Aqui, ali, em todo lugar

Todos os dias, invariavelmente, algum aluno chega esbaforido ou estressado pra aula, reclamando do tráfego, dos engarrafamentos sem hora e lugar, da falta de vagas pra estacionar, da péssima qualidade do transporte público na cidade. Está cada vez mais comum e cada vez pior, já tenho até um repertório de atividades bem lúdicas e levinhas, uma música ou um vídeo bacana pra mostrar nos primeiros dez minutos, porque querer que alguém aprenda alguma coisa de inglês num estado mental desses é uma enorme perda de tempo.

A frase seguinte dos alunos é sempre esta: Ah, feliz é você, Mônica, que tem escritório tão perto de casa e ainda pode ter um horário flexível de trabalho. Não há como negar, é mesmo um privilégio. Se Belo Horizonte não fosse feita de tanto morro-abaixo-morro-acima, daria até pra ir a pé ou de bicicleta algumas vezes. Quando vejo os letreiros anunciando ‘trânsito lento’ em algumas avenidas por volta das sete da manhã, morro de dó dos motoristas. Quem trabalha tendo que dirigir grandes distâncias precisa ter uma paciência de Buda. Quando chove na hora do rush, então, é de dar vontade de cortar os pulsos com lixa de unha (como diz o Jay, é que demora mais…).

O que mais me espanta é perceber que muito mais gente poderia ter uma vida mais calma, como a minha. Que ninguém se iluda, a Isaura aqui trabalha pra caramba e já está no tronco às sete da manhã, lerê… lerê… de segunda à sexta, com a melhor cara do mundo, pra dar a primeira aula. E em alguns dias eu só termino às 9 da noite. Quando não tenho alunos, estou corrigindo textos que eles escrevem, preparando aulas ou algum curso, selecionando materiais, às vezes interagindo com um ou outro online. Tem amigo que me vê conectada no meio da tarde e acha que eu estou no maior vidão, navegando à toa na internet. Rá.

Mas, francamente, ainda não entendo a atitude ‘so last century’ de muitas empresas (e parece que quanto maior a empresa, pior!), que exigem que todos os seus funcionários (diretores não, né!) batam ponto às 8 da manhã e depois às 6 da tarde, quer eles precisem estar fisicamente ali ou não. As empresas, assim como as escolas, ainda estão presas àquela noção antiguinha de que estar em carne e osso atrás da mesa de trabalho significa que o caboclo está trabalhando e produzindo. E qualquer ‘aspone’ sabe como é fácil parecer terrivelmente ocupado e produtivo, quando no fim do dia o resultado apresentado é zero.

É claro que nem todo mundo pode trabalhar de casa ou manter um horário flexível de trabalho. Mesmo quem pode, talvez não consiga fazer isso o tempo todo. Existem reuniões para ir, contatos pra fazer, e a própria convivência com os colegas é algo potencialmente enriquecedor, nem que seja pelo papo informal na hora do cafezinho. Só que a rigidez que a gente ainda vê em muitas empresas, e que tem a maior cara de Revolução Industrial e linhas de montagem, já deu o que tinha que dar, né não?

No final dos anos 60, meu pai trabalhava no campus da UFMG. Se hoje o pessoal acha o lugar longe, imagina que, há 40 anos, aquilo ali era onde o Judas perdeu as meias. O grupo de trabalho dele não era muito grande, mas era meio heterogêneo: tinha gente que tinha que deixar os filhos no colégio bem cedo e, sem tráfego pesado, chegava rapidamente ao escritório. Outros íam de ônibus, o que levava uma eternidade. Uns precisavam sair mais cedo pra dar tempo de pegar as crianças na escola, outros preferiam ficar até mais tarde, porque dali íam pra faculdade à noite. Se todo mundo tivesse que trabalhar das 8 às 18, certamente teria gente chegando atrasada, dando desculpas pra sair mais cedo, parando um pouquinho antes ‘porque não vai dar tempo de fazer hoje mesmo’, toda aquela lenga-lenga que todo mundo está cansado de ouvir. A solução foi estabelecer um horário em que todos deveriam estar presentes (tipos, de 9 às 11 e de 14 às 16 ou qualquer coisa assim); todo mundo era ‘achável’ então, as reuniões aconteciam nessas horas e de resto cada um que completasse as oito horas de trabalho como melhor lhe conviesse. Funcionava super bem.

