Dia mundial sem carro

Eu addôôuro essas campanhas ecológicas. Já boicotei o atum quando avisaram que as redes de pescaria estavam matando golfinhos, fiquei no escuro durante uma hora pra ajudar a economizar energia do planeta e, muito antes de virar moda, eu reciclava e reaproveitava tudo que era possível. Amigo morria de rir, dizia que tudo aquilo era uma bobagem sem tamanho, uma gotinha d’água no oceano Pacífico da ecologia, você separa aqui a latinha do plástico do vidro e lá na frente a prefeitura joga tudo no mesmo lixão, você apaga a luz e tropeça no pé da cadeira e fica só olhando pro teto, porque tudo nesse mundo precisa da eletricidade e você não tem nada pra fazer por uma hora, mas o desperdício macro continua do mesmo jeito. Eu nem tchuns pro meu amigo, viu, acho legal participar e pronto, não me custa nada, deixa eu, uai.
***

Mas aí vem essa campanha do Dia Mundial Sem Carro, todo 22 de setembro. Juro que eu adoraria participar de mais um esforço coletivo em prol das futuras gerações e tal e coisa, meus queridos, mas acho que eu vou ter que ficar devendo. O caso é que, pra coisa funcionar, a gente tem que deixar o carro em casa, mas tem que continuar saindo pra trabalhar, né, que eu desconfio que meus alunos não vão concordar em me pagar sem que eu esteja lá no escritório, bonitinha e pronta pra dar aula. E eu sou daquelas criaturas do planeta que precisam trabalhar, porque as contas continuam a vir, com ou sem salvamento do planeta, e a tal da MegaSena não sai pra mim nem a pau. Complicado, isso.

Então, deixando meu Porsche na garagem, eu teria que pegar ônibus. Olha, se todo mundo resolver fazer isso hoje, nós tamos lascados. O transporte público nesta cidade já tem sérios problemas em condições normais de temperatura e pressão, se a gente aumentar o número de usuários (e duvide-o-dó que haja um aumento no número de ônibus circulando) pra ajudar a despoluir o planeta, vamos ver gente chegando no trabalho amarrotada, fedida e num mau humor do cão. Pra passar o dia inteiro assim, né? Acho que não vai dar.

Pois então vamos partir pras alternativas: bicicleta. Rá. More aqui e tente andar de bicicleta! A menos que você esteja familiarizado com o trajeto dos Pirineus no Tour de France, um aviso: BH é uma montanha-russa urbana. Aqui, ou você está subindo morro, ou descendo, e algumas ruas são tão íngremes que, do alto, a gente não vê onde elas terminam. Quero só ver um desses eco-entusiasmados subindo uma ladeira no bairro Santo Antônio! Essa alternativa pode ser tudo de bom num lugar como Copenhague, mas aqui, sei não… Ok, vamos caminhando então? Olha, eu trabalho a pouco mais de 3km de casa, seria até legal fazer um exerciciozinho logo de manhã e tal, mas se é difícil subir e descer de bicicleta, a pé então é que não vai rolar mesmo. Com o calor que anda fazendo, eu chegaria no escritório suando que nem tampa de marmita.

E essa me parece uma campanha que pode até funcionar pros que vão de casa pro trabalho e de volta pra casa. Mas pergunte a qualquer dona de casa sobre a lista de coisas que ela faz entre esses dois trajetos (supermercado, sacolão, pegar criança na escola, lavanderia, banco, you name it) e ela vai morrer de rir na sua cara quando você sugerir fazer isso tudo a pé ou de ônibus. Ou deixar pra amanhã – porque amanhã já tem outra lista, tão grande quanto a de hoje.

Resumo da ópera: contem comigo para salvar o Flipper, pra transformar papéis usados só de um lado em blocos de anotações e usar as sacolas bacaninhas do Ronaldo Fraga pra ir ao supermercado, em vez daquelas feiosinhas de plástico. ‘Não vai estar dando para estar colaborando’ com esse dia mundial sem carro mas, ó, dou a maior força pra vocês participarem, se puderem. Vocês ajudam a despoluir o planeta e me ajudam a rodar pela cidade sem o montoeiro de carros de todo dia. Desde já agradeço.

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24 respostas em “Dia mundial sem carro

    • Soraia,
      jura que você não conhecia? Menina, nem sei de onde tiro essas coisas, mas ouço essa desde a adolescência… Eu sempre achei a expressão super exata!!! 😀
      bjk

  1. Ha ha ha ha ha … eu também ‘travei’ de tanto rir… o texto tá recheado de pérolas… Tô contigo e não abro. Aqui tb é dia sem carros e para eu vir para o trabalho teria de apanhar pelo menos um metro e 1 ônibus, e andar mais não sei quanto… e na volta? quem vai buscar criancinha na música e no ballet, pra correr pra hidro? Não tem jeito não…
    Bjs,
    Ana

    • Tá vendo, Ana, esse dia sem carro é para poucos. Se os poucos já colaborarem, tá bom demais, né? A gente circula com mais facilidade. Você ainda tem metrô, o daqui é uma piada de mau gosto…
      E pedir pra uma mãe fazer isso tudo a pé, né… sem chance! 🙂

    • Aqui é o mesmo problema, Rê. E acho que o pessoal concorda comigo, porque peguei engarrafamento no caminho pro trabalho num horário que, em geral, é bem tranquilo. Significa, né?

