Mau gosto

Confesso. Sempre fui muito fã do politicamente incorreto. Essas ‘anedotas de salão’ (diria a minha avó), bonitinhas e imaculadamente clean, nunca fizeram a minha cabeça. E sempre achei graça da turma politicamente correta, porque em geral ela é bem seletiva, né? Quer dizer, os ateus não se importam realmente se a piada envolver padres ou muçulmanos, os heteros se dobram de rir das piadinhas sobre gays, tem gente que não está nem aí se o humor envolver ‘louras burras, mas por favor não inclua questões de raça’. A esquerda dá gargalhadas quando a piadinha é sobre a direita e vice-e-versa, e eu ainda nem consigo diferenciar direito (ou esquerdo) uma da outra. E por aí vai. Pois eu prefiro não ser tão seletiva e rio de tudo com moderação.

eu ESTOU sorrindo

Mas o politicamente incorreto pode ser um perigo, gente. Um pe-ri-go. É mais ou menos como um passeio na beira do precipício: um ventinho por trás, um passo em falso, um tropeço na grama e ó, babau. Esse tipo de humor muitas vezes fica na fronteira da ofensa e do mau gosto, não é qualquer um que dá conta de fazê-lo bem. Quando dá certo, pode ser sensacional. Mas tem muita gente que nem devia tentar.

Não sei se você recebeu, mas eu já recebi mais de uma vez um e-mail muito, mas muito feio mesmo.  Daqueles de fazer parar pra pensar se quem mandou estava pensando em alguma coisa ou se simplesmente deu de apertar a tecla ‘reenviar’, sem usar os neurônios. Nem sei se a tentativa ali foi de uma piada politicamente incorreta. Se foi, seguramente não funcionou. Sabe de qual estou falando? Aquela mensagem com a foto de uma faixa numa suposta passeata, pedindo ao goleiro Bruno que engravide a Dilma para salvar o Brasil. Quer dizer, né? Sem comentários.

Não, eu não sou eleitora da Dilma. Nem do Serra. Nem da Marina. Do jeito que o bonde anda, a coisa vai estar feia pro meu lado no 3 de outubro. Não tenho candidato presidencial, nem ‘governadorial, senatorial ou deputadal’. Mas, por mais que eu olhe a foto e leia o e-mail, e com todo o meu profundo apreço pelo politicamente incorreto, ainda não consegui achar uma nesguinha de graça na mensagem. Oi? Tentar ser divertido usando um crime bárbaro que ainda não foi solucionado? Nem vou acrescentar o ‘contra uma mulher’, mas pode colocar, se quiser. Quem achou que era muito engraçado, olha, tem um senso de humor bem esquisito. E sei lá, duvido muitíssimo que os que realmente sabem fazer o humor politcamente incorreto tenham rido.

Essa política pequena, com ‘p’ minúsculo, de candidatos trocando acusações e dossiês, me cansa que é um horror. Os ‘torcedores’ de um lado e de outro, os que em geral só conseguem enxergar os méritos de seus candidatos, mas convenientemente varrem os podres pra debaixo do tapete, nem se fala. Os humoristas estão formalmente proibidos, e isso vem de longa data, de fazerem piadas sobre uma política que, francamente, tem sido uma piada de mau gosto. Como diria o John Cleese, do grupo politicamente incorretíssimo Monty Python, ninguém deve estar acima de ser ridicularizado. Mas não tem aquela história de que ‘quem não tem competência, não se estabeleça’? Então. Pra mim, esse e-mail foi um desses casos. Alguém achou que isso era uma piada. Ruim, né, mas acontece. Dureza é constatar que não deixaram esse alguém rindo sozinho.

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14 respostas em “Mau gosto

  1. Acho que o pior não é nem a repercursão (tá certo isso? – lá se vai meu português), é a existência do fato.
    Acredito que isso tb seja fruto da banalização da violência e outros temas mais sérios. Voltamos àquela coisa de que “ela mereceu pq era puta”, ou “dilma não é uma ‘mulher’ feminina, por isso precisa de um homem”…

    Já que falou na Dilma (e tb nao voto nela, quer dizer, nem voto esse ano), li um email outro dia tb que me deixou boquiaberta. Uma mulher justificando o não voto na Dilma. Resumindo: ela não votava nela porque Dilma não era mulher suficiente, segundo seus preceitos, dizendo que ela não teve competência para gerir um lar, por isso foi casada duas vezes e nem era boa mãe, pq não se relaciona direito com a filha (fatos que não sei se são reais).
    Eu precisei ler duas vezes para entender porque uma mulher ainda pensa assim nos dias de hoje. E já que é assim, Dilma/Marina/Heloísa Helena/Qualquer mulher politica e profissionalmente bem sucedida não tem competência pra nada e, por conseguinte, não deveria estar na posição em que está, porque não é “mulher” à moda antiga, né?
    Doeu essa…

    Ai, me empolguei. 😉

    Bjs!

