A mercearia Paraopeba

merceariaParece que foi há séculos, mas nem faz tanto tempo assim. Até outro dia eu, menina ainda, costumava sair com meu avô (ele sempre sempre de terno e chapéu, um cigarrinho na mão e os passos lentos de quem já não tinha pressa de nada) para fazer compras na mercearia que ficava a uns poucos quarteirões da casa dele. Era um desses armazéns comuns antigamente por toda a cidade, com grandes balcões de madeira, sacos de feijão, arroz e farinha para venda a granel, uma infinidade de utensílios pendurados em cordas e ganchos no teto e a indispensável caderneta para anotar as compras, que ali ninguém pagava na hora; no final do mês, meu avô ia lá e fazia o acerto, e pagamento era sempre em dinheiro. O dono da mercearia eu não me lembro o nome, mas ele conhecia todos os fregueses, perguntava por todos da família, às vezes mandava ‘um agradinho’ pra minha avó ou dava uma bala ou pirulito pra gente. Quando a compra era muita, ele fazia o neto levar tudo depois, era muita escada pro meu avô subir com sacola, né, ‘que é isso, não é incômodo nenhum’. E quando ficava faltando algum produto, ele encomendava e depois telefonava avisando que tinha chegado e que ia pedir pro menino levar.

Há vários anos eu faço compras no mesmo supermercado perto de casa mas, com exceção da Cléo, a mocinha do caixa 5 – sempre de rabo-de-cavalo, óculos de armação preta e sorriso fácil – eu não conheço ninguém por ali. Tudo que eu quero comprar está etiquetado com misteriosos códigos de barra, distribuído organizadamente em prateleiras e corredores numerados e bem sinalizados, numa loja espaçosa e bem iluminada, com militrocentos tipos diferentes de carrinhos e cestinhas, milhares e milhares de produtos de toda parte do mundo, fica até difícil escolher. Como meu avô, também não levo notas e moedas, mas a caderneta desapareceu; hoje pago tudo com cartão de crédito ou débito. Se alguma coisa está em falta, tenho pelo menos outros três bons supermercados na vizinhança, ou simplesmente acesso a internet e faço uma compra online. Ninguém na loja sabe quem eu sou, onde moro ou o número do meu telefone.

Tudo muito bacaninha, muito hi-tech e super século 21, mas é que às vezes é reconfortante saber que ainda existem armazéns como os da minha infância espalhados pelos subúrbios e cidades do interior, fazendo bem mais do que simplesmente vender e fazer a economia girar. Lugares como a Mercearia Paraopeba, em Itabirito (terra do melhor pastel de angu do Universo), que ainda trabalha ‘à moda antiga’ e tem freguesia certa, e ainda encontra soluções simples mas perfeitas para resolver os problemas dos clientes. Aliás, clientes nada. Amigos.

***

 

Vídeo realizado por Rusty Marcellini.
Beijo pra Carol, que foi quem me enviou esse vídeo tão lindo.
E que trembomdimaisdaconta ficar ouvindo o mineirêssss…

18 respostas em “A mercearia Paraopeba

  1. Minina, este filme é bom demais da conta, sô!
    Sério, é reconfortante saber neste mundinho cada vez mais impessoal que a gente vive ainda existem lugares como o Mercearia Paraopeba, onde as pessoas se conhecem, onde se sabe de onde vieram os produtos, quem fez, como fez, onde se pode confiar nas pessoas e se pode ter a confiança delas. Me lembra a Mercearia Melo, ali no começo da rua do Ouro, onde meus pais faziam compras. Da Dilma, de quem eu me lembro desde que eu me lembro de alguma coisa na vida, que ainda trabalha lá até hoje e sempre pergunta pelos meus irmãos e por mim. Vou dar um pulo lá nesta semana para comprar doce de goiaba…

    • Pois é, a Carol acertou na mosca. Depois o Stélio me enviou o link também, o que significa que ele (o link, não o Stélio!) já está rodando aí pelo ciberespaço, o que é uma coisa muito boa!

      Acho que todo mundo well… como direi… cof… cof… de uma (in)certa idade… tem uma história como essa pra contar, né? O que eu acho bom demais, porque hoje em dia lugares assim estão ficando na lembrança e olhe lá. Os armazéns da minha infância já sumiram há tempos, assim como a banca de jornais do Nelson, ali na esquina de rua Rio Grande do Sul com Gonçalves Dias…
      bjk

  2. Mônica,
    melhor vídeo dos últimos tempos.
    Tenho a melhor lembrança de quando se “assentavam” as compras nas famosas caderneta e todos conheciam todos. Vivi muito isto na minha infância interiorana.
    Beijim,

    Stélio

    • Também adorei, Stélio!
      Não sou lá muito dada a nostalgias (do tipo ‘bom mesmo era no meu tempo!’), mas gosto muito de ver coisas assim. É legal pra gente se lembrar de como as coisas eram, mas também pra mostrar pra turma de agora. Tudo diferente, algumas coisas melhores, outras piores, mas é sempre um ponto de partida. Fez sentido? Acho que não… 😛
      bjk

  3. Mônica,

    Num futuro distante será assim:
    Para fazer uma compra qualquer nós nos sentaremos calmamente em uma cadeira bem confortável, fecharemos nossos olhos e estalaremos os dedos da mão direita. Instantaneamente, como se fosse um milagre, tudo o que desejávamos comprar, exatamente da forma que escolheríamos, estará devidamente guardado em nossos armários, pronto para o uso.

