Que nem Vegas

Deixei a Piazza di San Marco para trás e me embrenhei pelas pequenas ruelas laterais, evitando ao máximo as plaquinhas que indicavam ‘Per San Marco’ e ‘Per Rialto’, caminho obrigatório da maioria dos turistas. Fui caminhando com passos cada vez mais lentos à medida que os sons foram ficando ao longe, até chegar numa pequena ponte sobre um canal estreito. Enquanto admirava as pequenas flores vermelhas nas sacadas de portas abertas, vi passar por mim uma senhorinha rechonchuda de chapéu de palha e óculos escuros e seu marido com câmera poderosíssima a tiracolo. Parou a poucos metros de mim na beirada da ponte e exclamou entusiasmada: “Look, Walter, just like Vegas!”. Comecei a rir sozinha. Ali estavam eles, de frente para incontáveis séculos de história e arte, rodeados por um silêncio e paz tão pouco comuns numa cidade como aquela, e o melhor que a senhorinha conseguia fazer era comparar aquela visão maravilhosa de Veneza com Las Vegas. Passei pelo casal e sorri com um leve aceno de cabeça. A senhora retribuiu satisfeita, talvez pensando que sim, ela estava certa e que eu concordava com ela: olhando bem, Veneza era mesmo igualzinha a Las Vegas.

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4 respostas em “Que nem Vegas

  1. Mônica,

    Um colega meu da escola de arquitetura, há alguns anos atrás, nos iluminou com sua despretenciosa demonstração de profunda sabedoria:
    – Não existe cidade igual a Paris… porque não existe cidade igual a outra!…

    Grande abraço,
    Paulo

    • A mais pura verdade, Paulo!
      Mas um amigo do meu pai comentou que Paris era igual a Ponte Nova, sua cidade natal: uma cidade assim, plana, com um rio no meio, e uma ponte… 🙂

  2. Certa vez estava eu no Ducale, com o pescoço pronto pro degole, observando as pinturas do teto completamente absorta. De repente um bando de japoneses em filas 10 x 6 saiu me arrastando. Reclamaram que eu estava atrapalhando a passagem. Realmente o trânsito de japoneses é caótico em Venezia.

    • Ah, você também já foi vítima deles?
      Eu esbarrei com um grupo assim dentro do Museu Britânico. Estava eu – sozinha, diga-se de passagem – examinando a Pedra Rosetta, quando vem o bando. O guia começa a explicar as coisas em japonês e eu lá, cuidando da minha vida. De repente percebo que os japas estão todos me olhando torto, tipo ‘o que é que esse ser está fazendo entre nós?’. Fiz de conta que não era comigo, isso sim. Paguei o mesmo tanto que eles pelo ingresso (ou seja, nadinha), tinha o mesmo direito que eles de estar ali. Não arredei pé, e nem tchuns pra cara feia deles! 🙂

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