A tal festa da democracia

Você também deve ter sido convidado, né? Pra tal ‘festa da democracia’ no domingo passado. Que é mais ou menos como festa de fim de ano na firma, você tá ali, doido pra não ir, mas não tem muito como escapar. Vai obrigado mesmo, morrendo de preguiça, porque se não der as caras por lá pra fazer o social, periga ter que aguentar represália do chefe, olhar torto dos diretores, listinha negra dos colegas de setor, essas coisas.

É uma festa meio esquisitinha, essa. Primeiro que, se você faltar, vai ter que justificar. E não vale um telefonemazinho pro anfitrião no dia seguinte, um e-mail explicando que passou mal, a avó morreu (de novo!), o cachorro comeu o papelzinho com o endereço, você até saiu de casa mas o carro estragou no caminho, o celular estava sem bateria e você se perdeu, ah, você sabe, a lista de desculpas sociais é enorme. Você se programa com antecedência pra festa da democracia, porque timing é tudo. Sabe aquela história de não chegar muito cedo, senão pega a dona da casa de rolinho no cabelo, o anfitrião correndo pra buscar o gelo que faltou, os garçons arrumando as bandejas? Pois é. Chegue muito cedo no local da festa da democracia e, pronto, vão te convocar pra fazer alguma coisa. Chegar no final também não costuma ser boa ideia, o pessoal já passou da conta, tem gente com cabelo desgrenhado, com gravata em volta da cabeça, roupa amassada, os garçons estão de mau humor, só tem sobra e o salão está um lixo (aliás, quem teve a infeliz ideia de chamar os folhetos com a cara dos candidatos de ‘santinhos’? É pra gente interpretar a ironia ou é só pra sacanear mesmo?).

E, de saída, te avisam que na festa não pode ter bebida. Quer dizer, você não queria ir, vai porque é obrigado e nem pode encher a cara? Mas dizem as más línguas que a ressaca no dia seguinte pode durar de quatro a oito anos; é que o que eles servem no dia costuma ser de baixíssima qualidade. Nessa festa da democracia tem sempre o chato que quer te convencer de que vai ser legal pra caramba, todo mundo vai se divertir horrores, é só alegria. Como na festa da firma, tem aquele sujeito inconveniente que você nunca viu na vida, que resolve vir te dar um abraço, todo sorridente, te dizendo que você é muito bacana, que gosta muito de você. Mas você sabe que assim que a festa da democracia acabar, ele vai voltar pro canto dele e nem tchuns pra galera mais.

O lado bom é que, com um pouco de sorte, você pode entrar e sair da festa da democracia sem ficar muito em evidência. Faz o seu social rapidinho com quem interessa e depois vai confirmar que você esteve lá e pronto, cai fora em menos de cinco minutos. O chato é que depois você tem que aguentar a turma falando da festa da democracia durante dias, mais ou menos como acontece nas festas da empresa. Ficam comentando quem se deu bem e quem deu vexame, sendo que você, francamente, não está nem aí.

E no final da festa da democracia te avisam que você vai ter que colaborar pra caixinha da limpeza, do aluguel de tudo, mas que eles vão cobrando devagar, pra ficar mais fácil (pra eles, né). E você ainda volta pra casa com um presente que não te serve, mas vai ter que usar assim mesmo. Pelos próximos quatro anos, no mínimo.

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23 respostas em “A tal festa da democracia

    • Obrigada, Ana! E olha que nem fui a tantas festas de empresa assim… 🙂
      Mas acho que todo mundo conhece o horror que costuma ser, né? E da outra festa a gente sempre tem que participar mesmo.
      bjk

    • Pedro,
      é triste – mas ao mesmo tempo estranhamente reconfortante – perceber que esse sentimento não é exclusividade da gente do lado de cá do Atlântico. Gosto de pensar que, sendo uma democracia recente, após o período militar, uma hora a gente aprende e as coisas melhoram. Meu avô, quando era vivo e via os desmandos da classe política, costumava comentar: “Ah, que falta faz uma Idade Média!…” Pelo visto, nem mesmo ter tido uma resolve a questão, né? Vovô adorava política mas acho que se visse o que estão fazendo hoje em dia, teria um piripaque.
      Adorei seu texto, valeu o link!
      bjk

  1. Mônica,
    Senti-me um verdadeiro personagem na história.
    Mais um texto excelente. Gostaria de tê-lo escrito.
    Como você diz: invejinha branca.
    Beijos, e até de repente!

  2. Mônica, o texto é muito bom, mas eu discordo. Gosto muito de participar da festa da democracia, acompanho todos os preparativos, procuro conhecer bem os convidados, faço propaganda deles e no dia da festa eu adoro!! Chego a ficar insone na véspera só esperando a hora de votar, acho maravilhoso fazer parte desta festa, mesmo que o resultado dela não me agrade, me sinto importante por ter participado dela!

    Abs,

    Ana

    • Ana,
      legal isso, eu gostaria de ter esse entusiasmo!
      Como nas festas da firma, eu tento ‘dar o melhor de si’ e ir o mais animadinha possível – voto numa região muito bonita, aproveito pra rever amigos e parentes, essas coisas – mas sinceramente não me empolgo não. Acho que, infelizmente, já me desencantei com essa parte. Quem sabe, né, aparecendo um candidato (ou candidatos) que me faça pensar ‘taí, nesse aí eu voto sem piscar!’, eu mude de ideia, né? Por enquanto, acho que estamos só trocando seis por meia dúzia.
      Torço sinceramente pra que as coisas saiam o melhor possível no final, não sou da turma do contra que acha que está tudo horrível, mas não boto muita fé não…
      abraço!

  3. Pingback: Tweets that mention A tal festa da democracia « Crônicas Urbanas -- Topsy.com

  4. sensacional!!!
    eu não só participei como vc, mas trabalhei na festa tb! mas sabe que nem foi tão ruim como eu imaginava? acho que isso é coisa de servidora pública mesmo…
    beijo!

    • Nossa, você estava na turma do cerimonial??? 😀
      Meu irmão foi presidente de mesa em 5 eleições (só assim mesmo pra alguém ser presidente de alguma coisa lá em casa…) e até que se divertia. Pelo menos é o que ele diz. Mas pergunta se ele quer ir de novo!
      Eu acho que servidor público pelo menos aproveita depois, né, pode tirar os dias de folga. Dureza é para os profissionais liberais, que ou trabalham ou trabalham…
      bjk

  5. o que seria dessa festa se:
    1- não fosse obrigatório ir;
    2- antes dela não ficassem dando a lista com a quantidade de convidados de cada homenageado.

    ??????????????????????

    • Olha, só uma mudança na regra número um já seria suficiente pra mudar todo o resto! 🙂

      Pelo menos a próxima ‘festa’ promete ser mais divertida: caindo no 31 de outubro, já dá pra ir votar vestido pro Halloween, né? Afinal, os 2 anfitriões com certeza fazem o modelito!

  6. Demais esse texto… Estou tão cansada de td isso, e ninguém faz nada, nem eu!
    Não sei pq, já fui mais rebelde, mas agora eu olho tudo e me dá um desânimo…
    Enfim… Belo texto!
    Bjusss

    • Menina, nem me fala em estar cansada e nada rebelde, acho que eu tou assim por conta da idade, kkkkk… será? Mas eu ainda me considero tão novinha!!! 😛

      Acho que o pessoal é que tá chato mesmo. Ou eu é que estou. Ou os dois. Morro de preguiça também!

      Obrigada e uma bjk!

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