Vou pra Diamantina

Se tem uma coisa que eu tenho dó é dos repórteres nessas épocas de feriados e comemorações. Porque entra ano e sai ano e os pobres coitados repetem a mesma ladainha, entrevista com o chefe da Polícia Rodoviária Federal sobre como viajar com segurança, como evitar a ressaca, imagens ‘exclusivas’ dos foliões pulando e berrando freneticamente enquanto dão adeusinho para as câmeras, tentativas de conversar pelo menos um minutinho com alguma celebridade (sub-celebridades ninguém precisa procurar, elas aparecem do nada na frente do microfone), a tradicional reportagem sobre o fim da farra na quarta-feira, yadda yadda yadda.

E também o movimento nas rodoviárias. Aí me lembrei de uma repórter de um telejornal local valentemente tentando encontrar alguma informação remotamente interessante na rodoviária de Belo Horizonte para colocar no ar. Como nada muito relevante parecia estar acontecendo por ali, lá vai a moça entrevistar os foliões, né, fazer o quê. E pergunta pro primeiro: Vai pra onde nesse Carnaval? Vou pra Diamantina. E então pro casalzinho logo atrás: E vocês, pra onde vão no feriado? Pra Diamantina. Dois ou três viajantes indo pra Diamantina depois, a câmera dá aquele zoom out básico e a gente percebe (mas aparentemente a repórter não) que aquilo ali é uma fila. Pra comprar passagem. Pra Diamantina.

A matéria deve ter ido ao ar por absoluta falta de opção… ou pra sacanear com a jornalista.
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Momo

Você madrugou nessa manhã de sexta pré-carnaval pra ir pra escola ainda com lua no céu?
Você vai passar o dia inteirinho no ‘tronco’ e ainda vai curtir um mega engarrafamento na hora de voltar pra casa?
Pois é.
Os vereadores daqui, deputados estaduais, federais e senadores da brasilândia, não.
Mas não desanima não. Logo depois de passada a folia eles voltam a trabalhar com afinco, como sempre.
Ahãã. Claro. Só que ao contrário.
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Serviço de auxílio ao folião

Ele tinha passado os quatro dias de carnaval tomando todas, pulando todas, indo de um boteco pra outro encontrando os amigos e saindo nos blocos. Tinha acabado de voltar para o Brasil e estava com saudades daquela festa, da bagunça, do barulho, do monte de gente nas ruas e nos clubes, do calor intenso, da cerveja geladíssima. Naquela madrugada de quarta-feira de cinzas ele estava exausto, possivelmente ainda bastante bêbado e tinha uma vaga lembrança do que tinha acontecido naqueles dias, de onde estava e para onde deveria ir com o fim da festa. Não tinha muita condição de ficar em pé ou de falar coisa com coisa, e já estava começando a achar que a situação não estava nem um pouquinho boa pro seu lado quando, de repente, surgiu do nada o caminhão. Com uns caras bem animados, cantando, fazendo barulho, foliões ainda celebrando o momo, pensou. O caminhão parou ao lado dele no meio-fio, dele desceu um negão de mãos enormes e sorriso largo, depois mais um veio ajudar, e sem mais aquela colocaram o moço sentado ao lado do motorista do caminhão. Na hora, entendeu o que estava acontecendo: que bacana! A prefeitura do Rio de Janeiro tinha providenciado um serviço de coleta de foliões bêbados na rua para a quarta-feira! Isso é que era carnaval organizado! O pessoal no caminhão cantava e fazia barulho, de vez em quando o caminhão parava, uns desciam, depois seguiam em frente. Lá pelo Largo do Machado, o moço pediu pra descer. Despediu-se dos novos amigos, que não paravam de rir e cantar – que gente animada em plena quarta-feira de cinzas! – e seguiu pra casa. Ao voltar-se mais uma vez para acenar pra turma, a ficha caiu: aquele era um caminhão de lixo e os lixeiros provavelmente o ‘recolheram’ de peninha do estado em que se encontrava. Deviam estar morrendo de rir até agora.

