Uma noite em 67

Eu nunca consegui cantar Ponteio direito. Lá em casa a gente tinha o terrível (mas divertido) hábito de brincar com as letras, então essa música, pra nós, começava com “Era um, era dois, era três, era quatro, era cinco, era seis…”. E por aí continuava, até chegar mais ou menos em uns 36, ou então até que um adulto fizesse valer sua autoridade inquestionável e mandasse a gente ir brincar na rua pra parar de encher o saco.

O documentário Uma Noite em 67 começa exatamente com Edu Lobo, então com 22(!) anos, defendendo sua composição no III festival da Record, acompanhado por Marília Medalha e o grupo Momento 4. Estão todos visivelmente tensos, Marília com os braços caídos ao longo do corpo e as mãos levemente fechadas, Edu tentando ouvir seu violão no meio dos assobios, gritos e aplausos, até que, no refrão ‘Quem me dera agora eu tivesse uma viola pra cantar’, cantado pelo teatro lotado, eles percebem que está tudo bem e, sorrindo, finalmente relaxam. Ponteio é a grande vencedora do festival.

O mais bacana desse filme é que os dois diretores, Renato Terra e Ricardo Calil, deixam para os próprios músicos, jurados e jornalistas a tarefa de explicar o que aconteceu naquele outubro de 1967, quando o cantor Sérgio Ricardo, mais parecendo um estagiário tentando controlar uma sala com 40 adolescentes no dia em que o professor faltou, perdeu as estribeiras e quebrou seu violão no palco. Foi também o festival onde um sorridente Caetano Veloso dobrou essa mesma plateia e transformou as vaias para o seu Alegria, Alegria em palmas entusiasmadas. O festival em que Gilberto Gil teve que ser buscado à força no hotel porque estava morrendo de medo de cantar seu Domingo no Parque em público, em que Chico, ainda Buarque de Hollanda, cantou Roda Viva e o Roberto ‘muitas emoções’ Carlos cantou um samba (curiosamente, era o grande sucesso de vendas da época, e hoje pouca gente se lembra de Maria, Carnaval e Cinzas).

Eram tempos politicamente conturbados, três anos e meio depois do golpe militar e um ano e pouquinho antes do AI-5, mas a verdadeira batalha que o documentário enfoca é a da ‘música brasileira x música americana’, o boicote de vários artistas (com direito a passeata e tudo) à guitarra elétrica e ao rock daqueles cabeludos. Nos bastidores, o jornalista pergunta o nome dos três jovens músicos que acompanhariam Gil – Arnaldo,  Rita e Sérgio, que hoje todo mundo conhece como Os Mutantes. O contexto político está presente o tempo todo, mas não desvia a atenção do espectador do tema central: uma noite histórica de um festival histórico que ajudou a definir os rumos da música popular brasileira dali para frente.

As entrevistas nos revelam um pouco mais de cada personagem daquela noite e, entre elas, aquela que foi, para mim, a fala mais reveladora: Solano Ribeiro, idealizador do festival, comenta no começo do fime: “Tudo que eu queria era fazer um bom programa musical ao vivo.” Acabou fazendo muito mais, e esse documentário mostra isso muito bem. Agora falta eu aprender a cantar Ponteio.

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12 respostas em “Uma noite em 67

  1. Tempos bem mais interessantes, apesar de bem mais tensos, também. O momento se torna histórico por causa da conjuntura. Hoje em dia, seria apenas mais um programa de televisão. Um dos problemas da democracia é justamente que, com ela, as pessoas (acham que) podem tudo, como, por exemplo, impunemente enfiar música sertaneja, pagode e axé pela nossa goela abaixo. É terrível concluir que regimes de exceção e censura tenham um “lado bom”: fazem aflorar um senso estético, uma auto-crítica e uma consciência cívica que o excesso de liberdade faz prescindir.

    • Bom, claro que a gente não quer mais a volta daqueles tempos, mas bem que, pelo menos no contexto artístico, a coisa podia dar uma melhoradinha, né? A dificuldade de ser falar as coisas era tão grande, que o pessoal tinha que ser criativo pra dar o recado. E como os censores não primavam pela mente aguçada…
      Realmente é muito bom que a democracia permita que existam tantas tribos. Só não é bom que essas tribos achem que todo mundo tem que gostar e participar delas. Se a turma do funk ouvisse funk só ali, no seu meiozinho mesmo, se as duplas sertanejas não viessem chorar pitangas nos meus ouvidos, se os pichadores pseudo-artistas pintassem só os muros das casas deles, não teria problema nenhum. O problema é que esse povo não sossega!!! 😀

  2. de vez em quando os astros se alinham e produzem uma multidão de talento no mesmo tempo e lugar que é impressionante.
    Essa turma do festival de 67 – e principalmente as músicas que apresentaram – é das melhores safras de todos os tempos…

    • É mesmo, Max, a gente vê a lista no final do filme e é incrível como todo mundo ali produziu coisas fantásticas. E imagina, Ponteio, Domingo no Parque, Roda Viva e Alegria, Alegria ainda são tão atuais (e tão cantadas) hoje quanto eram há quase 43 anos. E seus autores continuam por aí, alguns até fazendo muita coisa boa ainda. Realmente, uma safra e tanto!

