Milhares de Isabellas

Não há como ficar alheio ao assassinato da pequena Isabella no dia 29 de março. Não apenas pela barbárie e crueldade com que o crime foi cometido mas também pela possibilidade – impensável, para a maioria de nós – de que os autores sejam justamente o pai e a madrasta da menina, embora ambos continuem negando qualquer envolvimento.

No entanto, uma coisa é indignar-se e exigir da Justiça a apuração rigorosa dos fatos, a prisão do(s) responsável(eis) e o cumprimento de uma pena condizente com a gravidade do crime. Outra, bem diferente, é concordar com o circo armado pela imprensa nacional, como se tudo não passasse de um reality show de horror. No caso, o que temos é muito show pra pouco reality.

A Folha de S. Paulo publicou uma matéria online mostrando que a audiência dos telejornais subiu até 46% com a cobertura da morte da menina. Imagino que emissoras de rádio e a imprensa escrita também estejam lucrando muito nos últimos vinte e poucos dias. Mas o que é que temos visto? Repórteres tentando freneticamente entrevistar supostas testemunhas, algumas delas em busca de seus quinze segundos de fama, a revelação de detalhes sórdidos e absolutamente desnecessários para qualquer um que não esteja envolvido nas investigações, padres e pastores de igrejas evangélicas celebrando missas e cultos pela criança com a presença  das câmeras de TV, programas de sensacionalismo barato contratando atores para fazer a reconstituição do crime. Uma palhaçada.

Em frente às casas das famílias envolvidas, em bairros de classe média, uma multidão de curiosos sem mais o que fazer faz vigília dia e noite, um batalhão de fotógrafos e jornalistas aguarda a saída ou entrada de carros da garagem, policiais isolam a rua em frente a delegacia que, por um dia inteiro, não recebe nenhum outro caso para resolver a não ser esse, como se de repente a investigação de outros crimes numa cidade do tamanho de São Paulo perdesse qualquer relevância.

O que eu me pergunto é o que vai acontecer depois que os responsáveis estiverem atrás das grades e deixarem de ser notícia. Todo esse circo armado vai ajudar a fazer com que as pessoas discutam a violência contra crianças, que muitas vezes vem de pessoas próximas a elas? Converse com qualquer pediatra de hospitais públicos pelo país e ele certamente vai te contar histórias de abuso infantil de revirar o seu estômago. Só que boa parte dessas histórias jamais vai chegar a manchete de jornal, porque elas acontecem nas periferias, nas favelas, com crianças pobres e agressores bêbados, drogados ou os dois. São milhares de Isabellas, meninos e meninas que morrem ou sofrem mutilações e danos psicológicos além de qualquer reparação, e nem a justiça, nem a imprensa, nem ‘os populares’ vão se importar com elas. No máximo, esses casos entrarão para as estatísticas da UNICEF e nos colocarão em mais uma lista vergonhosa de violação de direitos humanos básicos.

O que a imprensa está fazendo é um desrespeito para com Isabella e seus dois irmãozinhos, assim como todas as milhares de crianças que sofrem abusos ou são mortas diariamente neste país. O que deveria estar sendo discutido é o que devemos fazer, como membros de uma sociedade, para que crimes como este não aconteçam mais, o que podemos fazer para reconhecer sinais de total desequilíbrio em pessoas aparentemente equilibradas, e que mecanismos precisam ser criados para garantir a essas crianças uma infância como a de qualquer outra. Elas não precisam do circo, não precisam de ‘Big Brother’, não precisam do folhetim. O que elas precisam é que cada grupo da sociedade cumpra seu papel para que, no futuro, assassinatos de meninas de cinco anos sejam apenas obras de ficção.

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