Terapia (eletro)doméstica

Tem uma loja na China que permite que suas freguesas (mas só elas, será que é receio dos moços saírem ateando fogo em tudo, dando voadoras no pescoço do vendedor ou coisa parecida?) descontem toda sua raiva e frustração nos produtos disponíveis nas prateleiras. Tipo terapia hardcore para mulheres à beira de um ataque de nervos mesmo, nada dessas coisinhas tipo divã, Freud e fluoxetina. Eu achei a ideia ótima, já tive ímpetos de atirar meu computador pela janela quando ele cismava de travar bem no meio de alguma coisa muito importante, e só não o fiz porque muito pior do que um PC que trava, é um PC inexistente. E que terá que ser reposto.

Essa terapia já era corrente lá em casa desde a minha querida infância, mas de um outro jeito. Vocês me veem assim, calminha, composta, toda phynna, vocês não têm ideia do gênio que eu tinha quando era pequena. Uma legítima leonina concentrada no tamanho amostra grátis, energia e temperamento forte em estado puro, uma provável explosão nuclear em estado latente. Mas com um pai e uma mãe com a maior paciência do planeta. Ambos librianos, que leonino tem que ser um por casa, senão é o caos.

Quando eu ficava brava, meus amigos, eu ficava muito, mas muito brava. Brava demaisdacontamêsss. Diconforça. Mas eu tinha uma bolinha azul com estrelas douradas, mais ou menos do tamanho de uma bola de handebol, e meu pai buscava a bola, me pegava pela mão e a gente ia pro corredor do prédio onde eu morava pra ‘chutar a raiva’. Era cada bico na bola que eu nem te conto. Se eu tivesse persistido na carreira, acho que dava até pra ser convocada pra seleção, nem a tonta da jabulani seria empecilho pra mim. E eu ficava lá com meu pai, cinco, dez, quinze minutos, meia hora, o tempo que fosse necessário, até que eu tivesse chutado toda a raiva naquela bolinha azul, coitada, que deve ter sofrido um bocado. Aí a braveza passava, eu ficava calminha e voltava a ser a criaturinha adorável que vocês podem ver na minha fotinho. Até que pisassem nos meus calos de novo, evidentemente.

Depois a gente cresce, né? Com sorte, vai aprendendo a domar o gênio, senão ninguém dá conta de conviver com a gente. Minha amiga que é super esotérica me explicou que isso é só o meu ascendente em Aquário tomando as rédeas e colocando ordem no botequim. Não deixa de ser meio divertido transferir a responsabilidade para um montinho de planetas e constelações, mas acho que a questão é um pouquinho mais complexa, né? Não sou muito ligada nessa de astrologia não. Mas isso pode ser só o meu lado virginiano-cético falando mais alto, sei lá.

Só sei que eu achei a ideia da loja chinesa danada de boa. Podiam até abrir o leque de opções, oferecendo aqueles carrinhos tromba-tromba de parque de diversão pra aliviar o estresse do trânsito, ou um monte de bonecos joão-teimoso pra gente descer o cacete na sogra, no chefe, no governo. Tipo sair do Freud e atacar logo de Analista de Bagé. Aposto que ia ser o maior sucesso.

Anúncios

5 respostas em “Terapia (eletro)doméstica

  1. Ach, das ist eine gute Idee!
    Eu acho que sou o contrário de vc. Qdo era criança era calma, ingênua, compreensiva… Agora, sai de baixo. rsrs
    Já me chamaram de belicosa. Pense.

    Mas, né, sempre temos uma válvula de escape. 😉

    bjs

    • Danke! (e aí está praticamente todo o meu alemão, condensado em uma palavrinha!!!)
      Olha, pra falar a verdade, eu aprendi a dominar o gênio mas, para melhores resultados, melhor não me provocarem muito não… 🙂
      Mas uma coisa é verdade: eu hoje escolho muuuuuito melhor as minhas brigas, e não gasto energia à toa não. Fui ficando bem mais seletiva. Já é uma ajuda!
      bjk

  2. Adorei a loja chinesa. Acho que fazia sucesso aqui, onde esse povo é todo explosivo.
    Gostei da ideia da bola do teu pai, mas o meu problema é um pouquinho diferente…lá em casa TODO mundo era bravo (tô a ser bondosa a colocar no passado) e naquele conjunto de virgem, touro, capricórnio, sagitário, leão e aquário com ascendente em tudo que era de mais perigoso, não havia bola que aguentasse… ou melhor, o chute ia ser direcionado mas não na parede…
    Agora, tenho 2 filhos tão calminhos, uma de libra e outro de aquário mas com bom ascendente, que às vezes nem acredito que vieram de mim…
    Isso dos astros pode não ser como o polvo, mas olha que a percentagem de acerto impressiona.
    De resto continuo à espera que o meu espírito de briga se acalme, mas olha, já tô perdendo as esperanças…
    Bjs,
    Ana

    • Ser um pouquinho de briga não é má ideia, né Ana? Gente muito plácida demais também me dá aflição. Eu não sei muito dessas coisas de signo e personalidade, mas me divirto com tudo que o pessoal me conta. Eu sou mais como o meu irmão, que no final do dia pega o jornal e diz ‘deixa eu ver como estava o meu horóscopo pra ver como é que eu deveria ter me sentido hoje…’ 🙂
      Mas é mesmo, tem umas coisas que batem bem. Só não sei se quem bate bem é a gente!!! 😀
      bjk

  3. Pingback: Cogito, ergo sum. Ou inferir é existir…e se for uma bobagem é mais divertido. « O Cágado Xadrez

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s