A Origem

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Christopher Nolan gosta de bagunçar a nossa cabeça. Um de seus primeiros filmes, Amnésia (2000), fala sobre um homem que sai em busca do assassino da esposa. O problema é que sua memória de curto prazo só funciona por 15 minutos; depois desse tempo, seu cérebro apaga as novas informações e ele é obrigado a começar do zero. O roteiro é construído propositadamente como um quebra-cabeças caótico, de tal modo que, em pouco tempo, o espectador também começa a sofrer mais ou menos da mesma amnésia que o personagem do Guy Pearce. Só lá no final, nas últimas cenas, é que a gente consegue dizer “hãããã!!! agora eu entendi… eu acho!”. Anos depois, em O Grande Truque (2006), Nolan brinca de novo, dessa vez com a noção de ilusão e realidade, com a história de dois mágicos (Hugh Jackman e Christopher Bale) que passam a vida disputando quem é o maior ilusionista do mundo. Lá pela metade do filme, a plateia já não tem tanta certeza do que está vendo: aquilo ali na tela é a vida real ou é uma ilusão criada pelos dois? Mais uma vez, temos que esperar o fim do filme para saber a resposta. 

Agora, em A Origem (Inception), o diretor adentra o universo dos sonhos. Nessa nova realidade, memórias, ideias, informações e sentimentos podem ser compartilhados, roubados ou mesmo implantados na mente de uma pessoa, com a ajuda de um ‘arquiteto’ e de ladrões altamente especializados. Para inserir uma ideia na mente do jovem herdeiro de um grande conglomerado (Cillian Murphy), Dom Cobb (Leonardo di Caprio) conta com a participação da arquiteta Ariadne (Ellen Page) e de outros especialistas em sonhos, além do empresário que está financiando tudo (Ken Watanabe). O problema é que a mente de Cobb e suas memórias e projeções estão começando a interferir de maneira perigosa, ameaçando colocar a perder uma empreitada que já traz consigo sérios riscos.

Como era de se esperar em um filme que mistura ação, suspense e ficção científica, os efeitos especiais são fantásticos e encaixam-se perfeitamente na atmosfera de sonho/pesadelo que ocupa boa parte da história. Mas, nunca é demais lembrar, CGI tem  seus limites se não estiver acompanhado de um roteiro bem construído. Em A Origem, os sonhos vão se entrelaçando e criando ‘um sonho dentro de outro dentro de outro’, a tal ponto que paramos de pensar em qual deles estamos e onde foi que tudo aquilo começou. Como Cobb lembra Ariadne (e a escolha do nome é bem apropriada, não foi justamente Ariadne quem ajudou Teseu a sair do labirinto do Minotauro? Seu papel na história de Cobb é crucial), todo sonho parece real quando se está nele. Não sabemos como ele começa, e geralmente termina com aquele puxão que nos ‘traz de volta’. Ficamos assim também no filme, pegando os sonhos meio pela metade e sendo acordados abruptamente para a história original, e o que interessa é sempre o que está acontecendo na tela naquele momento. O roteiro bem estruturado nos joga de um lado para outro (como acontece com os personagens), nos faz indagar se aquilo que estamos vendo é um sonho, ‘o’ sonho ou a realidade, mas nunca nos deixa perdidos. Como acontece nos outros filmes de Nolan, o final parece nos explicar tudo. Mas fica sempre aquela pontinha de dúvida; afinal, a tela escurece antes da resposta definitiva…

E se você é daqueles que acreditam que um mundo como esse é coisa de filme de ficção científica, aqui vai um bom link: o trabalho do pesquisador brasileiro (radicado nos EUA) Miguel Nicolelis começa a mostrar que talvez estejamos mais próximos da compreensão e manipulação da mente do que imaginamos.
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8 respostas em “A Origem

  1. Monica, muito legal seu comentário sobre o filme. Sabe que eu não lembrava que era a Ellen Page? Eu fiquei pensando “essa menina trabalha bem prá caramba, quem é ela?”. Claro, ela já foi fera em Juno. Legal tb o lance do nome da Ariadne, eu não sabia da história. Mas tirando isso, o resto do filme … bem, veja a minha crítica em http://alexandreh.posterous.com/

