A primeira vez a gente não esquece

Tem algumas coisas na vida que a gente experimenta e agrada na hora, né? Desenhos antigos do Walt Disney, por exemplo. Os sorvetes da Häagen Dazs. Trovinhas do Mário Quintana. Outras a gente tem que ir aprendendo a apreciar devagarinho, em pequenas doses homeopáticas para não atropelar tudo, como se fosse algo assim delicado, que pode se espatifar em mil pedacinhos a qualquer momento. Shakespeare. Chocolate amargo. Sushi.

Ópera. A primeira que eu vi ao vivo e a cores foi há muitos e muitos anos. Era uma missão familiar do tipo ‘não basta ser sobrinha, tem que participar’, então lá estávamos eu e mamãe no Palácio das Artes especialmente para ver meu tio ser lord Arturo em uma montagem local de Lucia de Lammermoor. Primeira coisa que deve ser dita: Lucia não é lá a melhor escolha para introduzir o mundo da ópera a uma adolescente, por mais que ela adore música e o tio em questão. Donizetti realmente pegou pesado, periga você sair do teatro na maior deprê. É verdade que isso vale para a maioria das óperas disponíveis no mercado, mas pelo menos Verdi costumava incluir tantas árias e coros bonitos no seu trabalho, que no final a gente se pega cantarolando distraída uns trechinhos no caminho para casa. Dá um super alívio emocional.

Mas Lucia não. Essa ópera é hardcore. Lucia e Edgardo se amam, mas são de famílias inimigas (#romeuejulietafeelings). Lucia é forçada a se casar com lord Arturo enquanto Edgardo está fora. Edgardo volta e aparece justamente na hora do ‘I do’. Lucia mata Arturo e fica louca, ou fica louca e mata Arturo. E morre. E aí fica todo mundo em volta do túmulo da Lucia chorando baldes a morte dela, e Edgardo morre também. E isso porque é uma ópera em três atos, né. Espiche o libreto e ainda dá pra mais um bom tanto de drama.

O ponto alto daquela noite, pra mim, foi a Ária da Loucura no terceiro ato. Porque conhecer eu até já conhecia, minha tia era soprano coloratura e de vez em quando ela cantarolava uns pedacinhos pela casa. Mas no teatro foi outra coisa. Lucia não ficou simplesmente andando de um lado pra outro no palco, doidinha e ensanguentada, soltando seus trinados (e, como diria meu pai pra minha tia, ‘ela trina’ muito bem!). Lucia subiu a escadaria. E no final, gente, Lucia rolou escada abaixo, sem dublê nem nada, estatelando-se lá embaixo aos pés de Enrico, o irmão desalmado. O público aplaudiu entusiasticamente, até hoje não sei se foi por conta da beleza do canto da moça ou pelo final apoteótico. Eu só conseguia pensar “mas será que ela vai rolar escada abaixo todas as noites?” Morri de dó da cantora, espero que pelo menos tenham pago as sessões de massagem depois.

De lá pra cá, foram muitas as óperas em vários teatros, e aos poucos fui aprendendo a apreciar as produções cuidadosas, a técnica dos solistas e todo aquele dramalhão de folhetim que hoje a gente vê, seja em Hollywood, na Broadway ou no horário nobre na Globo, e se diverte. Lágrimas aos milhares, intrigas, amores impossíveis e sim, mortes aos montes, mortes cinematográficas como a de Lucia (alguém me disse que na novela das oito um personagem morreu rolando escada abaixo, estabacando-se na sala de visitas). Coisa pra se cortar os pulsos com lixa de unha, que é pra durar uma ária inteira de uns cinco minutos ou mais, que em ópera ninguém morre rapidinho. E as árias sofriiiiiidas como a de Violetta, suaves como a de Eurídice, dramáticas como a da Rainha da Noite, apaixonadas como a de Calaf, nostálgicas como a de Nadir. E tudo isso começou lá atrás, num passado um tanto distante, quando eu ainda mal conhecia Shakespeare, não gostava de chocolate amargo e nem de sushi, e hoje adoro todos eles…

 

Outros links, soltando a voz nas estradas:
A ópera vai ao mercado
Cecília sabe das coisas
O barbeiro do rei

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9 respostas em “A primeira vez a gente não esquece

  1. “Tem algumas coisas na vida que a gente experimenta e agrada na hora, né?”
    O seu blog está entre elas, Mônica…
    Belíssimo, o post. Adorei. Mesmo!
    Bj

    • Ai que bom, Pedro! Fico super feliz quando leio coisas assim, porque eu adoro isso aqui, de verdade. E ver que as pessoas vêm e voltam é bom demais. Tem uns que são quietinhos e chegam mineiramente, sem fazer barulho, mas aparecem sempre e ficam escondidinhos. E tem os que dão ‘oi’, enviam comentários e viram amigos! Existe coisa melhor?
      bjk