  3. Delícia de filme! Tenho de arranjar maneira de ver, não deve aparecer por aqui, vou ter de arranjar o DVD.
    Adorei o sambinha do RC, se havia torcida organizada pra vaiar, era poucuchinha, pq a histeria das mocinhas era grande… O Gil tá irreconhecível. Com relação ao Caetano, nunca gostei de Alegria, Alegria, francamente, acho que é uma música que não diz nada e a novela que usou a usou com o tema acabou com o que tinha de bom.
    Mas pra mim a música que simboliza esta época não é de 67, mas de 68:

    Bjs,
    Ana

  4. Ah, deve sair o DVD logo, hoje em dia isso não está demorando muito. Vale muito a pena.
    Pois é, o sambinha do ‘rei’ é tão bonitinho, né? E ele cantou super bonitinho também. Uma coisa que a gente descobre na entrevista do Caetano é que ele também não acha Alegria, Alegria essa maraviha toda. Ele até comenta que fica um pouco triste, porque nunca conseguiu ‘se livrar’ dessa música, volta e meia alguém pede pra ele cantar. ‘Eles não fazem isso com o Chico’, disse, ‘ninguém fica pedindo A Banda o tempo todo’. 🙂
    Ele tá certíssimo. Existem coisas milhões de vezes mais bonitas na carreira dele.
    Mas sabe que nunca achei graça foi nessa do Vandré? Dentro do contexto histórico, tudo bem, mas musicalmente eu acho ela muito chatinha. ‘Disparada’ é, pra mim, a grande música que ele compôs. Disparado… 😛
    bjk

  5. Eu vivi intensamente essa época e particularmente os festivais, inesquecíveis e marcantes.
    E como aquelas músicas fizeram parte integrante da nossa história temos a tendência de achá-las o máximo, inigualáveis, insuperáveis, etc. Do ponto de vista musical não são nada disso, nem Alegria, nem Caminhando, nem Banda, nem nenhuma outra. Muitas coisas melhores vieram depois, dos mesmos e de outros compositores.
    Por outro lado, emocionalmente, elas são tudo isso e muito mais. Sobre Vandré, eu me lembro de ouvir Caminhando tocando bem alto em uma loja – antes da censura e recolhimento dos discos – durante uma passeata no centro do Rio e é essa lembrança que trago associada à música. Como não achá-la o máximo ?

    • É mesmo, Wagner. Eu sempre rio quando amigos e primos criticam a meninada hoje, dizendo “no meu tempo era muito melhor, não era ‘isso’ que o pessoal ouve/vê/lê/assiste hoje”. A época da gente é sempre melhor, porque é a nossa! Isso não vai mudar nunca…
      Eu era muito pequena na época dos festivais mas as músicas sempre tocavam lá em casa, porque meus pais adoravam música. Tinha muita bobagem, claro, mas o que era bom, costumava ser muito bom. Acho que hoje a massificação e a troca de modismos é maior, não dá tempo do cara ir construindo uma carreira; ou estoura, ou tchau. Paradoxalmente, também hoje é possível, muito mais do que antes, sair dessa massificação e conhecer arte e cultura do mundo inteiro. Se o pessoal efetivamente faz isso, é uma outra história…
      Eu gosto de dizer que o mundo é E, não OU. Tem hora e lugar pra Bach, Beatles e Bieber. Deve ter até hora e lugar pro funk, eu é que não descobri ainda!!! 😀

  6. Oi, Mô!
    Fiquei muito curiosa para ver esse filme, vou tentar vê-lo durante a próxima semana. Realmente essa geração foi magnifica! Não só em termos de música, mas de poesia, de conteúdo, de reflexão sobre a vida e sobre aquele momento!
    Também acredito que surgiram outros talentos da música popular brasileira pelo caminho! Mas que, infelizmente, já se foram, como Renato Russo ou Cazuza… Sem querer ser saudosista ou negativa de alguma maneira, me pergunto uma coisa: quem tomará o lugar deles, quando se forem?
    Boa pergunta????

    Vanessa.

    • Va,
      o documentário vale muito a pena, a gente sai de lá cantando o repertório todo. Eu nem tentei cantar a minha versão de Ponteio (ainda não aprendi o original), senão eu acho que o Jay ia me atirar contra a tela! 😛
      Alguns dos melhores letristas realmente são dessa época.
      Ai, posso confessar uma coisa??? Eu achava tanto o Cazuza como o Renato Russo tãããão chatinhos… Algumas músicas são legais, algumas letras idem, mas nunca consegui entender o auê todo que causavam na galera. Acredito que ambos tenham sua hora e lugar, mas nunca me entusiasmei com eles, como muita gente fez. Acho que vou ter que ouvir tudo de novo e prestar mais atenção…
      bjk

  7. Mô,

    Eu sou uma das fãs que faz o “auê” para eles! Se os heróis do Cazuza morreram de overdose, os meus morreram de Aids… Acho que eles retrataram bem os anos 80, uma época de tédio pós revolução dos anos 60 e 70; infelizmente o nosso retrato, jovens que disfrutaram de liberdade de expressão, política, sexual, etc, (conquistada lá atrás…) sem saber muito bem o que fazer com ela!
    O bom é que eles ainda tinham conteúdo, protestavam de alguma forma em suas músicas, tentando mostrar a realidade do país… Vide “Que país é esse?” e “Brasil”, do Cazuza, né?

    Besitos!!!
    Vanessa.

    • Engraçado, eu passei meio batido por essas bandas da década de 80, só achava divertida mesmo a Blitz. Tenho algumas coisas do Legião Urbana que eu gosto muito, umas do Barão Vermelho, mas não muito mais do que isso. Nem da turma ‘overseas’… Gostava do som do Duran Duran e do Tears for Fears, a turma dark nunca me pegou, no mais foram mesmo músicas isoladas. Ah, gostava do Ultraje a Rigor também, mas aí eu acho que era porque o Maurício, que era o baixista, tinha sido colega de colégio da gente quando ele morou aqui.
      Mas é isso mesmo, geração perdidinha perdidinha… 🙂
      Se bem que, de lá pra cá, não aconteceu muita coisa não. Aliás, aconteceu, né? Só que pra pior, hehehe…
      bjk

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