A mêsa

Meu tio era professor na Escola de Direito e um apaixonado pela sala de aula. Achava o máximo o contato com os alunos e o ambiente acadêmico, bastante diferentes da formalidade dos gabinetes e tribunais que frequentava como juiz e desembargador. Era considerado um professor exigente, que fazia a moçada estudar e colocar a cabeça pra funcionar. Cobrava presença em sala e exigia que os alunos redigissem em muito bom português – afinal, dizia, uma vírgula fora de lugar e adeus processo. Os alunos não tinham vida mansa com ele, mas aparentemente não se importavam e achavam ótimo; mesmo depois de se aposentar na compulsória dos 70 anos e não mais lecionando, ele continuou sendo homenageado pelas turmas nas formaturas e escolhido paraninfo (a gente, brincando, dizia que era porque os discursos dele eram curtos, algo quase inédito na área. Na verdade, ele preparava dois textos: um completo, que entregava a cada formando, e outro, mais geral e resumido, que lia na cerimônia). Era também dono de uma cultura fenomenal, estava sempre atento a tudo que acontecia pelo mundo, e possuía um senso de humor fino e sutil, daqueles que muita gente desavisada demorava pra entender.

E aí eu me lembrei hoje do caso da mesa. Meu tio entra na sala pra dar aula e vê uma aluna sentada na mesa dele, conversando com colegas. Ele passa pelo grupo e não diz nada e o pessoal continua do jeito que estava. Ele então pega o giz e escreve no quadro: ‘MÊSA’. E pergunta pra aluna:
– Fulana, você está vendo alguma coisa esquisita aqui no quadro?
– Uai, fessô, mesa não tem acento!
– Exatamente. Então queira por gentileza tirar o seu assento da minha mesa, pra eu poder começar a aula…

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14 respostas em “A mêsa

  1. ah ah ah
    Genial, Mônica…
    Tive na vida, felizmente, professores como seu tio, que me marcaram. E que lembro até hoje.
    Talvez seja boa ideia para um post, um dia desses…
    Bj

    • Pedro,
      também tive excelentes professores desde pequena. Sabiam ensinar, gostavam do que faziam e dominavam o assunto. Com certeza algumas histórias dariam ótimos posts. Uma hora dessas eu também faço uma coletânea de ‘causos’ e coloco aqui!
      bjk

  2. Muito bom. Muito bom mesmo.

    Ontem fui participar de um almoção em churrascaria chique que a faculdade, que eu dou aula, bancou. Eu dou aula como que joga bola ou pinta, mais por hobby que por necessidade de ofício. E enquanto eu estava lá, todos cumprimentavam “olá professor”, “seja bem-vindo, professor”, e etc e tal.

    No discurso daquela que vim a saber ser a big shot da parada, falou-se da influência que exercemos na rapaziada. E eu, me entendendo como professor. Isso assusta.

    • Esse meu tio tem várias histórias interessantes (aliás, a família toda é de professores, então caso é o que não falta por aqui…) – alguns são como você, profissionais que também lecionam. Eu virei professora por acaso, logo depois de me formar em jornalismo, simplesmente por questão de oportunidade. Fui ficando, tomei gosto, nunca mais saí da sala de aula. E ainda adoro até hoje, duas décadas depois…
      E além da influência que exercemos na moçada, tem também a que eles exercem na gente, né? Eu ensino inglês, mas aprendo horrores sobre medicina, direito, engenharia, administração, culinária, mecânica, computadores, viagens… Sei não, acho que eu saio num lucro danado!
      Então parabéns procê hoje!

    • Rê,
      vou fazer uma listinha, porque as histórias de professor e aluno na minha família são muuuuitas! Ele era mesmo uma peça raríssima!
      bjk e ótimo findi pra ti também

  3. Mônica,
    desde que fui vizinho do Dr. Walter, misto de criança e adolescente, pude curtir boa parte de tudo isto que você cita. Ao vivo e em cores. Ele aprontou muitas dessas com a gente.
    Ele, realmente, foi uma pessoa diferente de tudo que se vê hoje: simples, direto, culto, trabalhador e um humorista de fina veia, coisa que nem sempre sacávamos na hora, meninos bobos do interior que éramos.
    Viva os professores do seu blog!
    Sou profundo admirador dos mestres e mestras.
    Abração especial pra você, dona do blog, provavelmente uma versão de saias do tio e grande professora de inglês e de tudismo,

    Stélio

    • Stélio,
      não tem como discordar de você – o dr. Vé era mesmo tudo de bom. A gente sempre batia altos papos naquela biblioteca dele, ele contando casos, conversando sobre viagens, os apuros da Justiça… sempre com muito bom humor. Um mestre, sem dúvida, dentro e fora da sala de aula.
      Obrigada pelo carinho no dia de hoje – sou uma professora sortuda pra caramba, porque meus alunos são, sem exceção, pessoas interessantes e interessadas em aprender – eu acho que ainda vou ter que comer um bocado de feijão pra ficar como os fessôres da minha família, hehehe.
      bjk

  4. Hahaha, realmente, Moniquinha, o humor e as tiradas do amado genitor eram de fina estirpe.
    Parabéns a todos os professores deste “pedaço internáutico” e aos que foram e que voltarão a ser, como é o meu caso. Afinal, tenho que honrar esta família nossa que é plena de “ensinadores”, não?
    Congratulações Didáticas!
    MA

  5. Então parabéns Monica! Me explica só uma coisinha: como é que eu não me lembro de uma única comemoração nesse dia enquanto vivia no Brasil? Mais depressa me lembro do dia da secretária, com aquela propaganda ‘minha secretária, cha cha cha…’ Lembra?
    Bjs,
    Ana

    • Uai, foi trauma com professor??? Porque a gente sempre comemorou a data aqui… Às vezes embolava com o dia da criança, que é 12, mas pelo menos nas escolas nunca passou batido. Mas é aquela história, né, um dia pro professor e 364 pros alunos, que ultimamente mandam e desmandam no pedaço…
      bjk

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