A realeza é tudo, menos real (but who cares?)

Uma das coisas mais divertidas que existem nas terras de Sua Majestade é, sem dúvida, a família real. Quer dizer, não que ela seja realmente divertida, que eu imagino que aquelas intermináveis xícaras de chá às 5 da tarde com biscoitinhos de gengibre e sanduíches de pepino devem matar qualquer um de tédio em dois segundos. E a sucessão de inaugurações de alas de hospitais infantis, noites de balé e banquetes oficiais deve encher a paciência de dona Elizabeth, mas ela não cai do salto. Como dizia a rainha Victoria, ‘we’re not amused’, algo que soaria hoje como ‘não tou achando a menor graça’, mas o show deve continuar.

Nada disso. Divertido mesmo é observar a relação dos súditos com essa família real que costuma dar pano pra manga pros tablóides britânicos. Não se iludam: Archibald e Enid e todo o resto da plebe adoram a realeza. Eles podem criticar, espernear quando acham que as caçadas e o preço da faxina dos castelos estão pela hora da morte, mas lá no fundo todos adoram essa senhourinha de tailleur estampado, colar de pérolas e chapeuzinho floral. Tudo da vida dela e de sua família é da conta de todo mundo, as pessoas falam de Charles e sua turma como se falassem dos filhos de uma vizinha. Como em qualquer família, existem os membros mais populares e ‘mais chegados’, mas o misto de familiaridade e reverência com que falam de todos eles é, no mínimo, engraçado.

E justo quando os jornais estavam ficando sem assunto, já que o Príncipe de Gales parece ter sossegado o facho com Camilla e Harry parado de tomar todas nos pubs e dar vexame diante das lentes dos paparazzi, quando tudo era mais entediante do que tomar um cálice de xerez enquanto se disccutia a influência do aquecimento global no sempre imprevisível clima da ilha, eis que a monarca declara-se delighted com o noivado do neto William com a moça-de-boa-família-embora-plebeia Catherine. Preparativos para as bodas começam em breve, o que deve render páginas de revistas de fofocas, moda e decoração, ocasionar uma corrida desabalada pela confecção de souvenirs de gosto extremamente duvidoso e gerar aquela boataria de praxe sobre quem vai fazer o vestido da noiva (já tem até uma brasileira cotada), se as bodas serão em Westminster como reza a tradição, ou na catedral de St. Paul, quem entrará na seleta lista de convidados, e isso deve entreter todo mundo durante meses. Nada mais terá muita importância para o britânico médio, nem Olimpíadas, nem a crise, nem o resultado do campeonato inglês. Alguns vão disfarçar e dizer que é tudo uma grande perda de tempo, mas a verdade é que essa é a única família real que realmente interessa no planeta, mesmo com tantas outras ainda circulando por aí. Até que digam o ‘sim’, o futuro casal real vai ter que aguentar uma marcação bem mais cerrada do que a que vovó Elizabeth faz atualmente. Charles será discretamente – e mais uma vez – colocado pra escanteio, de onde parece sair apenas em raras e fugazes ocasiões.

Depois, claro, virão todas as especulações sobre herdeiros, a moda ditada pela princesa, as inevitáveis comparações com a finada sogra, fofocas de alcova aqui e ali reveladas por um serviçal mais saidinho e à cata de seus minutos de fama, e por aí vai. Até lá, alguns vão fingir certa indignação pelo custo astronômico da festança, muitos darão palpites entre amigos no pub, no mercado ou no salão de beleza, como se suas sugestões realmente tivessem alguma relevância mas, exatamente como aconteceu há 30 anos, os diletos súditos de Sua Majestade vão se preparar para o grande dia como se tivessem recebido um convite de Beth e Phil. Mas só vão mesmo comprar um daqueles pratinhos comemorativos absolutamente horrendos e assistir tudo ao vivo pela TV.

12 respostas em “A realeza é tudo, menos real (but who cares?)

  1. Beth já deve estar de dedinhos cruzados, torcendo para que Catherine faça mais o estilo “princesa-comportada-dentro-e-fora-do-palácio”, que não apareça tanto, que não provoque tantas controvérsias, que não roube os holofotes do William e que não venha aprontar tanto no futuro. Mas ó, Beth, não dá pra tapar o (tímido) sol com a peneira: pelo pouco que vi na TV, é possível que a históra se repita e o insosso do William venha a perder espaço na mídia para sua futura esposa, que além de bonita e simpática, não deve ser nada burra, né? Enfim, precisou aparecer mais uma futura princesa plebeia e lindinha para salvar a imagem dessa família real. Não bastasse a já acentuada calvície, o William tá cada vez mais parecido com o pai e cada vez menos com a mãe. Coitado…

