Questão de liberdade

“Dizer que a minha liberdade termina onde começa a liberdade do outro é muito bonito. Mas e se a liberdade for mal distribuída e o meu vizinho tem um latifúndio de liberdade enquanto a minha é um quintal de liberdade, liberdade mesmo que tadinha? Não é feio sugerir um reestudo da divisão.” 

(Liberdades, por Luis Fernando Veríssimo)

Radical

Clique primeiro, pense depois

Acontece o tempo todo. Eu mesmo já saí pedindo pra um monte de gente para eles pararem de ficar alimentando gremlins e multiplicando notícias falsas, mas tudo indica que a vontade de exercer sua estupefação ganha de dez a zero da predisposição em exibir um mínimo de bom senso. Pelo que tenho visto por aí, a rapidez com que o impulso cerebral chega à ponta do dedo indicador (e, claro, ao clique do mouse) é infinitamente maior do que a velocidade de processamento da informação, por mais estapafúrdia que a história possa parecer. Não adianta a gente argumentar que não, Mark Zuckerberg não está bravo com os usuários brasileiros e a ‘orkutização do Facebook’, e que na verdade ele deve estar pouco se lixando para isso, desde que as pessoas continuem a curtir e compartilhar para aumentar o tráfego virtual (e o fluxo de dólares para sua conta bancária). A gente pode mandar o link que mostra que aquela história do casal que resolveu batizar o filho com o nome de Facebookson foi só uma brincadeira do Sensacionalista, pode alertar mil vezes que o Serasa e a Receita Federal não te enviam e-mails dizendo que você está em apuros com o fisco, a Microsoft não está salvando criancinhas com câncer se você reenviar um email (cada email = 1 centavo de dólar), você realmente não tem nenhum parente distante que morreu num acidente de carro ou avião na Nigéria e te deixou uma herança caprichada, o governo não acabou com o 13o salário, o Bradesco não te mandou nenhuma notificação (pensa com carinho, você nem tem conta lá!), esse link para as fotos do churrasco é uma cilada, você não vai a churrasco algum já faz bem tempo. Mas se o assunto aguça a curiosidade ou pode gerar uma polêmica daquelas, muita gente prefere espalhar o boato antes e só depois parar pra pensar se aquilo ali faz algum sentido. Até o nobre deputado caiu no conto da notícia falsa e, mesmo se desculpando pouco depois pelo mico (será que esse senhorinho não tem um único assessor disponível para conferir a veracidade das informações?), sua ‘indignação’ foi perpetuada pelas brincadeiras dos internautas que, obviamente, jamais deixariam a bola quicando na área sem chutar pro gol. E eu imagino que a situação deva ficar mais complicada daqui pra frente, porque o negócio hoje em dia é ser o primeiro a divulgar a história. Depois, se for o caso, e com sorte, alguém um pouco mais desconfiado vai levantar a lebre. Até isso acontecer, a gente vai ter mesmo que aguentar a enxurrada de bobagens..

tweets

* Lembrando que na declaração do imposto de renda você não deve colocar como dependente “da internet”. (@tiodino)
* idéia para carteirada: “você sabe com quem você está falando? EU SOU A FILHA DA CHIQUITA BACANA”  (@choracuica)
* poucos sabem mas Chacrinha escolheu esse nome artístico devido a sua extrema espiritualidade (Pequeno Chakra)  (@jowacko)
* Nem compensa escrever “O Congresso Nacional jamais esteve tão desmoralizado como agora” porque amanhã você descobre que está desatualizado. (@aomirante)
* usinas de energia movidas a rodinha de hamsters. porque é que ninguém nunca pensou nisso?  (@choracuica)
* quem descobriu o Brasil, faça o favor de cobrir de novo porque eu tô com frio  (@futoms)
* “A vitória da esquerda na França é um grande passo para que a Carla Bruni seja socializada”, analisa Ted Boy Adorno. (@escoladefuckfurt)
* O que eu mais gosto na Virada Cultural é que é grátis: você não paga nada pra não ir.  (@bomdiaporque)
* Ferrari de Thor é apreendida e ele promete chamar o resto dos Vingadores para ajudá-lo. (@paulovelho)
* vocês homens reclamam que mulher não toma a iniciativa mas eu conheci bem poucos homens que tomam a iniciativa de lavar uma louça sem pedir  (@choracuica)

O verdadeiro George Clooney

George sopra velinhas amanhã. E Luis Fernando Veríssimo dá o serviço e traduz o que muito marmanjão por aí não ousaria admitir…

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Longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é a autoestima da nossa espécie, os homens que não são Goerge Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos, físicos e intelectuais, desaparecem na comparação com o George Clooney. O próprio George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance. Fica cada vez mais adorável, cada vez mais George Clooney. E se aproxima da perfeição.

É bonito. É charmoso. É rico. É bom ator, Faz bons filmes. Está envolvido com as melhores causas. E que dentes! Não temos defesa contra este massacre. Só nos resta a calúnia.