    Num futuro mais distante ainda não será mais preciso estalar os dedos da mão direita.

    Ainda mais adiante, num futuro aquidistante, não precisaremos nem mesmo nos sentar calmamente numa cadeira confortável para fazer nossas compras porque tudo irá sendo reposto automaticamente – naquilo que serão os sucessores dos nossos armários atuais – assim que for sendo consumido.

    E vai chegar o dia em que não precisaremos mais de nada disso – seremos pura energia!…

    Enquanto esse futuro não chega, nada melhor que a lembrança do velho armazém que ficou perdido numa esquina qualquer do nosso passado.

    Grande abraço,

    Paulo.

    • Por mim, eu ainda pretendo esperar muito tempo ainda antes dessa fase de pura energia, tou com a menor pressa não!!! 😀

      Lembrança boa é sempre muito bom, né?
      abração

  4. minha família teve desses mercados – primeiro meu avô, depois meu pai.
    Eu cheguei a trabalhar muito neles, antes de ir embora prá “capital” para estudar…

    • Que legal! Eu sempre fui ‘da capital’ (acho que nascimento no interior do exterior não contabiliza, né?), mas gostava muito desses armazéns que existiam por aqui, até em bairros hoje finíssimos, como Lourdes e Funcionários. Agora é tudo bem diferente…

  5. Pois é, Mônica… Passei minha infância e adolescência em plena Savassi, mas, naquele tempo, não tínhamos grades altas, muito menos cerca elétrica. O pão era colocado pelo padeiro dentro de uma caixinha própria pra isso na varanda. Quando acordávamos o pão já estava lá, ainda quentinho… Ninguém roubava! Andávamos de bicicleta pela vizinhança sem problema algum, vivíamos em cima dos muros e das árvores. Os remédios eram anotados na caderneta da Farmácia Vidigal (se não me engano existe até hoje). Bons tempos aqueles! E olha que nem são tantos anos assim…

    • Lygia,
      eu também me lembro da Savassi assim, com muitas casas com alpendre e ruas tranquilas, o único prédio mais alto era aquele na esquina de Pernambuco… Aquilo ali mudou pra caramba num espaço muito curto de tempo, né? O mesmo aconteceu onde eu morava, ali pertinho do Diamond Mall – hoje em dia o movimento na região é incrível, antes a gente brincava de queimada usando os dois lados da rua, imagina! As casas eram enormes e lindas, agora as poucas que ainda existem viraram escritórios (sem contar aquele ‘Taj Mahal’ da Universal na Olegário Maciel, que derrubou várias casas.) Uma pena. Em compensação, a região onde a gente mora hoje ainda era fazenda nessa época! 😛
      bjk

  6. Coisa deliciosa, essa.
    Mercearia, aqui, já não é assim. Infelizmente.
    Mas em café e restaurante você ainda consegue encontrar esse serviço personalizado, com amizade misturada.
    E há coisa melhor que entrar de manhã no café e ser tratado pelo nome próprio? Ouvir comentários (ou reclamações) do último post que você publicou no blog?
    Ou frequentar um restaurante onde já nem precisa fazer o pedido, pois já sabem que é “o do costume”? Ser atendido por um garçon que te conheceu, solteiro, namorado, casado, com um filho, com dois filhos?…
    Pena que são as excepções…
    Bjs

    • Pedro,
      bares e restaurantes assim a gente ainda encontra aqui em Belo Horizonte com certa frequência, ainda bem! Aquele botequim onde a turma sempre se encontra pra um chopp, ou um outro pertinho de casa, ou o que o amigo é o dono e a gente quer prestigiar… Eu espero que essa tradição a gente não perca por aqui, já que os armazéns tradicionais estão em extinção.
      bjk

  7. Bah… manda essa mercearia fazer filiais por aí… porque óh tá dificil hein…. hoje em dia as pessoas só querem saber de R$ girar e esquecem do lado humano da coisa.

    bjos

    • É verdade, Rê, quando aparece um lugar assim, a gente tem mais é que cuidar com muito carinho, né? Hoje em dia a ideia é maximizar os lucros e minimizar os custos. O resto é detalhe…
      bjk

  8. Prezado Mônica,
    Meu nome é Rusty Marcellini e sou o realizador do vídeo sobre a Mercearia Paraopeba. Fico feliz em saber que você tenha se emocionado com esta “pequena” história sobre grandes pessoas. E mais ainda em em saber que o trabalho do Roninho e do Seu Juca vem sendo reconhecido. Seja através deste blog ou do vídeo que busca mostrar o trabalho louvado de pessoas que merecem o devido valor.
    Um grande abraço,
    Rusty Marcellini.

    • Rusty,
      meus sinceros parabéns pelo belíssimo vídeo! Realmente lindo de ver, quem é daqui fica emocionado e quem não é, mas já viveu experiências semelhantes em outras paragens, com certeza se emociona também.
      Obrigada pela visita e pelo comentário. Aproveitei pra colocar seu nome nos créditos e fazer um link pro seu blog. Parabéns pelo trabalho!

      abraço

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