Exercício de imaginação

A primeira vez que li este texto, no livro ‘Lições de Casa’  (1978), eu achei que levava o maior jeito nonsense de Lewis Carroll/Alice no País das Maravilhas-encontra-Julio Cortázar/Histórias de Cronópios e Famas. É absolutamente delicioso de se ler e foi escrito a partir de uma daquelas ilustrações que costumavam aparecer nas capas de álbuns de fotos antigamente.
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Exercício de Imaginação   (por Osman Lins)
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O pássaro, a menina, a bola e o gato. O gato, a bola, a menina e o pássaro. O pássaro a bola o gato a menina. A menila o pasto a  bona e o gásaro. A Pastomenila e o Bonagásaro.

Encontraram-se um dia, numa encruzilhada, a Pastomenila e o Bonagásaro. A Pastomenila: corpo de penas, asas de palheta, rabo curto de seda e longos dentes de vidro; o Bonagásaro talvez fosse feito de esponja (diminuía de volume, quando o apertavam), falava aos berros através do bico muito comprido e rubro, andava sem que ninguém lhe ouvisse as pisadas, e saltava para o alto, com facilidade, acionado por molas, quando contrariado.

A Pastomenila abriu as asas; o Bonagásaro pôs-se a andar em silêncio. Soprou entre eles um vento brando e morno.
– O verão está chegando – berrou o Bonagásaro.
– O inverno também – disse a Pastomenila, falando devagar, para que as palavras fizessem tilintar os cristais dos lustres de cristal.
– Ontem chegaram os peixes – foi o brado seguinte.

Fazendo ressoar melodiosamente os incisivos, a Pastomenila informou:
– E amanhã, às dez horas, no máximo, chegam as aves.
– O Pavão também?
– Não.

O Bonagásaro mastigou a palavra “não”, engoliu-a e começou a saltar extremamente irritado. “Por que o Pavão não vem? Por que não vem o Pavão? O Pavão não vem por quê?” Seu bico vermelho parecia uma espada, enquanto ele explorava as possibilidades sintáticas da frase. Quando silenciou, disse a Pastomenila:
– O Pavão chega hoje com os leões.
O Bonagásaro bradou – Por quê? Quem deu ordem?

A Pastomenila começou a girar, tilintando a cristalina dentadura. Abriu de súbito as asas de palheta e enlaçou chorando o Bonagásaro, que ficou menor.

Nisto o vento, antes suave, entrou a soprar forte. Receando serem arrebatados, o Bonagásaro e a Pastomenila uniram-se com desespero.
– Também está chegando o Outono – gritou ainda o pobre Bonagásaro.
– Também a Primavera – tilintou a outra.

Regiraram os dois, ouviu-se em meio àquele torvelinho, com um rumor de taça quebrada contra as pedras, a palavra ARPRIMEVA! Cessado o vento, eram outra vez, na página, o gato, a menina, a bola e o pássaro. Não havia sinal de Pastomenila nem de Bonagásaro. Cerrei os dentes e ergui a cabeça, à espera do Pavão, com sua imponente guarda de leões.

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4 respostas em “Exercício de imaginação

    • GeGe,
      eu acho esse texto genial exatamente por isso. Cada um tem a sua Pastomenila e seu Bonagásaro e os meus já são diferentes dos que pensei originalmente há quase 30 anos, quando li pela primeira vez. Foi a mesma coisa quando li Alice (mesmo tendo o desenho do Disney na cabeça) e as descrições do Cortázar pros Cronópios e Famas.
      abração!

  1. Mônica,
    Clara – e bela – demonstração de que, na verdade, as coisas podem não ser o que parecem ser, ou vice-versa.
    Hebdromedário, por exemplo, não é um camelo semanal…
    Grande abraço,
    Paulo

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