Os dentes são falsos. Ali onde eles veem pomos da face irresistíveis e um queixo decidido, há obviamente, botox. Ele tem pernas finas e desvio de septo. É solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos lagos italianos, o que já é suspeito, e dizem que anda pelos seus chãos de mármore depois do banho de espuma vestindo um longo caftã bordado e sendo borrifado com perfumes florais pelo seu amante filipino Tongo, enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rúcula completamente nu. George Clooney bate na mãe todas as quintas-feiras. É extremamente burro. Só leu um livro até hoje e não lembra se foi O Pequeno Príncipe ou O Grande Gatsby. Nos filmes em que faz personagens mais reflexivos, contratam um dublê para as cenas dele pensando. Foi ele que propôs a demolição da Torre Eiffel porque já era mais que evidente que não encontrariam petróleo no local. E sua sovinice é lendária. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para não gastar com táxi.

É notório, em Hollywood, o mau hálito do George Clooney. Quando ele fala em algum evento público, as primeiras três fileiras do auditório sempre ficam vazias. Atrizes obrigadas a trabalhar com ele têm direito a um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo. Outra coisa: a asa. Não adiantam as imersões em espuma na sua banheira em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro persiste. Sabem que George Clooney e suas axilas se aproximam a metros de distância, e muita gente aproveita o aviso para fugir.

Além de tudo, tem seborreia e é Republicano.
Passe adiante.

(Luis Fernando Veríssimo – Em Algum Lugar do Paraíso)

Por 120 milhões, eu também gritava

Gente. 120. milhões. de dólares. Foi essa a singela e módica quantia que um anônimo (pessoa física ou jurídica, não disseram) desembolsou para adquirir o quadro ‘O Grito’, do norueguês Edvard Munch. Quer dizer, um dos Gritos, porque existem outros três berrando em museus na Noruega. Esse pastel era o único que pertencia a um colecionador amigo do artista, que deve ter achado por bem passar a tela nos cobres e embolsar o dindim. Fez bem, creio eu. Mas gente. 120 milhões de dólares. Isso dá mais de duzentos milhões de dilmas. É um novo recorde no mercado de leilões de obras de arte. Claro que quem arrematou não está exatamente com o carnê atrasado nas Casas Bahia, mas vem cá, tem zero demais aí, tem não? Pensa bem, imagina a Mega da Virada. Pensou? Agora vende seu apartamento, seu carro, rapa a poupança, bota as joias no prego. Pronto? Pois é, junta tudo isso, mais vale-transporte e ticket-refeição e ainda não dá pra comprar o quadro. Mas ele é bonito, reconheço. Aliás, bonito não; bonito eu acho os jardins do Monet, as cores do Van Gogh, as geometrias do Klee. O Grito é muito interessante. Perturbador. Mas me lembra um pouco umas figurinhas que apareciam em pesadelos quando eu tinha febre alta (o que era frequente), então o preço ficou um pouco elevado demais pro meu gosto para um pesadelo. Acho que a figura no quadro está com as mãos na cabeça e a bocona aberta em total espanto porque tá pensando ‘cestãotudodoooido, 120 milhões de dólares!’. A Europa numa pindaíba de dar dó, a Grécia pensando que 120 quem sabe até dava pra começar a tirar o pé da lama, os espanhóis exportando desemprego e perdendo trabalho também na Argentina e na Bolívia, o Obama com aquele problemão todo que o Dábliubush deixou, aí vem um e compra um quadro assim, sem mais aquela, por 120. Melhor mesmo fazer cara de paisagem e fingir que nem sabe o que está acontecendo, porque se o pessoal da LBV descobre onde é que a grana tá sobrando, vai ligar todo santo dia pedindo doação. Enfim, junto com o valor inquestionável de uma obra dessas, tem também a questão do gosto de cada um, né. É um quadro bacana, uma tela única (quer dizer, ela e as outras três), mas sei lá, gente, são 120. milhões. de dólares.

Fazendo coro ao Calvin

Feriadinho, né? Então pernocas pro ar, muito descanso, que amanhã recomeça a doidolândia e a gente tem que estar inteira.


- Ei Haroldo, que que cê tá fazendo?
- Nada.
- Nada mesmo?
- Não.
- Eu te ajudo.
- Claro, por favor!
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Porque a gentileza nos mantém à tona


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Minha mãe era dessas criaturas iluminadas, que acreditava na bondade das pessoas e achava que sempre valia a pena ser legal com os outros e fazer o melhor. Às vezes ela levava uma ferrada daquelas, a gente dizia ‘mãe, as coisas não são bem assim, nem todo mundo é como você’, mas ela não se abatia – se era pra viver rodeada de gente, não valia a pena esperar o pior delas. Fazia as coisas pelos outros com uma alegria e desprendimento como poucas vezes vi na vida e, se os budistas estiverem certos com essa história de reencarnação, acho que ainda devo levar umas boas vidas pra conseguir aperfeiçoar essa habilidade minimamente. Minha mãe dizia que, quando morresse, não era pra gente se preocupar com essas bobagens de cemitério não, pra se lembrar dela bastava enfeitar a casa com um vasinho de flores ou fazer alguma coisa boa por alguém. Em todos esses anos tenho tentado seguir esse pedido direitinho, mas ainda tenho um bocado de chão pra percorrer na segunda parte. Mais do que qualquer pessoa que eu conheci, ela acreditava e praticava o ‘pay forward’ – se não dá pra retribuir uma gentileza, passe a gentileza pra frente, porque a corrente prossegue e uma hora a energia volta pra você. E foi da minha mãe, claro, que eu me lembrei quando me enviaram o link para este vídeo.
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What colour is your psyche?

