Eliza e Heitor

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O herói Aquiles matou Heitor, filho de Príamo, durante uma luta. Em seguida, para horror dos que presenciavam a cena, Aquiles amarrou o guerreiro morto ao cavalo e saiu arrastando seu corpo inerte pelo campo de batalha em comemoração, ignorando as súplicas do rei de Troia, que pedia que o filho lhe fosse entregue para que pudesse ser enterrado com dignidade. Esse sempre foi, para mim, o trecho mais brutal da Ilíada de Homero, aquela cena que, de tempos em tempos, tantos séculos depois de escrita, me vem à cabeça. Como vem agora, com o caso Eliza, que a mídia insiste em chamar de caso Bruno (mas a vítima afinal de contas não é a moça?).

Não tenho acompanhado o caso. De qualquer modo, partes da história acabam chegando até mim quer eu queira, quer não, seja pelas capas de revistas, nas chamadas do jornal na TV ou nas manchetes estampadas em qualquer site de notícias. Minha escolha é consciente; não quero fazer parte do circo que mais uma vez a mídia arma em torno de um drama real – tal como fez antes no caso da menina Isabella ou da jovem Eloá – usando como pretexto o sagrado dever e direito de informar seu público (em troca de preciosos pontinhos no ibope e, claro, grandes anunciantes nos intervalos comerciais). Tampouco quero saber de autoridades que estão mais interessadas nas entrevistas e nas câmeras de TV do que nas investigações.

Prefiro não conhecer os detalhes do crime ou me informar sobre o passado dos envolvidos. Não quero saber das motivações, dos álibis ou acusações mútuas. Tudo que consigo pensar agora (se o que estão divulgando está correto) é que, não importa se estamos falando de um homem, uma mulher, esposo, amante, vilão ou mocinho, ter seu corpo partido em pedaços e atirado aos cães para ser devorado é de uma barbárie que deveria revirar nossos estômagos.

Todos nós já ouvimos histórias de vítimas de acidentes aéreos como os da Gol, da TAM e da Air France. Ao lado dos parentes à procura de alguma coisa – qualquer coisa – que pudesse identificar os pais, a filha, o esposo, encontramos o desespero daqueles que, encerradas as buscas, não tiveram a mesma sorte. Em catástrofes como terremotos e furacões, mesmo quando as esperanças de se encontrar sobreviventes já se foram, as equipes continuam o trabalho árduo de resgatar e identificar os corpos, para que sejam entregues aos familiares. Há pouco mais de uma semana, 15 anos depois do massacre de mais de oito mil muçulmanos em Srebrenica, na Bósnia, cerca de oitocentas vítimas recém identificadas puderam finalmente ser enterradas em uma cerimônia conjunta. Até no horror de uma guerra os dois lados faziam trégua para que seus mortos pudessem ser recolhidos e enterrados.

Enquanto investigadores fazem pose para os flashes das câmeras e buscam seus quinze mintuinhos de fama de sub-celebridade, enquanto jornalistas saem à caça dos detalhes mais sórdidos para depois estampá-los em manchetes e vender mais, enquanto o público esquece que a vida não é novela das oito, e acompanha o caso como se fosse um mero reality show, enquanto a violência é banalizada mais uma vez, em algum lugar, imagina-se, está o corpo de uma mulher (ou o que restou dele), a mãe de uma criança, à espera do descanso final. Isso deveria ter mais importância.

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7 respostas em “Eliza e Heitor

  1. Enquanto isto, Mônica, uma parte dos brasileiros discute se é válido ou não dar tapinhas nas crianças como forma de educação. O acusado – Bruno – foi abandonado pelos pais aos 3 dias de vida. Nunca levou um só tapa dos pais…

    Acho que, socialmente, o Brasil virou paranoia há muito tempo.

    ECA !

    Assino embaixo de tudo que você escreveu, com o estômago embrulhado só de pensar em tanta covardia que devem ter feito com Eliza.

    Beijim,

    Stélio

    • Stélio,
      É, a história toda é de embrulhar o estômago mesmo.
      Sobre a ‘lei do tapinha’, estou no meio de um post sobre o assunto – acho que pensamos diferente em alguns pontos, mas voltaremos a isso mais tarde… 😉
      bjk

  2. Eu comecei a acompanhar essa história, mas depois que o circo parou e comecei a perceber que não vai sair do lugar, no final, fiquei pensando na vítima.
    As vítimas, que não podem se defender mais – ou nunca puderam, senão não seriam vítimas – passam a ser os vilões da história. “Ah, ela era puta! Ah, ela era atriz pornô! Ah, ela deu o golpe da barriga! Ah e mais Ah!” Como se alguém merecesse o que aconteceu.
    Eu não gosto nem de pensar nos detalhes dessa trama sórdida.
    E no fim, a outra vítima, aquela que ficou sem mãe e nunca teve um pai, fica passeando de braço em braço…

    • Eve,
      eu tenho tentado não seguir a história exatamente pelo tipo de comentários que tenho visto e ouvido por aí… Tem muita gente mais interessada na repercussão do caso do que no crime em si. Acho tudo isso o fim da dinastia.
      bjk

  3. Sim, a moça era dada a orgias, fez filmes pornôs e deu o golpe da barriga num otário que achou que era o maioral por transar sem camisinha com alguém que conheceu numa suruba.

    Tem gente que acha que isso justifica sua morte. Confesso que não entendo a lógica. Quem usa essas informações para justificar um crime bárbaro não tem um parafuso frouxo, tem vários.

    Sabe o que eu imagino? Essa criança perguntar ao pai, daqui a alguns anos: “papaiê, cadê minha mamãe?”

    Ou esse adolescente descobrir que é filho de uma mulher assassinada pelo próprio pai, pesquisar e encontrar tudo que tem sido publicado hoje em dia.

    Ou melhor, nem imagino.

    O ser humano com freqüência abala minha fé na “dignidade humana fundamental” que tão cara me é como defensor dos Direitos Humanos.

    • Também não entendo como podem achar justificativa para uma morte, assim ou de qualquer outro jeito. E me incomoda de verdade o circo armado pela mídia e pela polícia, esquecendo-se completamente que existem pessoas (que não têm nada a ver com isso) envolvidas, ou melhor, catapultadas, para dentro desse furacão. Me incomoda também o fato das pessoas saírem julgando e decidindo coisas (de ambos os lados) que ainda estão na fase de apuração dos fatos.

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