Tudismo

Você precisa ler todos os livros. Assistir a todos os filmes em cartaz, ficar no final para os créditos, ler as resenhas, ver o making of. Você também quer experimentar todos os pratos em todos os restaurantes bacanas que estão abrindo por aí, ouvir todas as músicas que estão estourando, e as que não estão estourando também, vai que tem alguma coisa muito imperdível? Você pára na frente da TV para entender como se joga curling, pra ver como foram os anos finais do Império Romano, pra aprender com a Nigella como preparar esse pavê que parece maravilhoso e absurdamente calórico, como fazer para que seu cachorro não morda a perna de seus convidados (embora você nem tenha cachorro em casa). Você quer saber como funciona esse tal acelerador de partículas, como o cérebro trabalha, o que fazer para deixar sua casa mais bonita com um orçamento ridiculamente baixo. Você vai pra internet e quer clicar todos os links. Você quer descer o rio de caiaque e também quer andar a cavalo, só que o cavalo não anda de caiaque. Você tem uma semana em Paris e a primeira coisa que você tem absoluta certeza é de que é tempo de menos pra coisa demais. Você também é assim? 

Pois você sofre de Tudismo. Foi o Gary quem me diagnosticou primeiro, há vários anos: “Isso que você tem é FOMS” (Fear Of Missing Something), ou Medo de Estar Perdendo Algo. Depois o Jay deu o termo em português, e foi assim que eu me descobri tudista em um grau elevadíssimo. Quem sofre de Tudismo não quer fazer de tudo porque não sabe muito bem o que quer, ou porque, estando na dúvida, prefere querer tudo. Nada disso. É que, para o tudista, todas as coisas lhe parecem incrivelmente interessantes e dignas de uma espiada mais cuidadosa. Ali, escondidinha em algum cantinho, pode estar alguma coisa muito, mas muito bacana, então como é que você não vai tomar conhecimento dela? Como é possível deixar passar assim, sem mais nem menos?

Quer matar um tudista de ansiedade? Dê pra ele ou ela livros do tipo Mil Lugares Para Conhecer Antes de Morrer ou Mil e Um Vinhos Para Beber Antes de Morrer. O problema não é só o número absurdo, mil ou mil e um, que seja; esse negócio de acrescentar ‘antes de morrer’ é que mata (sorry pela piadinha pronta). Como assim, antes de morrer? Quer dizer que se eu morrer na semana que vem, vai ficar esse montão de pendências pra uma eventual próxima vida? Mas é karma que não acaba mais! Ou então assistam juntos ao filme Antes de Partir, aquele no qual Jack Nicholson e Morgan Freeman saem pelo mundo fazendo tudo que sempre tiveram vontade de fazer e sempre adiaram, antes de serem escalados para jogar futebol com Santo Expedito por toda a Eternidade. Aí, além do fator tempo e da lista quilométrica, aparece um outro complicador, uma coisinha à toa que pode comprometer de maneira irreversível seus objetivos tudistas: dinheiro. Ou, pra ser mais exata, a falta dele.

Depois de um certo tempo, a gente até se acostuma. Pra não deixar as outras pessoas desorientadas com nossos excessos, aprendemos a passar a impressão de que somos cidadãos centrados, objetivos e focados. Um ou outro ainda se sobressalta de vez em quando, mas no geral conseguimos pegar mais leve. Mas no fundo, lá no fundão mesmo, a única certeza que o tudista tem é a de que não vai dar tempo. Mas não importa muito. Pra nós, o mundo não é ‘OU’, é ‘E’.

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22 respostas em “Tudismo

  1. Perfeito! Eu sabia que sofria de uma patologia só não tinha ainda identificado…
    Não é só o tudismo, é a pressa em alcançá-lo pois e se amanhã eu não estiver por cá? Essa fome em fazer tudo o mais rápido possível e passar para o próximo da lista… Agora também sofro de outro tipo de tudismo que talvez possa se chamar de ‘nadismo’: eu preciso de tempo para não fazer nada, para deitar na rede e ficar olhando para o céu (ou para o tecto) e ficar pensando só em bobagem. Preciso cada vez mais deste tempo, e está cada vez mais difícil de encontrar…
    Por coincidência só na semana passada eu vi esse filme do Nicholson e do Freeman. O que mais me impressionou foi que no final a lista que eles tinham feito e que acabaram por realizar, não tinha exactamente o mesmo significado incial, pois não? ‘Beijar a mulher mais linda do mundo…’ e aquele beijo na netinha… foi comovente. Para além de outros. A morte (ou a proximidade dela) tem um poder de transformação enorme, mas eu gosto de pensar que não preciso que ela chegue perto para perceber ou mesmo fazer determinadas coisas… Era como eu dizia ainda adolescente: ‘Deixar de comer um prato de espaguete a pensar na dieta? E se eu morro amanhã? Só vou pensar no maldito prato que eu deixei de comer…’
    Gostei do filme. Gostei do teu texto.
    Bjs,
    Ana

    • Ana,
      o Nadismo deve ser o Yang do Tudismo, né? Concordo com você, preciso dele também. Ficar em casa lendo na rede, passear com as meninas, sentar num café pra ver o mundo passar na minha frente… Altamente necessários, eu diria, e faço questão absoluta de reservar um tempinho todo dia pra isso.

