Generalizando. Ou não.

Ah, as generalizações! Não sei que humorista escreveu isso, mas a frase é boa: “Todas as generalizações são perigosas – inclusive esta.” Implicamos com as generalizações, dizemos que toda regra tem sua exceção (e, se isso é uma regra, então também tem uma exceção?), queremos ser diferentes, não somos farinha do mesmo saco. Basta ver a confusão que pode dar quando se fala de estereótipos do tipo ‘todo X é assim’. Não, não é. Eu sou diferente.

E, no entanto, generalizações são necessárias. Imagina, por exemplo, onde a Medicina estaria se os cientistas fincassem pé nas exceções? Medicamentos, diagnósticos, tratamentos, tudo isso existe porque o pessoal pode, em um dado momento e seguindo critérios rigorosos, generalizar. Experimentos, protocolos, testes, gráficos, estudos publicados, voilà, eis a generalização. Até alguém achar um furo na história e começar tudo de novo.

Mas o que eu acho mais divertido é o uso que nós, pobres mortais que não vivemos de gráficos e citações acadêmicas, fazemos disso tudo. Porque (generalizando, claro!) as pessoas costumam escolher generalizar ou não quando convém. Os estudos apontam para os males provocados pelo cigarro, mas fala isso pra um chaminé ambulante e ele vai te contar do avô que fumava cigarro sem filtro e morreu aos 98 anos. Porque caiu da escada. Os médicos podem listar os perigos que a obesidade e o sedentarismo trazem para o cerumano, mas você sempre vai encontrar um gordo pra te convencer de que ele não tem qualquer problema e goza de ótima saúde, e que a avó de 98 anos cozinhava na banha de porco e era super saudável. A lei diz que você não pode beber e dirigir, mas o bebum com a chave do carro na mão vai jurar e tentar te provar que está joínha pra voltar pra casa no volante. Nessas horas, porque convém, a gente quer mais é ser a exceção.

De repente, é só a gente querer e olha aí a generalização, frequentemente baseada em nada mais do que as nossas próprias impressões. Quem lê X é de direita/esquerda e vota em Fulano/Beltrano. Ateus/crentes são assim, homens (ou mulheres) são todos iguais, ah, você é desse jeito porque nasceu com Marte em Escorpião na primeira casa – seja lá o que isso signifique. Sem mais nem menos, passamos a ser do bando, ou queremos colocar todos aqueles diferentes de nós no mesmo balaio.

E o mais interessante é que, em geral, a gente nem percebe que está fazendo isso. O pêndulo pode ir de um lado pra outro, mas teimamos em acreditar que somos esse poço de coerência. O mundo balança de lá pra cá, mas nós não, nós seguimos firmes. Temos aquele monte de certezas, as incongruências estão nos outros. O cerumano é mesmo um bicho muito engraçado. Quer dizer, generalizando, né. Ou não.

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8 respostas em “Generalizando. Ou não.

  1. Só nos resta termos a humildade de admitir que somos falhos, que às vezes erramos e insistimos no erro, que não ouvimos o outro, que somos egoístas, que somos falsos… isso com certeza dá pra generalizar: todo mundo tem esses defeitos.

    Resumindo: o cerumano é uma coisa linda, mas faz cada coisa feia…

    • Sem dúvida, Teles. O cerumano ainda é das coisas boas deste mundo, pena que de vez em quando (ou até mesmo com alarmante frequência) faça cada m**** que eu vou te contar… Você falou certo, o negócio é admitir as falhas, mas tem é um bocado de gente que não encara essa de jeito nenhum, hehehe…

  2. Na medicina existe uma generalização que é assim: cada caso é um caso! Pronto. Fica tudo enquandrado no paradoxo de que estatisticamente tudo se explica pela média, mas as exceções são tão frequentes que criam uma generalização paralela. O difícil é manter a estampa de que é barbada!

    • E é por isso que a gente encontra aqueles PSs nas bulas de remédio: este medicamento foi testado extensivamente, mas podem ocorrer efeitos colaterais tais como: encefalite, bursite, pereba, dor nas junta, bicho-de-pé, falta de memória, queda de cabelo, diarreia, prisão de ventre, riso frouxo e soluço…

  3. Vamos lá generalizar:
    Brasileira na europa é puta.
    Estrangeiro na Alemanha é burro.
    Mulher estrangeira trabalha em subemprego.
    E os alemães são todos preconceituosos e nazistas.
    E eu aqui enfrentando isso.
    Né?

    bjs!

    • Pois é, Eve, não é mole ser jogado no balaio dos estereótipos… Eu sempre falo isso com meus alunos: pretenção no julgamento que você faz das outras pessoas, essas generalizações todas, porque os outros também fazem as deles… e aí a gente não gosta, né? 🙂
      Como você lida com isso no seu dia-a-dia?

  4. 1. Eu aprendi a não ligar para o que dizem nesse aspecto. Sou casada com homem mais velho, o estereótipo fica mais óbvio… Então, eu filtro e dou valor a quem me considera.
    2. Um consultor do Bundesbank aqui lançou um livro com a teoria de que estrangeiro, estatisticamente, é mais burro que os alemães. Deu um bafafá aqui esses dias, pq ele direcionou as estatísticas para turcos e árabes. Claro, se vc levar em conta qtos alemães estão na UNi em relação aos turcos… Bom, eu já fiz uni, já fiz pós e quem me perguntar, eu digo que esse cara é um louco! (a questão aqui é um pouco parecida com nordetinos em SP, por ex. mas uma generalização)
    3. Não aceito e não quero isso. Já estou pensando em burlar essa “regrinha” social. Para isso, estou dando duro no alemão (a língua, claro)
    4. Não são. São mais tolerantes e abertos do que eu pensava. Claro, não dá pra comparar Berlin com uma cidadezinha do sul da Alemanha…

    Assim. rs

    Bjs!

    • Também acho que filtrar e prestar atenção naqueles que te fazem bem é a melhor saída. Mas tá brincando que o consultor falou uma bobagem desse tamanho?! Até porque, né, as definições de ‘inteligência’ e ‘burrice’ estão bem longe de ser consenso…
      Manda ver no alemão sim, porque falar a língua é fundamental pra quem está se integrando numa nova cultura. Muita gente é criticada por teimar em não aprender o idioma, no esquema de ‘eles que se virem pra me entender.’
      Tem gente bacana e gente ‘mala’ no mundo todo. Se isso fosse exclusividade de um povo só, era só barrar a turma dos chatos na imigração, hehehe… As pessoas nas cidades grandes costumam ser mais tolerantes para algumas coisas; e, no entanto, as do interior ainda guardam alguns traços legais que já se perderam na confusão das metrópoles. Que nem em qualquer lugar do planeta, né… 🙂
      bjk

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