Aí você está concentradíssima, preparando uma aula sobre ‘tipos de personalidade’, e de repente pára tudo pra fazer um desses testes bobinhos. E dá isso:
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Your Psyche is Violet


You are spiritual, intuitive, and serene.People trust you to rescue them from bad situations, and you usually come through.While you are quite enlightened, you find that your path is very lonely.When you are too violet: you can’t connect to ordinary life or ordinary peopleWhen you don’t have enough violet: you lack wisdom and can’t learn from the past
  

Um lema para toda a vida

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O que te irrita no cinema?

Eu adoro cinema. Eu adoro IR ao cinema, aquele ritual de escolher o filme e a companhia, ver onde está passando e a que horas (pra, quem sabe, programar uma eventual esticadinha depois), o escuro da sala de projeção, som e imagem na telona pra você mergulhar naquele universo incrível pelas próximas duas horas, por aí. Até dispenso a pipoca, de medo de uma daquelas casquinhas entrar entre os dentes e me tirar totalmente a concentração. Depois conversar sobre o filme num bar, ir pra casa pensando no que viu, as ideias revirando na cabeça.

OK. Corta. Hoje em dia ir ao cinema está muito mais próximo de um filme de terror do que de um romance com a Doris Day. Essa história de ter home-tudo em casa e poder alugar DVD 24 horas por dia, 7 dias na semana, está criando uma geração de seres sem-noção, para quem cinema ou tela da TV dá no mesmo. Eu gostaria de saber de onde foi que essa gente tirou a ideia de que, uma vez pago o ingresso, pode liberar geral e se comportar como se estivesse em casa.

Ontem, por exemplo, sala até vazia, Freud (Viggo Mortensen) e Jung (Michael Fassbender) discutindo os rumos da psicanálise e da loucura nossa de cada dia em Um Método Perigoso, e olha lá um grupinho no fundão conversando sem parar. Devem ter entendido errado aquela história da ‘fase oral’ do Freud porque, meu Deus, como falavam. Não tinha nenhum super-herói do ‘sshhhh’ por ali disponível pra mandar o pessoal calar a boca, eu não faço muito o gênero, modosque a solução foi munir-me de uma dose extra de concentração para deletar em parte a presença incômoda daquelas criaturas. Que devem ter saído do cinema sem entender lhufas. O que faz algumas pessoas saírem de casa e gastar tostões pra conversar no escuro, pra mim ainda é um mistério.

Mas fica a pergunta: o que te irrita no cinema? gente conversando/comentando/explicando o filme pra quem está do lado? aquele holofote que emana da tela do celular quando alguém acha que TEM que responder a uma mensagem NAQUELE momento? cerumano que atende telefone durante a sessão como se estivesse em casa? papel de bala sendo aberto b-e-m  d-e-v-a-g–a-r-i-n-h-o  pra não incomodar os outros (mas é claro que seria muito menos incômodo abrir de uma vez e estamos conversados)? gente que levanta no meio da sessão pra ir ao banheiro ou para comprar alguma coisa? prováveis alienígenas com dois metros de pernas, que ficam cutucando a sua poltrona o filme todo? gente que não sabe fazer de cor o caminho entre a mão e a boca no escuro e emporcalha a sala de pipoca?

Como se já não bastasse o preço exorbitante do ingresso, a dificuldade de estacionamento, o fato de 300 salas exibirem o mesmo filme tosco, enquanto um filme bacana tem uma sessão às 15h num cinema fora de mão, a profusão de cópias dubladas, ainda tem o sem-noção do lado de dentro pra acabar de vez com a minha graça. Nhé.
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Mais Coelho, menos Rosa

Para este Dia Mundial do Livro, a dica daora vem de um dos nobres parlamentares (pra lamentares…) das montanhas: galera, mais Paulo Coelho, menos Guimarães Rosa, por favor. Se depender desse senhorinho, que jura de pé junto que essa celeuma toda não passa de intriga da oposição, as escolas de agora em diante devem priorizar a leitura de livros escritos de acordo com a norma culta (e aí, como anda a sua mesóclise? e o o uso dos pronomes oblíquos, vai bem?). A sugestão inicial era até mais hardcore, era pra proibir mesmo essa invasão nefasta da linguagem popular no ambiente escolar, afinal de contas deve ser por causa do Riobaldo que a nossa língua pátria anda assim, caindo pelas tabelas. Olha, é cada coisa que aparece nesse mundo que eu nem sei. Meu caro senhor, se é pra todo mundo ‘ler e escrever bonitinho’, manda bloquear o Twitter urgente.

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