  2. Pois é, eu cito uma amiga nossa, “Me inclua fora disso.”
    Não é possível realmente. Quanto mais para quem mora no Bandeirantes (o bairro, não a avenida). Para ir na padaria é 10 minutos de carro! Mas é issaí, dou a maior força. Mêrmo.

  3. É simples: manda os organizadores andarem de transporte público.
    Pq não faz um dia de “todo mundo em casa” para evitar usar carro, ônibus, moto e bicicleta? hehehehe

    Meu Deus, que o povo “certo” não me leia para não perder prestígio no mercado. kkkkkk

    bjs!

  4. Se eu não abro o blog hoje teria passado batido da data… Pela minha janela o trânsito está normal e o estacionamento do ed. da frente está vazio, vendo a coisa por esse ângulo, acho mesmo que não sou a única desenformada, não.
    Bem, também apóio o dia ou a intenção. Força pra quem vai nessa!!!
    O que eu gostei mesmo foi das sacolinhas e a moda que o Fraga cria, não conhecia esse rapaz, mas me identifiquei com o seu estilo. Está anotado pra futuras pesquisas.
    Grande beijo.

    • São as boas intenções, né Rosa? Eu acho as iniciativas válidas e tal, tento participar na medida do possível e, pra quem pode, eu dou a maior força!
      Não sou muito por dentro da moda e dos modismos, mas sempre gostei das coisas do Ronaldo Fraga. Acho que é porque ele é um artista mais completo, e não apenas um estilista. Ele pensa na moda quase como uma brincadeira, seus desfiles são muito bacanas. A loja dele aqui em BH tem uma porção de coisas bacanas, não apenas roupas.
      Um dos desfiles mais bonitos que eu já vi foi dele no ano passado, usando senhorinhas e senhorinhos e crianças, nenhum deles modelos de passarela, e bonecos gigantes como cenário. Dá uma olhada:

      bjk

  5. Genial, o texto.
    Esses dias servem para aliviar consciências beeem pesadas.
    Aposto que os que aderem mais facilmente são os que não abrem mão de dirigir um SUV gigantesco e guloso nos outros 364 (e 1/4) dias do ano.
    Por isso tô fora!
    Já disse que o texto está genial?
    (Elogio a gente não tem que poupar, né?)
    Bj
    Pedro

    • Sem contar que são exatamente os ecologicamente conscientes, felizes possuidores de carrinhos econômicos, que participam dessas campanhas, né? A turma que pilota um Hummer pro trabalho tá pouco se lixando pra poluição.
      Obrigada pelo ‘genial’… 🙂
      bjk

    • hahaha, os stand-ups do George Carlin sempre foram crueis! Ele não perdoa nada: conservação da Natureza, religião, sexo, vale tudo! 🙂
      Acho que nem ele concordava com tudo que ele mesmo falava, mas diverte, anyway. Pena que hoje mr. Carlin já esteja extinto. Fico imaginando uma pessoa assim falando, por exemplo, sobre as eleições na brasilândia, kkk…

  6. Ei Mônica..
    Bom, como relação a esse “quesito”eu já faço minha boa ação pelo planeta todos os dias, porque TODOS os dias “deixo o carro em casa” e vou para o trabalho e qualquer outro lugar a pé, de ônibus, de carona….rssss.
    Mas hoje, resolvi fazer mais ainda….nem saí de casa. Ou seja, menos um nos ônibus e ainda dei lugar pra alguém que quisesse colaborar também….rssss.

    Beijins

  7. nada a ver com a postagem… mas precito te mostrar. Veja só o que um leitor meu escreveu:

    Primeiro quero te fazer feliz, dizendo que todo dia eu leio as “crônicas urbanas” da Mônica.
    Maravilhosa.
    Tão maravilhosa que eu a leio todo dia (e deixo você para segundo plano…).

    pode?

    eheheh

    • Nooootttthhaaaa!!! E ele ainda nem experimentou o bolo de cenoura com cobertura de brigadeiro que eu faço!!! 🙂
      Mas isso é muito legal, né? E dá um senso de responsa na gente: Mônica, sua doida, tem gente que te lê todo dia, toma tento!!! 😛

  8. Mônica, muito legal. Sabe que eu até gostaria de vir trabalhar de bicicleta, mas onde eu tomaria uma ducha antes de me engravatar? Talvez você apoie minha campanha: antes das ciclovias, mais duchas (1 participante).

    Esse negócio de dia mundial sem carro ficou igual a festa a fantasia, onde a fantasia é opcional: só meia-dúzia pagou o mico.

    De qualquer forma, apoio à campanha, desde que não me tirem o ar condicionado.

    Abs,

    Alexandre

    • Alexandre,
      o pessoal da banda Língua de Trapo (lembra deles?) pensou em você ao criar a música ‘Lava Rápido’, que começa assim:

      “Foi pensando nesse povo que trabalha o dia todo
      E chega à noite sai correndo pra estudar
      Não tem tempo de jantar
      Não dá pra tomar banho
      E nessas plagas geralmente faz calor
      Foi que eu resolvi montar – com qualidade –
      Um lava-rápido de gente lá no centro da cidade…”

      ( http://www.mpbnet.com.br/musicos/preme/letras/lava_rapido.htm )

      Campanha apoiadíssima! 🙂
      abraços

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