Líquido e certo

Algumas expressões são difíceis – pra não dizer impossíveis – de se traduzir sem perder o tchans do sentido original. Uma das minhas expressões favoritas em inglês, sem contrapartida por aqui, é ‘to take for granted’. O que você take for granted, você simplesmente aceita como verdade, ou que existe, sem fazer qualquer questionamento. É tão lógico, tão óbvio, tão certo que, seja lá o que for, faz parte da sua vida e pronto. Você simplesmente pressupõe que é assim desse jeito mesmo e estamos conversados.

Água, por exemplo. Já parou pra pensar na trabalheira que é pra ter água assim, saindo bonitinha na torneira da sua casa? Quer dizer, a gente aprendeu lá atrás, na aula de geografia, rios, lagos, mananciais, etc etc etc, e tem sempre alguém alertando para o desperdício de água, vai faltar água, vamos ficar na seca. Mas a água é uma coisa que a gente take for granted. Você simplesmente abre a torneira, liga o chuveiro, dá descarga e voilà! água! Limpa, clorada, inodora, incolor.

A gente só pensa na água no dia-a-dia quando vê o aviso no hall do prédio: vão lavar a caixa d’água, vão fechar o registro da rua, serão horas – horas! – sem uma gota em casa. Nada. Nem torneira, nem chuveiro, nem descarga. E ainda o aviso ameaçador: não abra a torneira nesse período, ou pode entrar ar e danificar a tubulação. E aí as horas podem virar dias. Dias? É, dias. Talvez com quebradeira nas paredes para encontrar o problema. Talvez até seja preciso implodir o prédio. Você já se imagina sem-teto, morando de favor no quartinho dos fundos da casa do irmão. A imaginação vai longe nessas horas.

Então você se prepara para encarar o Apocalipse. Dá uma bela faxina na casa, lava os banheiros, cozinha, vidraças. Coloca a roupa pra bater na máquina, enche baldes enormes, lava o cabelo. Pra diminuir a sensação de pânico e de estar exagerando na dose, você diz pra você mesma que é melhor usar o máximo de água possível antes, pra facilitar na hora de lavar; caixa vazia se lava mais rápido, certo?

E o medo de abrir torneiras e dar descarga? Você sabe que não pode mas, né, quanta coisa a gente não faz no piloto automático? Aí você espalha lembretes pela casa, passa fita adesiva nas torneiras, coloca o balde bem na sua frente, pra não ter dúvidas. Ameaça as crianças e a empregada, todos têm que ficar em alerta máximo. Serão horas de extrema tensão e todo cuidado é pouco.

Enquanto a caixa d’água é lavada e higienizada, alguns pequenos sobressaltos. Normalmente você toma banho à noite, que é pra ajudar a relaxar, mas justamente hoje é acometido pelo desejo incontrolável de tomar banho na hora do almoço, quando a água ainda não está no nível de uso. Você pensa em sair pra comer fora e economizar na louça, mas vem a dúvida: e se alguma coisa que você comer não fizer muito bem? Como é que vai ser, se não pode dar descarga? A decisão mais prática é sair de casa cedo, trabalhar o tempo todo no escritório, e as crianças e a empregada que se virem. É muita pressão.

Você volta pra casa no fim do dia. A louça está lavada, os banheiros estão limpos, as crianças já tomaram banho e, incrível!, é só abrir a torneira ou dar descarga que a água vem de novo. Limpa, clorada, inodora, incolor. Por um momento, você agradece aos deuses por não ter que ir ao açude com lata na cabeça buscar água, sabe-se lá em que condições. Foram meses de outono e inverno secos, sem uma gota de chuva, mas você continuou tomando banho, cozinhando, regando as plantas no jardim, limpando a casa e lavando o carro. O Apocalipse foi adiado. Em pouco tempo, claro, você já não vai mais se lembrar de como é viver sem água (mesmo que por apenas algumas horas) e entrará na rotina novamente. É que, embora não devesse, água é o tipo de coisa que a gente take for granted.

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15 respostas em “Líquido e certo

  1. Monica, trabalho na área de recursos hídricos, estou acostumado a ler muita coisa sobre o assunto, tanto artigos técnicos e acadêmicos como as muitas besteiras que são faladas ou publicadas por aí. E o seu texto é um dos melhores textos “leigos” que já vi. Parabéns.

    • Puxa, obrigada, Wagner!
      Bom, partindo da premissa de que esse não é um texto técnico ou acadêmico, então posso colocar ele na coluna de ‘besteiras’??? 😛
      E o melhor é que é caso verídico, hehehe…
      abraço!

  2. Então: não me preparei com baldes cheios d’água, nem lavei o cabelo no dia anterior. Das outras vezes a água não chegou a acabar, né? Pois, pela manhã… mal tinha água pra escovar os dentes! Quando voltei, não tinha água limpa, não. Primeiro andar, né? Deixei as torneiras abertas, dei várias descargas, até a água sair limpinha. Só aí pude tomar aquele banho… rsrsrs

    • Pois é, menina, acho que o pessoal levou a sério essa história de usar a água da caixa o máximo possível, pra não ter que jogar fora na hora de limpar.
      É mesmo, a primeira abrida de torneira pós-limpeza pode ser traumatizante. Só depois é que a gente acredita que tá tudo limpinho mesmo…

  3. outra coisa que a gente tem como certa é a eletricidade. Quando ‘acaba a luz’ a gente fica procurando o que fazer… tudo precisa de energia elétrica!

    Gostei muito do seu texto, é mesmo assim, esquecemos de agradecer pelos pequenos milagres diários, por tudo que temos e não damos o devido valor.

    Beijos!

    • Nossa, eletricidade é demais, né? Quando acaba a luz, qual é a primeira coisa que a gente faz, no piloto automático? Vai lá no interruptor tentar acender! 😀
      Aí lembra que não tem luz e pensa ‘tá bom, vou fazer outra coisa. Tomar banho – ah, não, não tem luz. Ouvir música. Ah, não, não tem luz. Ver TV – ah, não, não tem luz…’ É um horror. Temos mesmo muito o que agradecer, né não?
      bjk e obrigada!

  4. Pingback: Rato de Biblioteca » Blog Archive » Blog Action Day 2010 - Água

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