A Bela Adormecida

Uma amiga me disse que ‘inveja boa’ não existe. Inveja é inveja e ponto, mas olha que eu bem que gosto da expressão. Porque inveja é uma coisa muito feia e muito muito triste e o ‘boa’ faz tudo ficar um cadinho mais leve. Então eu tenho uma inveja (boa) danada dos poetas, que falam em algumas poucas linhas – às vezes em algumas poucas palavras – o que a gente levaria uma enciclopédia inteira pra conseguir exprimir. E talvez nem desse conta. Entre as mais queridas, Adélia. Adélia e sua simplicidade, sua tristeza tranquila, um encanto sereno com as coisinhas do dia-a-dia que fazem a gente mais feliz. Hoje é Dia Nacional da Poesia, então hoje é dia nacional da Adélia.
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Estou alegre e o motivo
beira secretamente à humilhação,
porque aos 50 anos
não posso mais fazer curso de dança,
escolher profissão,
aprender a nadar como se deve.
No entanto, não sei se é por causa das águas,
deste ar que desentoca do chão as formigas aladas,
ou se é por causa dele que volta
e põe tudo arcaico,
como a matéria da alma,
se você vai ao pasto,
se você olha o céu,
aquelas frutinhas travosas,
aquela estrelinha nova,
sabe que nada mudou.
O pai está vivo e tosse,
a mãe pragueja sem raiva na cozinha.
Assim que escurecer vou namorar.
Que mundo ordenado e bom!
Namorar quem?
Minha alma nasceu desposada
com um marido invisível.
Quando ele fala roreja
quando ele vem eu sei,
porque as hastes se inclinam.
Eu fico tão atenta que adormeço
a cada ano mais.
Sob juramento lhes digo:
tenho 18 anos. Incompletos.

(A Bela Adormecida – Adélia Prado)
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- e tem mais Adélia aqui, aqui e aqui também.

Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

(Adélia Prado)

Quem casa quer casa

Este texto eu encontrei meio perdido numa das muitas gavetas que revirei e arrumei no fim do ano. Certamente guardei porque era da Adélia Prado, e Adélia tem aquela capacidade única de falar das coisas todas deste mundo com honestidade e singeleza absolutamente encantadoras.
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Num tempo em que se casava depois de namorar e noivar, viajei com meu marido para a minha primeira casa, no mesmo dia do meu casamento. Partia na verdade para um reino onde, tendo modos à mesa e usando meia fina, seria uma mulher distinta como Dona Aline e seu marido saindo para a missa das dez. Pois sim, meu enxoval – como cruelmente observou uma amiga – cabendo numa caixa de fósforos, foi despachado com zelo pela via férrea para uma cidade longe, tão longe que não pude eu mesma escolher casa e coisas. Como você quer nossos móveis? Havia perguntado meu noivo, “nossos móveis”, palavras para mim carregadas de velada e latente carnalidade, afinal em vias de permissão. Ah, eu disse, você pode escolher, mas gosto mesmo é daqueles escuros, pretos. Pensava na maravilhosa cristaleira de Dona Ceclília, móveis de pernas torneadas e brilhantes, cama de cabeceira alta. Para a cozinha achei melhor nem sugerir, apostando na surpresa. Você pode cuidar de tudo, respondi a meu noivo atrapalhado com as providências, os poucos dias de folga na empresa, sozinho, mal-saído de uma república onde o luxo era a mesa forrada às refeições. Não via a hora de estender sobre minha linda cama negra minha linda colcha rosa. Foi abrir a porta de nossa casa com alpendre e levei o primeiro susto de muitos de minha vida de casada. A mobília – palavra que sempre detestei – era daquele amarelo bonito de peroba. Tem pouco uso, disse meu marido, comprei de um colega que se mudou daqui. Gostei da cristaleira, seus espelhos multiplicando o ‘jogo de porcelana’- que invenção! A cama era feia, egressa de um outro desenho, sem nada a ver com a sala. E a cozinha? O mesmo fogão a lenha que desde menina me encarvoara. O fagão a gás vem em duas semanas, explicou meu marido com mortificada delicadeza, adivinhando o borbotão de lágrimas. Mas o banheiro, este sim amei à primeira vista, azulejos, louça branca e um boxe com cortina amarela desenhada em peixes e algas. Recompensou-me. Faz quarenta anos desde minha apresentação a este meu primeiro banheiro com cortina, a um piso que se limpava com sapóleo, palavra que incorporei incontinenti ao meu novo status. Vinha de uma casa com panelas de ferro que só brilhavam a poder de areia. Duas semanas depois chegou o fogão que não preteava as panelas nem as unhas, tinha um forno fantástico e se chamava PATERNO. Quando me viu a pique de chorar meu marido me disse naquele dia: quando puder vou comprar móveis pretos e torneados pra você. Compreendi, com grande sorte para mim, que era melhor escutar aquela promessa ardente ao ouvido, que ter móveis bonitos e marido desatento. Do viçoso jardim arranquei quase tudo para ‘plantar do meu jeito’, tentativa de construir um lar, esperança que até hoje guardo e pela qual me empenho como se tivesse acabado de me casar.
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Ensinamento

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
A coisa mais linda do mundo.
Não é. 
A coisa mais linda do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
“Coitado, até essa hora no serviço pesado.”
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

(Adélia Prado)
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Poema esquisito

Poema Esquisito

Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito. É rarissimamente que ela dói.
Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos,
não existe mais o modo
de eles terem seus olhos sobre mim.
Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai. Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa,
que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol.
Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra que, se para chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai
Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem
tenazes e duros,
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia.

(Adélia Prado)

Maio

TENTAÇÃO EM MAIO

Maio se extingue
e com tal luz
e de tal forma se extingue
que um pecado oculto me sugere:
não olhe porque maio não é seu.
Ninguém se livra de maio.
Encantados todos viram as cabeças:
‘Do que é mesmo que falávamos?’
De tua luz eterna, ó maio,
rosa que se fecha sem fanar-se.

(Adélia Prado – A Duração do Dia)