Tá legal, era um grupo pequeno, era fácil de controlar. Mas se o caso é controle, hoje existem meios eletrônicos muito mais eficientes pra checar quem está onde, quando chegou e quando saiu. E o que controlava mesmo a turma era ver o trabalho sendo feito, prazos cumpridos, projetos sendo entregues, e não o cartão de ponto ou o rabo-de-olho do colega querendo saber onde é que se meteu o fulano. Enquanto as empresas mantiverem essa mentalidade de que todo mundo tem que fazer fila pra assinar presença no mesmo bat-horário e bat-local, com zero de flexibilidade, a gente pode esperar todo esse estresse e confusão dia após dia. E vai fazendo simpatia pra desatar o nó do engarrafamento e rezando pra Nossa Senhora da Vaga.

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15 respostas em “Aqui, ali, em todo lugar

  1. Menina! Tá aí com todas as letras um tratado sobre como enfrentar o resultado de tanto avanço que todo mundo experimenta, pensa, reflete, resmunga mas não conseguiu escrever.
    Parabéns pela matéria!

  2. Obrigada Leda! 🙂
    Às vezes, pequenas soluções funcionam mais do que grandes peripécias, né? Quer dizer, pode não servir pra todo mundo, mas se der pra uma parcela da população, já deve ser uma mão na roda.
    bjk

    • Paulo,
      São Paulo já tinha que ter adotado uma penca de medidas pra resolver um pouquinho a confusão nas ruas, né? É de deixar qualquer um em transe mesmo… 🙂
      abraço

  3. Ok, aqui em Portugal não é diferente. Embora quando eu trabalhei na IBM tinhamos uma coisa parecida com a do teu pai: das 9:30-12:30 e das 14-17hs tínhamos de estar lá (salvo se estivéssemos num cliente, devidamente documentado na agenda partilhada). De resto fazíamos as restantes horas como entedessemos. Na minha actual empresa tenho ‘sorte’…sim, porque no fundo horário flexível significa que tens uma tolerância acadêmica de 30 min para entrar mas a hora de saída é quando Deus quiser. Mas o que eu mais me bato aqui é pela hora do bate papo do cafezinho…empresa em que não há espaço e flexibilidade pra isso não tem bom ambiente de trabalho…fica tudo tenso e nervoso…mas com jeitinho a gente chega lá.
    Bjs,
    Ana

    • Ana,
      o espaço pro cafezinho é absolutamente fundamental! Li um texto uma vez, que falava da importância das três esferas (e usava metáforas para explicá-las): a fogueira (reuniões, palestras, a sala de aula etc.) – onde aprendemos e disseminamos o conhecimento; o poço (sala do café, espaços de convivência, o pátio do colégio etc) – onde o conhecimento é compartilhado informalmente; a caverna (a própria sala ou cubículo, a biblioteca, o quarto de estudo) – onde cada um pode ter tempo e sossego para pensar e refletir. Tire qualquer um desses e o equilíbrio fica comprometido.

