Mas essa não é aquela Alice!

‘Alice no País das Maravilhas’ foi o meu primeiro livro de cabeceira: uma edição em capa dura, com páginas e páginas de texto e belas ilustrações em bico-de-pena. Hoje em dia, um livro assim provavelmente pareceria irremediavelmente sem-graça pra essa nova geração iPad. Eu tinha também o disquinho em vinil colorido, com a vozinha de uma Alice com sotaque carioca dizendo para uma flor do jardim: “Não são hachtchich, são aich minhaich pernaich...”. Anos depois, comprei o livro original em inglês, o audiobook e já perdi a conta de quantas vezes assisti ao desenho animado do Walt Disney. Sabia todas as músicas de cor (“E como morrer é ruiiiiiim… Pintamos cor de carmim!”, cantavam as cartas do baralho), sabia contar a história da foca e das ostras curiosas. O universo surreal de Lewis Carroll era ao mesmo tempo maluco e, curiosamente, fazia o maior sentido.

Na minha cabeça, se tinha alguém que conseguiria traduzir tudo isso para a telona era o Tim Burton. Quando li que ele estava preparando sua versão da história para o cinema, achei que era uma escolha natural, mesmo sabendo que não seria uma simples adaptação do livro, mas algo diferente. Teve gente que não gostou muito das mudanças, alguns nem entenderam muito bem que não era exatamente a mesma Alice do livro e do desenho. E olha que a ratinha (na voz da Barbara Windsor) avisava a todo momento: “Mas esta não é aquela Alice!”

Essa Alice do Tim Burton está saindo da adolescência, perdeu o pai há pouco tempo e está prestes a ficar noiva de um sujeitinho esquisitão com problemas digestivos. Quando cai novamente pelo buraco da árvore, seu mundo encantado não podia mesmo ser igual ao de quando era uma garotinha curiosa – e até os personagens malucos de ‘Underland’ têm dificuldade de ver nela aquela Alice da infância.

A história em si é bobinha – Alice tem que matar o monstro Jabberwocky, que na verdade só aparece em ‘Alice no País dos Espelhos’ – mas o ponto alto do filme é mesmo o visual. Underland agora está mais para a floresta de ‘A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça’, com árvores retorcidas, um céu sempre meio escuro e uma atmosfera um tanto lúgubre, mas ainda fantástica, e os personagens, com exceção da Rainha de Copas, parecem mais tristes e menos malucos (o Chapeleiro Louco do Johnny Depp ficou um Eduardo Mãos de Tesouras ruivo) e talvez seja aí que o filme perde um pouco, pelo menos pra mim; o ritmo frenético que existia na história original acabou ficando meio morno, e eu vi menos do que gostaria do universo nonsense de Lewis Carroll. Não chegou a comprometer mas, né, mas pra uma fã de carteirinha como eu, ficou faltando um pouquinho de sal.

Se vale o ingresso? Vale muito, e com sobra. Eu assisti em cópia 3D legendada, e ouvir as vozes do Stephen Fry fazendo o Gato Careteiro e do Alan Rickman como a Lagarta faz uma boa diferença. No final, a única grande pergunta não respondida ainda é a mesma: por que um urubu é da cor do quadro-negro?

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11 respostas em “Mas essa não é aquela Alice!

  1. Tudo verdade, Monica. Mas pra mim Alice continua sendo sempre Alice. Seja na Wonderland ou na Underland, ela é quem cria o seu próprio mundo. O livro da Alice no País dos Espelhos tem esse lado mais dark, que eu chamo de mais ‘crescido’, que é quando nós começamos a complicar tudo o que era bem simples antes. Aliás não é à toa que o livro em inglês chama-se ‘ Through the Looking-Glass’…
    Posso te dizer que os meus filhos têm esse tal livro de capa dura até hoje na estante e de vez em quando vamos todos dar uma olhadela…há coisas que são atemporais.
    Bjs,
    Ana

    • É, esse clima mais dark dá o tom do filme, né? Bem uma mistura dos dois livros. E o Tim Burton conseguiu mostrar bem como andava a cabeça da Alice ao criar Underland.
      Continuo amando tudo relacionado ao livro e ao filmee, espero que mais gente passe a conhecer a história (é incrível como a toda hora esbarro em pessoas que nunca, jamais leram uma linhazinha do livro sequer…).
      Realmente, tem coisas que são mesmo atemporais!
      bjk

  2. Êpa!… Está tudo muito diferente por aqui!…
    É muito bom mudar. E ficar sempre igual, mas cada vez melhor!
    Quanto ao filme, não se deve esquecer que ali se faz, Alice paga!
    Sorry…
    Paulo

    • Paulo,
      eu estava precisando de uma risada dessas hoje! 😀
      Suas tiradas estão cada vez mais afiadas…
      Alguém disse mais ou menos assim num poema (nunca mais encontrei o texto, isso é que dá a gente não guardar na hora que pode): o melhor é mudar, mas mudar não é o movimento oposto à inércia, mas um esforço consciente de deslocar-se para ver de um outro jeito o que foi visto…

      Quem souber direitinho que poema é, autor, etc etc etc, me avise, please. Esta minha busca já dura anos…
      abraço

  3. eu não sei se vc vai voltar a falar comigo depois do que vou dizer, mas vamolá: eu nunca li Alice…
    E nem tenho os livros aqui em casa, não consigo explicar isso. Estamos procurando uma bela edição, juro pr’ocê.

    Se tiver a chance de ir à British Library, eles têm entre os seus “tesouros”, ao lado da Magna Carta, da primeira edição do Times e de manuscritos de John e Paul com algumas das músicas dos Beatles, o caderninho onde o Carroll escreveu a (e fez ilustrações da) história. É fantástico de se ver…

    • Max,
      não vou parar de falar – ou melhor, ler, que é o que a gente tem feito até o momento – com você, se você me prometer que vai encontrar uma edição bem bacana do livro pra, no futuro, ler pra Júlia/Alice/Olívia/Érica como bedtime story… 😉

      Minino, eu era rato da British Library, desde quando era coladinha ali no British Museum, e sim! eu vi a Alice e John e Paul e George e Ringo, e as partituras de Johann Sebastian e Ludwig e Wolfgang Amadeus, cartas, rascunhos, rabiscos, quem poderia imaginar que papeizinhos teriam tanto valor??? Horas e horas ali dentro, essas bibliotecas me deixam maluca. Simplesmente maravilhoso!
      bjk

  4. Pingback: Domingueiras « Pensamentos de Uma Batata Transgênica

  5. Ahhhhhh eu não gostei do filme!!!

    Eu achei nada a ver essa mistura que ele fez, achei aquela Alice totalmente sem sal, enfim, quase pedi meu dinheiro de volta! Fizeram tanto “auê” ano passado com esse filme que eu achei que seria um espetáculo divino, mas chegando lá eu não aguentava mais aquela anã cabeçuda dizendo “CORTEM-LHE A CABEÇA” “CORTEM-LHES A CABEÇA”

    pelamor!!!!!!

    eu gostei do johnny deep…. desse eu sempre vou gostar, heheeheheh!

    • Alguém me falou que achou o Johnny Depp a cara da Madonna nesse filme!!! 😀

      Eu gostei, mas eu já estava preparada pra ser algo bem diferente da Alice com a qual eu já estava acostumada. Então não tive um baque não. Eu achei a rainha divertida, na verdade todos os personagens podiam ter sido um pouco mais malucos. Mas acho que era pra refletir o estado emocional da Alice, então foi tudo assim, mais ‘dark’ mesmo.
      bjk

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