Novas velhas tragédias

A tragédia da jovem Eloá, assassinada pelo ex-namorado com um tiro depois de um sequestro que durou mais de 4 dias, certamente não nos passa desapercebida. Além do assombro diante do crime em si, ela nos expõe à idéia incômoda de que o cara que trabalha com a gente, o nosso vizinho do lado ou o gerente do banco pode ser na verdade um maluco em potencial e, just like that, passar fogo em quem estiver na frente ou fizer um comentário errado na hora errada.

Também nos faz constatar, no mínimo, a falta de habilidade de uma polícia que deveria estar apta a lidar com casos como este e, no máximo, a total incompetência dessa mesma polícia. Como assim, devolvem a refém pro cativeiro? Como assim, não filtram a comunicação e deixam que uma apresentadora de programa de tv ligue no meio da tarde pra casa da garota pra bater um papo com o sequestrador ao vivo em ‘real time’? Como assim, permitem que a situação se estenda por cem horas? No mínimo, faltou assistir aos filmes do Russell Crowe ou do Denzel Washington.

Mas essa história tem que parar por aqui. A tragédia dessa menina é, antes de tudo, pessoal e envolve a família, os amigos, os colegas, talvez um ou outro vizinho. E só. Dez mil pessoas “dando adeus e prestando homenagem” no velório? O que que é isso?

A imprensa, mais uma vez, coloca os números da audiência em primeiro lugar e faz, a exemplo do caso da menina Isabella, uma cobertura de revirar o estômago. A TV Record comemora o primeiro lugar no ibope, passando as concorrentes. Deveria era morrer de vergonha. Jornais ditos ‘sérios’ trazem um link: ‘acoompanhe o sequestro passo a passo’, como se isso fosse os melhores lances de uma partida de futebol. As pessoas se acotovelam para dar uma olhadinha no caixão da garota, como se estivessem passando a tarde no museu. Uma exploração grotesca de uma tragédia que é real, mas que, sinceramente, não é da conta de ninguém. Pelo menos não nesse nível.

E ainda vem mais. Falta levar a mulher que recebeu o coração de Eloá ao Fantástico. Falta a entrevista no Faustão. Falta a série de fotos na Caras. Enquanto isso, outras meninas são mortas, outros meninos jogam suas vidas pelo ralo e ninguém quer realmente perguntar no quê a sociedade está se transformando. Basta o reality show, menos reality, mais show.  

Outra:
Milhares de Isabellas

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