(baseado em fatos reais, acontecidos há muitos e muitos anos…)

Já passou meu carnaval

Eu até gosto de Carnaval. Quer dizer, em tese. Na minha infância querida que graças a Deus os anos não trazem mais, tinha toda aquela rotina de arrumar fantasia de baiana, odalisca ou havaiana e ir pra matinê da Sociedade Mineira dos Engenheiros. Eram até bonitinhas as roupas, compradas na promoção das Lojas Americanas ou improvisadas em casa mesmo porque, né, no final do dia elas já estavam acabadas, e dinheiro não dava em árvore com três crianças em casa, certo? A gente comprava aqueles colares de plástico e os martelinhos que faziam um barulhinho irritante, confetes e serpentinas que grudavam no chão da sala, tadinha da minha mãe, a gente não tinha paciência de esperar chegar no salão do clube pra fazer a bagunça.

Aí, na adolescência foi um ou outro baile com as amigas do colégio, umas noites viradas assistindo aos desfiles da Sapucaí, um Carnaval no interior. Uma vez fui atrás do trio elétrico em Salvador (era julho, mas é que julho ainda é carnaval na Bahia, né?), quase morri com aquela pulação toda. Aí deu, acabou, c’est fini, game over. Quando eu falo pros gringos lá fora que eu não faço muita questão de carnaval e prefiro passar meus dias de folia em Lençóis (os da cama, não os Maranhenses), olhos saltam pra fora das órbitas, queixos despencam, mãos se agitam freneticamente para o alto: ‘como assim, não faz questão de carnaval?’

É, faço não. Acho divertida a animação do pessoal, o clima de festa, as baterias das escolas de samba, nem sei como estão os bailes, mas desconfio que devem tocar axé e funk boa parte do tempo, será que ainda se lembram das antigas marchinhas do Braguinha e do Lamartine? Não tenho lá muita disposição para encarar estradas cheias, praias lotadas, aquela urgência louca de beber até se acabar, virar a noite pulando e acordar em casa com uma ressaca gigante e os dedinhos dos pés am frangalhos com o tanto de pisões. A amiga foliona decreta a minha velhice antecipada, pode ser, pode ser, mas eu sinto muito mais prazer em ficar quietinha no meu canto, a calmaria e o silêncio (os mais renitentes – e por que não dizer, otimistas? – insistem que existe carnaval nesta cidade mas se tem, ninguém sabe, ninguém viu), as ruas com trânsito fácil, os restaurantes e cinemas sem filas, talvez uma caminhada pelas montanhas, se São Pedro nos brindar com sua benevolência e colaborar com o tempo.

Do Carnaval propriamente dito, ficam as lembranças da infância, e da versão de sílabas trocadas que meu pai fazia de Chiquita Bacana: “Chicana Baquita lá da Marticana, se nica com uma veste de banica na casca”. E assim meu ziriguidum fica de ótimo tamanho.
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reparem na minha esfuziante e incontida animação com o martelinho nas mãos...

carnavalescas

- O José Roberto Arruda (que recentemente trocou sua participação no desfile da Beija-Flor por uma temporada momesca nas dependências da Polícia Federal em Brasília, declarou que confia plenamente em Deus e na Justiça. Nós também, meu senhor, nós também.

- Sempre achei o máximo a combinação inusitada de verde e rosa da Mangueira, este ano tem a Vila Isabel fazendo uma homenagem bonita pro Noel, mas a minha escola do coração desde criancinha é a Portela, que hoje fala do mundo virtual.

- Agora, justiça seja feita: pra mim, o samba-enredo mais bonito há quase trinta anos continua sendo ‘É Hoje’, da União da Ilha.

- Porque samba-enredo é assim, né, tem que ser fácil de gravar na cabeça, vir em tom maior e ir subindo, subindo, com aquele monte de ‘aaaaa’ e outros tantos ‘ooooo’ pro pessoal levantar os braços e soltar o gogó na avenida. Não falha nunca.

- A gente sabe, né? Desfile é sempre tudo a mesma coisa: eu tenho muita preguiça de assistir na TV, os sambas-enredo se parecem, tem sempre um carro empacando na hora de entrar na avenida, mal dá pra saber se a imagem que você está vendo é do carnaval deste ano, do ano passado ou do anterior. Mas nada disso importa – o desfile das escolas na Marquês de Sapucaí continua sendo o maior espetáculo da Terra.

- E as baterias, gente, e as baterias?! Um amigo argumentou que elas são todas parecidas. Falei que ele tá precisando prestar mais atenção e ouvir com mais cuidado: ninguém, ninguém mesmo neste planeta consegue fazer o que qualquer bateria dessas faz.

- Sovaco de Cristo. Quem teve a boa ideia de dar esse nome a um bloco de carnaval merecia uma estátua em praça pública.

