O espanto do Chico

O Chico não entendia muito de internet e mundo digital, mas resolveu aderir a essa história de lançar CD online, fazer um site interativo, postar vídeo das músicas e tal. O caso é que o Chico estava muito mal acostumado. Há mais de 40 anos todo mundo (tá, não é todo mundo, mas é quase) adora ele, suas letras com sacadas absolutamente geniais, suas melodias bacanas, até mesmo sua voz ruinzinha. O Chico anuncia turnê e já começa o tumulto na porta do teatro, cambista, gente vendendo lugar na fila, ingressos esgotados em tempo recorde. Até quando está pouco inspirado, ele costuma ser muito superior à maioria esmagadora dos compositores, mesmo nos altos e baixos seus baixos são bem mais altos do que o que muita gente faz por aí.

O que o Chico não contava era com o lado negro da Força na internet. E aí foi aquele sustão. Gente sem-noção que foi lá no site e na página do YouTube simplesmente para desfilar uma lista interminável de ofensas e adjetivos pouco lisonjeiros. Aquele grupo fromhell que curte horrores o anonimato da internet mas não sabe utilizá-lo ‘para fins pacíficos’, ceresumanos que provavelmente nunca assistiram àquele sketch do Monty Python e acham que discutir é simplesmente contradizer e ofender o outro lado. Quem frequenta os comentários de blogs e sites, quem tem conta no Twitter, sabe como essa galera pode ser barra pesada. Tem gente -e eu me incluo nesse grupo – que prefere passar longe das polêmicas e ignorar solenemente as discussões que te levam do nada ao lugar algum. Mas também tem um bocado de gente que cai no buraco e daí engrena num bate-boca sem fim, às vezes pelo simples esporte de irritar e ser irritado, às vezes naquela esperança vã de que uma hora seja possível estabelecer um diálogo remotamente civilizado (o que muito raramente acontece).

Uma canseira, né? Eu, por exemplo, sempre gostei muito mesmo do Chico (mais das letras do que de qualquer coisa) e não achei esse novo trabalho nada de sensacional. Pelo menos o que eu ouvi, que, confesso, foi quase nada (mas acho que a gente espera que a primeira música a ser divulgada seja a mais tchans, né, aquela que vai te fazer querer comprar todas as outras e, bom, ‘Querido Diário’ ficou bem longe disso). Por acaso não gostar me dá o direito de sair por aí escrevendo um monte de bobagens no site do artista, ou de desqualificar quem quer que tenha achado a música tudo de bom? Desde quando poder usar um pseudônimo ou até mesmo permanecer anônima pode ser um passaporte pra grosseria? As coisas que eu leio na internet são de lascar e a cada ofensa de um lado, o outro se acha no direito de devolver a gentileza no mesmo baixo nível (naquela lógica infantil tola do tipo ‘mas foi ele quem começou, manhêêê’). Alguém falou em algum lugar que, se você coloca alguma coisa online pros outros verem e deixa a caixa de comentários aberta, tem que estar preparado para as críticas. Claro que tem. Só não sei onde é que ofensa gratuita se encaixa na categoria ‘críticas’.

Pelo vídeo, parece que o Chico levou a história toda com bom humor, embora alguns tenham comentado que o riso frouxo soou um pouquinho forçado demais. Tá, pode ser que ele tenha achado tudo ridiculamente divertido e, seguro de sua carreira mais do que sólida, não ligue a mínima para a eventual ‘turma da Lazinha’. Mas eu continuo achando a atitude dessa turma o fim da dinastia. Não só com artistas conhecidos mas também, e sobretudo, com os milhões de internautas que postam diariamente na rede. A internet está dando o maior gás pra um pessoal que, claro, sempre existiu, mas que de repente encontrou um território fértil para proliferar. E o pior, que acha que isso é exercer o seu direito de emitir opinião.

Nossas Carolinas

Uma das músicas do Chico Buarque que eu mais gosto – desde sempre – é Carolina. Quando era pequena eu morria de pena da moça toda vez que ouvia, uma moça tão tristinha, coitada, tão alheia a tudo, nostálgica, o moço lá, mesmo com voz triste tentando de todo jeito animá-la, olha a festa, o samba, a rosa, a estrela, e ela nada. Muitos e muitos anos depois li um trabalho de análise das letras do Chico, e quem escreveu encontrou um monte de outras referências que jamais tinham passado pela minha cabeça, o amor consumado, sexo, apatia política, nem sei se o Chico estava pensando nessas coisas todas quando compôs, mas vá lá.

Mas eu sei porque eu gosto tanto dessa música até hoje, e sempre gosto um tiquinho mais. É que eu acho que todos nós temos uma Carolina guardadinha dentro da gente. Às vezes ela está lá no cantinho, lá no fundo mesmo, e uma hora assim, sem mais nem menos, os olhos fundos e a tanta dor, a dor de todo esse mundo de repente vêm à tona, pode ter sido por causa daquela coisinha à toa, talvez o que era pra ser dito e não foi, o que não era pra ser feito mas foi, ou a constatação de que o tempo já passou e a gente não viu, não viu a rosa, nem a estrela, perdeu a festa porque tinha os olhos tristes e, olha só, era hora de aproveitar mas agora o barco partiu e babau – ou pelo menos é assim que a gente se sente. Como quem partiu ou morreu, emendaria o Chico na Roda Viva. A Carolina pode ficar assim, não vendo as coisas todas por um tempão, ou só por um tempinho, às vezes vem alguém de fora pra tentar nos animar, outras vezes aparece o moço que mora dentro da gente pra nos mostrar ‘ói’ que lindo, que nem ele tentou fazer com a Carolina, é hora de aproveitar, olha a rosa, a estrela, a festa, e aí a Carolina volta lá pro seu cantinho, mas nunca vai embora de vez.  Passado o furacão, o coração enfim se aquieta e a gente pode de novo chegar na janela. Pra ver a banda passar cantando coisas de amor.

A perversidade da Rita

Você não imagina do que a Rita foi capaz. Ouvindo a história pelo ponto de vista do Chico, a gente fica realmente estarrecida, o moço está totalmente arrasado… Uma megera! Ela foi embora de repente, levando tudo que podia. Não que eles tivessem muita coisa, não tinham dinheiro, foram mesmo as roupas, uns objetos pessoais, mas o disco do Noel Rosa e a imagem de São Francisco eram de estimação, ele ficou chateado. E ela era sua musa, né, como é que ele vai compor agora? Com ela foi embora o seu sorriso, sua inspiração, as melhores lembranças, foi um arraso total.

A Rita não existe, claro. Quer dizer, existe na música ‘A Rita’, do Chico Buarque, um dos letristas mais fantásticos de uma MPB que já viu melhores dias em termos de boas letras de música.

E sabe por que eu acho essa letra particularmente tão genial? É que a gente fica com ódio da Rita, fica morrendo de pena do Chico, como é que ela pode ser tão má, tão insensível, tão fria? Leia a letra de novo. Uma palavrinha só, dessas que escapam quase sem querer, e a história muda completamente. Achou? A segunda estrofe começa com ‘A Rita matou nosso amor de vingança…’

Êpa! Vingança? Isso muda tudo, né? Então a Rita já não está mais agindo, está reagindo! O que me faz pensar no que será que o Chico fez pra ela ter todo esse acesso de fúria… Lá se foi a minha empatia com o sofrimento do rapaz.

Genialidade é isso. E o Chico é genial.