    • Eve,
      horror, né, eu também recebi esse email e pensei WTF? Cê já imaginou uma campanha eleitoral do tipo ‘vote em mim, eu faço um purê de batatas da hora…’ ou ‘conto com seu voto pra limpar essa merda, porque já cansei de limpar bunda de neném’…
      E acho uma graça as pessoas dizerem que dois casamentos fracassados é igual a incapacidade de administrar um país. Oi? De onde saiu essa aritmética?
      Enfim, nem vou entrar nessa seara, que dá taquicardia de raivinha. E eu sou moça phynna e super zen… 😛
      bjk

  2. Mônica! Fazer piadas sobre políticos em geral é antes de tudo uma perda de tempo, pois a concorrência é desleal. Eles são muito mais criativos do que nós. Veja só o paradoxo na síntese das propagandas: “Quero seu voto sim! A coisa está tão ruim que eu quero para mim!”
    Também não consegui definir qual é o que mente menos, em qualquer cargo… acho que vou pensar por uns quatro meses antes de me decidir.

    • O pior não é essas criaturas se candidatarem. Democracia é isso mesmo, é poder colocar lado a lado Netinho e Quércia e não saber a diferença – até porque não deve ter mesmo… Acho que o pior é saírem candidatos assim e, no final das contas, alguns se elegerem!

    • Pois é, cada um só olha o pedacinho que interessa. Claro, não defendo o racismo, como não defendo a homofobia, o sexismo, a intolerância religiosa, yadda yadda yadda. O que me incomoda nos politicamente corretos é a seleção: pode-se falar de uns, mas não de outros…

  3. Mais uma vez, belíssimo texto. Disse tudo na última linha. Em outros lugares isso não passaria de uma infeliz piada adolescente sem maior repercussão (afinal, piadista infeliz não é exclusividade tupiniquim). O problema é que no Brasil esse tipo de “piada” acaba encontrando eco em toda uma camada da população. Perdi a conta de quantas vezes recebi isso por email, twitter e facebook… Lastimável.

    • Pois é, Fernando. Pra algumas pessoas eu até escrevi questionando, porque achei que a pessoa devia estar, sei lá, distraída e não viu o que estava fazendo. Teve gente que me respondeu que não via problema algum naquela faixa, era só uma piadinha. Então parei por ali, né? Qualquer conversa cairia num buraco negro, perdi tempo não.
      Concordo com você, gente sem-noção existe em qualquer parte do mundo e piadas idiotas não são exclusividade dos cidadãos da brasilândia. Mas parece que aqui a coisa rende. Ou então é porque eu estou aqui, né, não dá pra saber muito bem como essas coisas acontecem alhures.
      Eu costumava achar torcedor de time de futebol um bicho muito chato, mas nessas eleições eu tou começando a ver que torcedor de político é muuuuito mais irritante…

  4. Assino em baixo de tudo que v. disse. Mas queria destacar um ponto que v. mencionou. As pessoas não pensam nada antes de teclar o botão forward. Eu já me indispus com várias pessoas amigas por responder, ao receber alguma idiotice: “você leu a besteira que me enviou?” ou “não faça meu e-mail de penico” ou “por favor me tire do seu catálogo de endereço”. Essa comunicação fácil, imediata e inconsequente às vezes é um saco, e quando vem de pessoas amigas, e, supostamente, inteligentes, é pior ainda.

    Nesse período de guerra eleitoral, onde as pessoas perdem completamente a noção do bom senso, é melhor ficar quieto, procuro passar batido pelos blogs, me contendo pra não meter o bedelho, pois além de inútil, faz mal à saúde.

    • Wagner,
      às vezes eu fico estupefata com as mensagens que eu recebo por e-mail. Tem as teorias de conspiração de praxe, as ‘novidades’ que já circulam na rede faz bem uns cinco anos, as fotomontagens e vídeos editados, os boatos absurdos, a lista é interminável. Coisa que era só dar um Google e pronto, resolveriam o problema. Em tempos de eleição, então, parece que as pessoas ficam ainda mais sem-noção.
      Eu já bato os olhos no título da mensagem e voilà, direto pro lixo. Também acho que é melhor do que brigar com o amigo. A época de eleição passa, né, eles costumam voltar ao normal depois…

  5. E você já sabia que o novo estádio do glorioso e quase centenário Corinthians, que vai ser construído para sediar a abertura do campeonato mundial de futebol aqui em São Paulo, vai se chamar Dilmão?

  6. Pois é, uma mulher morreu, vítima de um assassino, e ainda usam uma referência a ela para tentar desmoralizar outra. Acho sintomático que essa outra, pelo contrário, não esteja na posição de vítima, mas antes de possível futura presidente do país. Isso é significativo demais, mostra como este nosso país é machista ainda e o quão pouco a vida humana anda valendo. Humor é sempre uma pista, um sintoma das ideologias e mentalidades de uma época.

    Muito legal seu blog. Conheci pela indicação da Eve, do Rindo de Mim… Beijo

    • Oi Tania,
      pois é, a noção de humor de algumas pessoas pode ser bem esquisita mesmo, e olha que o meu costuma ser um bocado negro…
      Obrigada pela visita e pelo comentário! Bem vinda ao blog, eu também sou ‘piolho’ dos posts da Eve! Apareça sempre!
      bjk

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