      Não é curioso como algumas pessoas ficam mais inflexíveis e teimosas, justamente numa época que exige de nós a flexibilidade e a tolerância?
      bjk

  4. Depois de ler o seu texto, verifico que nem sequer sei qual é o meu horário…
    Isto apesar de trabalhar numa multinacional.
    Uma multinacional bem atípica e até surpreendente, em muitos aspectos.
    Trabalho pela noite dentro, quando é necessário (e, em iluminação pública é necessário…).
    Trabalho fim-de-semana, quando é imprescindível.
    Mas não me preocupo se sair mais cedo para ir regar a horta num dia quente.
    Para ir assistir à festinha do dia do pai, na escola de meu filho.
    Para almoçar demoradamente com um amigo.
    Aqui tem controlo, sim.
    Aqui se controlam os resultados. Não os horários.
    E a hora do cafézinho é sagrada…

    • Pedro,
      esse é o sonho de consumo de muita gente! 🙂
      Na maioria das vezes, as pessoas têm hora pra entrar, mas nunca pra sair. O chefe não liga de te ver às dez da noite de sexta-feira resolvendo um problema da firma, mas fica puto se você precisa sair no horário comercial pra ir a uma consulta médica ou se estende seu horário de almoço.
      E quem é que dá conta de viver sem o cafezinho? Até eu, que bebo pouco café, não dispenso a pausa pra uma fofoquinha sadia com os colegas…

  5. Concordo… as vezes to no escritorio dando uma de total aspone com rendimento zero no fim do dia, cumprir horário é uma coisa totalmente anti-produção.

    Mas fazer o que néam!

    • Então, às vezes, dependendo do trabalho ou das circunstâncias, horário pode ser uma coisa importante. Mas quando é só pra ‘cumprir tabela’, é mesmo um saco. O pessoal faz porque tem que fazer, néam? 🙂
      Manda quem pode, obedece quem tem juízo!
      bjk

  6. Pois é, mas “nem tudo está perdido quando resta uma esperança”.
    Veja aí o exemplo da Semco, do sr. Ricardo Semler. Não há ponto pra bater, não há nem sala fixa para os funcionários. E funciona. Há… 25 anos!!

    Bijins.

    • Empresas como a dele são mesmo a exceção, né? Há pouco tempo o Richard Quest fez uma matéria sobre empresas assim nos EUA e na Europa. Quem sabe aos pouquinhos a moda pega???
      bjk

  7. Pois é, Paulo,

    Mas quando eu comecei a trabalhar na Escola de Engenharia, no tempo em que do Reino a rédea leve João filho de Pedro moderava, na minha tenra inocência fiquei com a impressão de que o ponto era a coisa mais importante do mundo. Não só porque, na primeira reunião do departamento de que participei, presenciei uma cena edificante (essa você já deve ter ouvido). À questão do chefe do depto:”o que é que vamos apresentar no próximo congresso científico de nossa área?”, respondeu furibundo um dos jovens assistentes: “por que não apresentamos o Livro de Ponto?”.
    Mas sobretudo, e disso eu gostava mesmo, era pela regra implacável: só se podia bater ponto de gravata. Aí, bastava se postar no saguão da entrada, quando ia soar meio-dia, para assistir à seguinte cena: ao som do cuco levantava-se do chão a tampa de um bueiro e do túnel emergia, imundo de graxa, um, digamos, afro-descendentão, de calção e sujíssima camiseta, estendia o braço até a parede, pegava uma fita de pano amarrada por um elástico num prego, puxava a fita, estendendo o elástico até seu pescoço, como se aquilo fosse uma gravata, batia o ponto, soltava o elástico, levantava o bueiro e sumia na escuridão. Tudo em menos tempo do que um pit stop de Fórmula 1 ! Só podia mesmo ser a coisa mais importante.

    • Adorei a história da gravata! Você já viu um filminho de animação (acho que do Festival do Minuto) chamado ‘A Gravata’? Tentei encontrar um link no YouTube, mas achei não. É a historinha de um sujeito morrendo de sede no deserto, de repente aparece um cara vendendo… gravatas! Claro que o coitado ficou puto, ele queria comprar um copo d’água, uma garrafa de Coca Cola, qq coisa, mas definitivamente gravatas não! Aí ele sai pelo deserto de novo, morto de sede, quando vê um oásis. E nele, um restaurante. Êba! Quando tenta entrar, é barrado pelo segurança. Pra entrar ali, só de gravata!!! 🙂

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