO VOU FALAR OUTRA VEZ!!! (em priscas eras, antes da lei da palmada, essa última frase era dita com a havaiana na mão direita, e isso era tudo que bastava para a calma e o silêncio imperarem no local).

Uma mãe dessas caprichadas na diplomacia mundial, amiguinhos, é tudo que eu digo. E o mundo respira aliviado.

Plano

Eu preciso de um plano. Quer dizer, de um bom plano. Ou melhor, o que eu preciso mesmo é de um ótimo plano. Daqueles muito bem elaborados, a ser executado com precisão e destreza, e que apresente resultados incontestavelmente positivos. Porque nas atuais circunstâncias, no presente estado das coisas, depois de colocar tudo na balança e pesar bem pesadinho, o único plano que me ocorre neste muito momento é “Vamo corrê daqui?”

curtinhas

* Eu saio do patropi coisa de pouquinho mais de duas semanas, deixo todo mundo aqui de cara fechada dizendo que ‘não vai ter Copa’, que ‘a gente não quer só futebol, a gente quer futebol, saúde e educação’ e talicoisa, aí eu volto e vejo o quê? as criaturas pedindo mais jogo, tendo piripaques por conta de disputa de pênaltis e cantando ‘sou brasileeeeeiro, com muito orguuuuuulhho’ (eu também sou mas, né, que musiquinha chata!). Gente é mesmo uma cousa bem esquisita. Mas divertida.

* A imprensa publicando que os estrangeiros estão encantados com o Brasil, que tudo tá lindo e as pessoas são ótimas e tá tudo divino, maravilhoso. Fico feliz, de verdade. Mas Copa é mais ou menos como aquela festona de arromba que você resolve dar na sua casa. Na hora da comemoração você capricha na produção, todo mundo toma todas, elogia a comida, ama a decoração e se acaba na pista de dança. Mas quem tem que pagar a fatura do cartão e fazer a faxina na maior ressaca no dia seguinte é você, não os convidados…

* E pra quem estiver ameaçando ter um piripaque durante o jogo do Brasil com a Colômbia, um lembrete: o governo investiu bilhões em estádios, não foi em hospitais não.

* A maior dificuldade que eu tenho nesses tempos é explicar pras pessoas que não é que eu não goste de futebol – eu simplesmente não ligo pra futebol. Eu paro na frente da TV para ver uma partida qualquer com o mesmo contido entusiasmo com que sigo um jogo de basquete ou um torneio de golfe. Isso não quer dizer que eu não goste de Copa do Mundo. Mas o que eu gosto dela é a ajuntação de gente, o clima de ‘vamulá’ e a meninada no maior entusiasmo, uniformizada e emperiquitada com acessórios em verde e amarelo, ainda alheias a terrível realidade de que algumas delas um dia irão crescer e se transformar em abomináveis torcedores sem-noção de times locais. Mas quando a farra toda acaba eu volto pro meu livro, pro meu trabalho, pra faxina na cozinha e tudo o mais e pronto, acabou-se.

* Mas o melhor da Copa, pra mim, é a internêta. A zueira é o melhor efeito colateral de qualquer grande evento acompanhado online. A criatividade e a rapidez com que as pessoas fazem piadas sobre tudo e todos é sensacional. Se eu fosse antropóloga, psicóloga, socióloga ou qualquer outra ‘óloga’ dessas, montaria minha tese de doutorado com base em estudos científicos sobre o poder da zueira. Provavelmente seria uma porcaria de uma tese, mas pelo menos eu iria me divertir horrores.

* Gente véia que nem que eu assiste jogo dizendo que foi ‘corner’. Nem sei quando foi que resolveram começar a usar ‘escanteio’.

* Eu não guardo nome e cara de jogador nenhum. Nunca. Acho que o último que me vem cara e nome juntos é o Beckenbauer, que meu pai chamava de ‘Chico’. Bom, tem o David Beckham também, claro, mas por motivos beeem diferentes. No jogo de abertura da Copa, com a Croácia, a gente fez um bolão pra ver quem ia fazer o primeiro gol do Brasil (isso é que é otimismo, partimos do pressuposto de que haveria não um, mas mais de um gol do Brasil), eu tirei o meu papelzinho e achei que tinha alguma coisa errada porque, pra mim, Oscar sempre foi jogador de basquete. Isso dá uma ideia do tanto que eu sou fã e acompanho o esporte.

* A única escalação que ainda tenho na memória até hoje é a que meu pai dava para um time comandado pelo técnico JC, que entrava em campo com Pedro, Paulo e André; Tiago, João e Tomé; Judas (depois Matias), Bartolomeu, Filipe, Mateus e Simão. (Judas Tadeu e Tiago Menor ficavam no banco de reservas, possivelmente devido aos nomes repetidos). O grande clássico seria com uma seleção da pesada proposta pelo Evando -a dos doze césares- cujo técnico era ninguém menos do que Júlio César himself, e a equipe formava: Otávio, Tibério e Calígula; Cláudio, Nero e Galba; Óton, Vitélio, Vespasiano, Tito e Domiciano.