Berreiro

Vira e mexe eu vejo ele aparecendo por aqui. Quer dizer, só ontem foi que eu vi mesmo, pela primeira vez. Até então era como uma assombração enlouquecida, apenas uma voz berrando nos meus ouvidos, vindo lá de longe, daí chegando mais perto, mais perto, até passar na porta da minha casa bem devagarinho, com o som no talo. Aí ontem foi que eu vi a Belina velha (bem redundante isso, né, Belina nova não existe), cor marrom-cocô, com o capô descascado e uma porta meio corroída pela ferrugem, subindo a minha rua. E o berreiro, gente, sempre o berreiro, sem trégua. Eu tentando me concentrar aqui, fazendo a maior força pra prestar atenção no que eu estava fazendo, e o infeliz bradando palavras de ordem pros companheiros da construção civil. É pra parar tudo, gente, cruzar os braços, porque os patrões não querem negociar, então nós vamos parar e exigir os nossos direitos. Porque, do jeito que está, não pode ficar, temos que nos unir por um sindicato mais forte. E eu aqui, pelejando, foca no texto que você está lendo, Mônica, abstrai, respira. Mas incomoda muito esse moço na Belina velha, viu. Porque acho que ele não está assim, muito bem familiarizado com os princípios básicos da utilização de um microfone, noções primeiras de acústica, essas coisinhas. É que ninguém deve ter explicado esses detalhes pra ele, modos que os berros são amplificados por todo o bairro, e mal adianta a Belina ir pra rua de trás, porque a barulheira acaba batendo na minha janela do mesmo jeito. E, pelo visto, a iniciativa tem sido coroada de fracassos, porque já faz é tempo que o carro passa por aqui, o moço chamando todo mundo pra assembleia e tal, mas pelo jeito não vai ninguém. Eu também não iria se eu fosse os companheiros, a Belina velha passa na hora do almoço, bem quando eles estão tirando aquele cochilinho benfazejo pós-marmita. Já pensou, o pessoal querendo aproveitar o morninho do sol de inverno e olhar pra dentro um cadinho, aí aparece esse ensandecido convocando os trabalhadô. Eu não iria, só de raiva. Ontem eu quase desci pra portaria pra avisar pro moço que não tem nenhum prédio em construção aqui na minha rua, ele tá desperdiçando decibéis deste lado do bairro, ele não reparou não? Ou então, quem sabe seria possível ele passar mais tarde um pouquinho, a casa da gente já tem barulho e confusão que chegue na hora do almoço, esse escarcéu só serve pra deixar ‘o sistema da gente mais nervoso’, como dizia a faxineira de um amigo. Mas que nada, a Belina continua se arrastando rua acima, à procura de companheiros da construção sensibilizados com as causas do sindicato. E eu fico aqui, tentando desesperadamente me concentrar no artigo e torcendo pra esse alto-falante fazer puf! e a paz voltar a reinar entre nós.

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6 respostas em “Berreiro

  1. Mônica, bom dia!
    Carro de som é mesmo um saco.
    Morei numa cidade pequena há algum tempo, e sempre que alguém morria lá vinha o “serviço de som” anunciando que a Dona Fulana, mãe de Beltrano e Sicrano, casada com o Sr. De Tal, falaceu, e está sendo velada em tal local, hora do enterro, etc. Ficávamos ouvindo essa mensagem por horas a fio, enquanto ele circulava a 5 km/h pelas ruas próximas.
    Mas o legal mesmo é quando aquele carinha metido a “boy”, boné virado ao contrário, camiseta baby-look, calça caindo e cueca aparecendo (se achando o supra-sumo da moda), com seu voyage (dos antigos, claro) rebaixado, com rodas de liga, insulfilm 10% de transparência, passa com aquele som (que vale muito mais do que o carro) no último volume do amplificador, tocando músicas de gosto extremamente duvidoso (para ser gentil, claro).
    Nessas horas pensamos como seria bem-vindo um superaquecimento e um providencial curto-circuito…
    Grande abraço!

    • Ah, essas coisas de cidade do interior são muito legais, né? Aqui, em plena capitalzona, ainda aparecem umas coisas assim. Não anunciando velório, mas aqueles carros passando vendendo pamonha, abacaxi, anunciando ofertas do sacolão, essas coisas. Embora o som seja alto, não é berrado como o moço estava fazendo ontem. E eles passam e vão embora, o moço parece que estacionou em algum lugar, pra render bastante a mensagem. Um horror.
      A turma que passa com música no talo também é dose. Nada contra ouvir funk, música eletrônica ou seja lá o que for; não gosto do gênero, mas há quem goste e tals. Mas é que eu não imponho o meu gosto e obrigo os outros a ouvir o que eu ouço, não sei de onde tiraram que eles podem me impor o deles!
      abração

  2. Nessas horas acho bom não estar em casa. No trabalho, na hora do almoço, só ouço o cantar dos passarinhos e o farfalhar das árvores. De vez em quando a gente se distrai com os miquinhos que vêm comer os restos das frutas e revirar as lixeiras. É a compensação que temos em trabalhar em local distante, sem nenhuma loja ou restaurante por perto…

    • Até que, em condições normais de temperatura e pressão, as coisas são calminhas por aqui. Quando muito, as vans escolares dando uma buzinadinha pra apressar os retardatários. Mas eu acho que esse climão de eleições tá deixando o pessoal meio entusiasmado demais, ou então bateu aquela nostalgia dos velhos tempos de greves e passeatas… Eu tento entrar em alfa e me concentrar no trabalho, mas tem hora que é uma peleja. Passarinho tem aos montes de manhã bem cedo, depois nem eles aguentam. Trabalhar longe do fuzuê tem suas vantagens, né?

    • hahahaha, SOCOOOORRO! Fujam para as montanhas!!!! 😀
      Nossa, deve dar vontade de jogar pedra mesmo…
      Fiquei ouvindo a música e cheguei a uma conclus�ão super interessante: eu não sei português!!! não consegui entender uma só palavra, kkk… Não é incrível? Mas confuso do que aquilo, só as letras do Djavan…
      Olha, você tem minha total solidariedade. Essa turma do berreiro é de lascar!
      bjk

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