  2. Concordo, tá entre os melhores posts já escritos por aqui…

    Minha primeira ópera foi “Um Baile de Máscaras”, de Verdi, no Opéra Bastille, há 15 anos atrás. Tampouco acho que é a obra mais indicada para um iniciante, não consegui acompanhar a história direito e, confesso, chegou uma hora que a cantoria cansou um pouco. Mas ainda assim, o impacto da produção foi grande, tanto que até hoje curto uma ópera de montão, apesar de não ser grande conhecedor. Pra quem tem preguiça de ópera, é só ver “O Barbeiro de Sevilha” e mudar de opinião ha hora!!!

    • Condordo, Mu, O Barbeiro de Sevilha é uma ótima introdução à ópera. Vi uma produção há uns anos aqui e me diverti horrores! Nunca vi Um Baile de Máscaras, mas se é Verdi, eu sempre arrisco. 😉
      bjk

  3. A minha primeira vez foi ‘Tosca’ de Puccini. Fiquei perdida de amores. A partir daí já tive outras paixões. Mas ‘Carmen’, ai, Carmen, é sem dúvida a minha favorita.
    Chocolate amargo é que não, nem água com gás. Acho que vão ficar pra outra vida…
    Bjs,
    Ana

    • Ah, Tosca é linda, né, porque Puccini é outro que sabe fazer melodias como poucos (ok, ninguém bate Verdi, mas ele tá lá, embolado no segundo pelotão…). Carmen também é show, e eu já vi tantas versões diferentes, tantas montagens tradicionais e modernosas, que eu acho que talvez seja uma das mais versáteis já escritas.

      Chocolate amargo eu custei a aprender a gostar. Ainda prefiro o meio-amargo, tá mais no equilíbrio… Água gasosa eu passei a gostar graças a nossa amiga Perrier. Ainda tenho algumas reservas, mas hoje em dia encaro um copo com satisfação! 🙂
      bjk

  4. Confidência por confidência, minha ópera amada de paixão é mesmo Lucia di Lammermoor. Adoro todas as suas árias. Só de ouvir “Regnava nel silenzio alta la notte e bruna …” já se me arrupia inquieto o coração. O que dele sobra é definitivamente dilacerado no lindissimo e pungente dueto de despedida “Veranno a te sull’ aura I miei sospiri ardenti,
    Udrai nel mar che mormora L’ eco de’ miei lamenti … ” Na Aria da Loucura, bem lembrada pela Monica, já não respondo mais pelos meus atos. Por isso compreendo, e quanto, a onda de assaltos no “O Quinto Elemento” de Luc Besson, quando as pessoas enlouquecidas tentam conseguir de qualquer forma ingressos para ver “Lucia” no planeta Flohston, interpretada pela diva intergalática Plavalaguna. A interpretação, no filme, é de fato da soprano albanesa Inva Mula, e é bela. Amo também as “Lucia” feitas por tantas divas, como Montserrat Caballé e Anna Netrebko. Mas a paixão absoluta é mesmo por Maria Callas. Sobretudo na gravação de 1954, com Giuseppe di Stefano, e na de 1958, com Ferruccio Tagliavini. Sublimes. Como este lindo post.

    • Uau, você tem todos esses detalhes de cabeça, minino? Eu nem lembrava que era a ária de O Quinto Elemento! Callas é perfeita para Lucia, praquela ali ir pra loucura é um passinho só. A Caballé eu gosto mais nas peças suaves (como Casta Diva), o controle de diafragma da madame (e que diafragma!) é imbatível, acho que ninguém ganha dela nos pianíssimos. A Netrebko ainda tem a vantagem de ser bonita pra dedéu e ter uma voz poderosíssima. Ela fez uma Violetta belíssima.
      bjk

  5. Monica, assino embaixo seus comentários sobre as mocinhas! Não é à toa que você escolheu a Netrebko para ilustrar o post, a Caballé é mesmo imbatível nos pianíssimos e aquela força de Maria Callas sempre a um passo do abismo é mesmo devastadora.
    Não sei se os “detalhes” de que você fala são os do filme, mas ali era fácil. Entre outras cumplicidades com o Juju havia nossa metideza de frequentar linguas exóticas. E, portanto, era natural lembrar da Plavalaguna, que em servo-croata significa “Lagoa Azul”, delicada homenagem de Luc Besson à namorada e seu filme anterior. E por aí vai. São muitas as piscadelas entre os dois pombinhos, inclusive na lingua utilizada pela Jojovich…
    Bjks

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