- O jornal fala das mega celebridades nos camarotes da avenida: Madonna, Paris Hilton, Gerard Butler, Nicole Scherzinger. Ôpa, quem? Madonna eu sei quem é, Paris também, Gerard obviamente, Nicole… Nicole… peralá que eu vou olhar no Google. Ah, uma das Pussycat Dolls. Que eu conheço de nome, mas não sei o que cantam. Fui lá no YouTube. Nhéé. Essas cantoras rebolando em microssaias brilhantes e gemendo como a Mariah Carey não fazem a minha cabeça não. 

Ó o carnaval aêêê

do not disturb

Já passei da fase. Alugar casa de dois quartos e só um banheiro com mais 20 amigos em Diamantina, e passar os quatro dias comendo Miojo direto. Mega engarrafamento na estrada, um calorzinho duzinfernu, preços exorbitantes na praia, serviço de última categoria. Ou então acampar no meio do mato com ‘a galera’, a moita da direita é das meninas, a da esquerda dos meninos. Bloco de rua com aquela multidão fedendo a cerveja, suor e xixi. Baile em clube tem aaaaaanos que eu não vou. Been there, done that, posso cortar tudo isso do meu karma para esta vida. E provavelmente para as próximas também.

Esta cidade é ótima pra quem acha que Carnaval já deu. Tô com uma pilha legal de livrinhos pra ler, projetos pra analisar, os filmes do Oscar pra assitir, talvez uma boa caminhada pelas montanhas, que por aqui isso é o que não falta, encontrar os amigos. Mó força e grande abraço pra quem quer botar o bloco na rua mas, ói, por mim o samba, suor e ouriço já está de bom tamanho, o que eu quero agora é sossego, beijosnãomeliga.

E você, o que vai fazer no feriado?

É Hoje!

Alô, meu pooovo! Alalaô, vamulá! Simbora que chegou a sexta-feira mais esperada do ano, uhúúú! Já separei meu abadá, os retalhos de cetim, já renovei o estoque de injeção de glicose, eu quero é botar meu bloco na rua e ir atrás do trio elétrico na chuva, suor e cerveja! Vou pra avenida, vou me acabar, só volto na quarta-feira, de carona no caminhão de lixo da SLU!!!

Ouquêi, ficou bom assim, como animação carnavalesca? Já posso voltar ao normal? Agradecida. Porque o melhor do carnaval, pra mim, é que mais da metade da população local migra pra praia, pro interior ou pras cachoeiras e deixa a cidade muito mais civilizada. Posso ir ao cinema sem enfrentar fila, ao restaurante sem fazer reserva, acho vaga pro meu carro na porta de onde vou, não tem engarrrafamento hora nenhuma. Um sonho.

Não é que eu não goste de carnaval. Gosto sim, mas já preenchi a minha cota de foliona para esta ‘encadernação’, o restante vai ficar de karma pra próxima. Eu acho bacana essa coisa de confraternização de raças, classes,  credos e gêneros, aquela alegria indígena de um bando de gente descabelada e bêbada fedendo a suor, vômito e cerveja, fazendo xixi em pé na avenida porque, se sair de onde está, você certamente será pisoteado por uma multidão ensandecida e louca pra brincar o carnaval. É só você aposentar temporariamente sua dignidade e seu senso de ridículo e mandar ver! Mas, por favor, me inclua fora disso.

E, embora eu não consiga assistir a mais do que dois minutinhos de desfile, vou tentar dar uma espiadinha na Mangueira. É que essa é a única escola de samba que eu consigo reconhecer, porque a verde-e-rosa me fez a gentileza de escolher uma combinação inusitada de cores.  As outras são vermelho e branco, azul e branco, verde e branco e eu não faço a mínima ideia de quem é quem. Prometo também prestar atenção no samba-enredo da Mocidade Independente, que o Flávio disse ser o mais bonito que ele ouviu em muito tempo. Acho as baterias das escolas tudo de bom, mas meu nível de atenção e paciência costuma durar no máximo 3 minutos, arredondando para cima. Mas torço para que o Neguinho da Beija-Flor tenha forças pra puxar o samba da escola mais este ano, o cara merece.

Então, como diria o Iron Maiden, ‘bring your daughter to the slaughter’, ‘let’s go crazy, let’s go nuts’, completaria Prince. Dou a maior força. Mas eu vou ficar aqui bem quietinha, na maior paz, pelos próximos cinco dias. Quem sair por último, fineza apagar a luz.