    Abs

    • Muito interessante a sua crítica, Alexandre! Pra gente ver o que um bom filme pode fazer: cada um enxerga uma coisa e o vê por um prisma, né? Eu, pessoalmente, gostei muito de A Origem. Das boas coisas que vi este ano, eu diria. Talvez porque eu não tivesse muitas expectativas, o trailer que eu vi me contava muito pouco.
      Agora, fiquei pasma mesmo com a constatação de que o tempo é mesmo inexorável (ou ‘inechorável’, ou seja, não adianta chorar!): o que virou o Tom Berenger, meu Deus? E aquele pirralho do seriado Third Rock from the Sun fazendo o braço direito do Leo di Caprio? E o igualmente pirralho de A Testemunha (o Lukas Haas, o arquiteto que cai fora do projeto)? Se não fosse pelas orelhas de abano, jamais o teria reconhecido!!! 😀
      E, claro, é sempre muito bom ver o Michael Caine e o Ken Watanabe. E o di Caprio eu também gosto muito. Mas ele precisa dar um jeito naquela carinha de bebê e na voz, senão vai ficar ‘novinho’ na tela eternamente… 😛

    • Acho que você vai gostar, sim. Se você já conhece outros filmes dele e gostou, esse vai completar a lista (nada mal para quem acabou de fazer 40 conseguir fazer tantos filmes bons em dez anos!).
      Ah, eu vi que você postou um link pro seu blog novo lá no twitter. Depois vou lá xeretar, hehehe… 🙂
      bjk

  2. Pingback: Tweets that mention A Origem « Crônicas Urbanas -- Topsy.com

  3. “A origem”
    Mesmo que levássemos em conta apenas a superfície imediata do entretenimento, o filme superaria a média industrial hollywoodiana. Nem tanto por mérito do jovem e talentoso Cristopher Nolan, mas graças ao arrojo técnico empregado para contar sua história mirabolante. Os efeitos visuais atingem um grau de ilusionismo assombroso. A edição é exemplar. Prêmios técnicos não faltarão ao filme.
    Há, no entanto, um pequeno detalhe.
    A música “Je ne regrette rien”, cantada por Edith Piaf, surge freqüentemente, servindo a necessidades dramáticas. Os protagonistas a utilizam como uma espécie de gatilho para retornar das viagens pelos sonhos. Depois que os inconscientes foram devidamente treinados, basta-lhes ouvi-la e todos despertam imediatamente, salvando-se de apuros eventuais.
    Mas trata-se também de uma referência exterior ao próprio filme: a canção desloca nosso raciocínio da personagem-chave “Mal” para sua intérprete, a francesa Marion Cotillard. Pois é impossível não lembrar a própria Cotillard no papel de Edith Piaf, cantando exatamente “Je ne regrette rien”.
    Enquanto “Mal” só existe no mundo onírico, a identificação da atriz com seus trabalhos anteriores faz sentido apenas no plano dos espectadores conscientes. A citação extrai os personagens de suas imersões pela fantasia e ao mesmo tempo nos retira de “A origem” (ou do “sonho” representado pelo filme) para devolver-nos à realidade exterior.
    Se qualquer outra canção preservasse o mesmo sentido conveniente à trama (“não lamento nada”), as lucubrações acima virariam delírios absurdos. Mas a escolha dessa música, entre inúmeras possíveis, é precisa e enriquecedora demais para soar casual. E assim descobrimos a essência do código metalingüístico em sua plena realização.

  4. O filme foi muito bom. Uma de suas poucas falhas, todavia, foi de caráter externo, ou seja, por que cargas d’água os tradutores botaram o nome “Origem” na história? Trocadilhos à parte, “dormiram no ponto” nesta, porque, pelos braços de Morfeu, não entendi o motivo de tamanha “viagem onírica” desses caras que querem bancar os diferentes e acabam por se perder nos intrincados labirintos da lingüística! por causa disso, “caem da cama”! Vamos acordar, gente!!
    No frigir dos ovos, o tema é um dos meus prediletos pois sonhar é comigo mesmo!
    Que o diga o que me aconteceu em 1971/2002, descrito em um de meus sites (olha só que doideira): http://marcorelho.br.tripod.com/formigaeseuscausos/id10.html
    Aproveitando a deixa, MÔNICA: Parabéns pelo dia!

    • Marcorelho,
      essa questão de traduzir título de filme é uma dor de cabeça. Na verdade, acho até que não ficou ruim usarem ‘Origem’ como tradução de Inception, já que a palavra está relacionada com começo (um dos sinônimos mais comuns que a gente encontra é ‘beginning’). O caso é que inception dá uma ideia mais ‘ativa’ do que ‘origem’, mas não consegui pensar em nenhuma outra palavra que pudesse traduzir com maior exatidão. Aliás, pode-se até discutir se é possível fazer tradução exata…
      Acho que isso não tirou o mérito do filme, né?
      Obrigada pelos parabéns!
      bjk

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