      Até que eu não sofro da Síndrome do Coelho Branco não (aquela do ‘Eu tenho pressa à beça!’) mas, com raríssimas exceções, não dou conta de não querer ficar sabendo de alguma coisa, mesmo que seja meio do tipo cultura inútil… Meu problema não é passar pro próximo item da lista, porque eles ficam todos lá, conectados em paralelo. 😛

      O caso do espaguete é engraçado: eu não comeria porque sei lá se vou estar aqui amanhã, mas se fosse uma receita nova, alguma coisa diferente, certeza que eu TERIA que experimentar!
      bjk

    • hahaha,
      lendo assim até parece que eu sofro de ansiedade no último grau, né? Mas não é não, eu consigo administrar a curiosidade! Mas isso não quer dizer que ela vai embora…

      Hoje eu já me resignei ao fato de que não vai dar tempo, paciência… Não sofro com isso, mas também não deixo a peteca cair!!! 🙂

      bjk e ótima semana pra ti também

  2. Mónica
    A seu texto, belíssimo por sinal, não há muito a acrescentar.
    Está tudo lá.
    Deixo apenas as palavras de um grande Tudista:
    “Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!”
    Bj

  3. Mônica,

    Mais uma vez você acertou na veia. Basta ver a luminosa repercussão. Da minha parte, recordo primeiro um precursor tudista, da linha pendular acima evocada. É o mestre Tristan Corbière que, com orgulho, disse de si mesmo:

    “Il se tua d´ardeur
    Ou mourut de paresse”

    Quer dizer:
    “ele se matou de ardor
    ou morreu de preguiça”

    E, segundo, rendo homenagem a este delicado Inventário Tudista. Naturalmente, minimalista, porque Tudo é tudo…

    Bjs,
    Evando

    http://br.musicamp3.com/video/musica/Antonio_Jose/WRFhuKWLDeM/Parabens_-_Ant%F3nio_Gede%E3o_-_Pedra_Filosofal/

    • Morrer de preguiça me faz lembrar o sujeito que viu o outro na rede, na maior vida boa, e comentou:
      – A preguiça é um pecado capital!
      Responde o outro:
      – A inveja também!

      Hhhmmm… o link deu naquela frase irritante ‘O Windows Explorer não pode exibir a página’. O que será que aconteceu? Voltarei a tentar mais tarde…
      bjk

  4. É a primeira vez que acesso esse blog e essa matéria logo de cara, assim, me conquistou.

    Achei muito bem escrita e me fez ver que tenho uma dose de tudismo. Não chego ao extremo mostrado em alguns exemplos, mas se troco de canal não importa o que está passando eu tenho que parar para ver…nem que seje leilão de bois.

    Bjs.

    • Bem vinda então!
      é, eu também sou um pouco assim na TV. Só não fica feia a coisa porque eu não sou muito televisiva, sabe? Mas tem hora que fica simultaneamente um episódio do Law & Order, um documentário legal sobre a Renascença no Discovery Channel e uma entrevista legal com uma nutricionista, por exemplo, e aí eu fico doidinha pra saber o que eu assisto! 🙂

      Leilão de bois eu ainda não peguei, mas até aqueles produtos de canal de vendas periga eu parar pra ver!!!

      Será que tem conserto???
      bjk

    • Ô pá! E não é que assim o link ficou que foi uma beleza?
      E agora todo mundo pode ver e ouvir aqui mesmo, que coisa mais linda…
      Não conhecia.
      Eu, com meu tudismo, já fui lá no Google xeretar mais, enquanto aluno não chega! 🙂
      bjk

  5. Monica, minha querida amiga virtual, não penso em outra coisa para escrever senão “eu me achei, finalmente me defini”.

    Quer prova? Eu conheci seu blog clicando em algum lugar por aí, assisto todos os programas do 1o. parágrafo, e vim parar aqui porque estava lendo outro texto seu e não aguentei de vontade de saber sobre o tudismo, e agora vou pesquisar sobre o tal ET…

    Abs

    • Alexandre, my dear virtual friend,
      tudo indica que, assim como os ETs, os tudistas já estejam neste planeta há bastante tempo. O caso é que às vezes leva tempo pra gente ‘se achar uns aos outros’, mas isso acaba sendo inevitável.
      Tudo que posso dizer é que fiquei imensamente aliviada quando o Gary me diagnosticou e depois pude constatar, para minha alegria, que existem outros como eu. Folgo em saber que você também pertence ao clube!
      bjk

  6. Vim ver o que era o tal tudismo depoiis que você mencionou no comentário lá no blog. Menina, ainda bem que näo sofro disso, muita coisa eu já considero desinteressante de cara e elimino, ainda bem. Mas sou curiosa, kkk
    Agora quero ver o que é o tal nadismo, captei nos comentários.
    Beijo

    • Eu continuo achando o Tudismo mais divertido do que o Nadismo… É claro que, pro Tudismo dar certo, é preciso temperança, como dizia minha avó. Os excessos são sempre perigosos. É que a curiosidade não fica parada num assunto só, sabe? A gente expande pro ‘de tudo um pouco’, quando vê já foi longe…
      bjk

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