    • Pois é, depois daquele ‘annus horribilis’ a que se referiu a velha senhôura, realmente um refresco viria bem a calhar. A Casa de Windsor não tem muito conserto não, por ali todos têm o charme e a malemolência de um porta-lápis… William já foi um fofo, infelizmente a genética anda falando mais alto e ele está ficando cada vez mais parecido com dad e grandpa.
      Gosto do fato da família da garota ter feito fortuna no negócio de acessórios para festas infantis, acho que por essa a nobreza britânica não esperava! Enfim, Elizabeth Regina já está na internet, já tem Facebook e Twitter, essa vai ser só uma modernidade a mais na vida dessa senhora que, realmente, já viu de tudo nesta vida! 🙂

  2. Além de ter ensinado para o mundo o que é um parlamento, a Inglaterra é a monarquia que deu certo. Como você falou, os ingleses adoram a família real. E acho que só o que é faturado por conta do turismo em torno disso deve dar pra pagar as despesas da realeza, que provavelmente devem ser muito menores que as das nossas 3 realezas (executivo, legislativo e judiciário).

    E parece que eles fizeram um acordo: os meninos se divertem, o Charles aparece de vez em quando, vovô fica no seu canto sem dar nenhum pitaco e vovó não pode morrer, pra manter a dignidade da família.

    • Sem dúvida, Wagner, mesmo com toda a pompa e circunstância e todo o ritual exagerado da monarquia, o Reino Unido ainda é um exemplo de democracia moderna e maturidade política. Ao contrário de muitos países por aí, as bases ainda se mantêm inabaladas desde 1215, quando resolveram baixar a bola do King John e colocá-lo em seu devido lugar. De lá pra cá, diga-se de passagem, ninguém ficou acrescentando sucessivos PSs no fim do texto a seu bel prazer.
      E é isso mesmo, existe toda uma indústria em torno da família real, e ela, o país e milhões de pessoas lucram com isso nas mais diversas esferas. Deve ser por isso que os corvos da Tower of London são tão bem cuidados: diz a lenda que, se eles voarem de lá, será o fim da monarquia. E, convenhamos, ninguém por ali tá a fim de perder a boquinha! 🙂
      Eu adoro e me divirto horrores! E sou fã de Beth II.

  3. Só quero ver que vestido é que essa princesa vai usar. E quando perguntaram pra ele porq a demora pra pedir a mão dela em casamento, ele disse q nao sabia que se tratava de uma competição…. ah tá…. era só o que me faltava mesmo, kkkkkkkkkkkkkk.

    • Dizem as más línguas que Kate deu um ‘ou casa, ou desocupa a moça’ pra cima do Will, e aí ele ficou na maior sinuca de bico! Nove anos nesse vai-não-vai? Tá bom que ele é príncipe e tals, mas paciência tem limite! Vovó também já devia estar preocupada, se o moço não casa logo pra depois virar rei direitinho, fica difícil deixar o Charles no banco de reservas sem chamar pra entrar em campo! 😀

  4. Olha os (poucos) ingleses que conheci abominam essa família real, acham tudo um desperdício de dinheiro e uma fantochada. Nem gostam de falar no assunto. Já com os espanhóis (muitos) que conheço, é outra coisa. Eu francamente agradeço não termos nada disso por aqui. Temos aqui é um suposto descendente que é de meter dó…
    Bjs,
    Ana

    • Hahaha, não tou falando? Aposto um picolé de limão como esses ingleses que você contou que abominam a realeza vão ficar com os zoín grudados na BBC no dia do casório. Se bobear, vão lá pro Pall Mall pra acenar e ver a carruagem passar! 🙂
      Já encontrei muitos ingleses que torcem o nariz pra essa coisa toda, mas a verdade é que rola muito dinheiro com a indústria da realeza. Li hoje num jornal que o lucro com as bodas pode chegar a mais de 1 bilhão. Pra quem anda na maior pindaíba, como muitos outros países europeus, a grana vem em boa hora, né?
      Os espanhóis gostam mesmo de Juan Carlos ‘mais’ Sofia. Por aqui a nossa ‘família real’ vive bem discreta e low profile. Na falta de um Buckingham disponível pra pronta-entrega, visitar o Museu Imperial em Petrópolis é sempre um ótimo programa!
      bjk

  5. Eu sei que me divirto com a realeza da Inglaterra!
    Desde o episódio do Charles se chamando para a amante de “Tampax”…
    Sobre o meu post:
    Acho que alguns blogueiros se acham e esquecem que de nada adianta escrever pra si mesmo!Se for esse o caso,bastaria fazer um blog onde apenas ele escrevesse e ninguém pudesse ler,não acha?
    Eu sei que adoro vir aqui e vejo que vc sempre comenta o que comento!
    Acho que essa sua atenção é que faz a gente sempre voltar!
    Um beijo!

  6. A família real é o retrato de tudo aquilo que é non-sense demais hoje em dia, né? Minha mãe costuma contar que assistiu a cerimônia de casamento da Lady Di e do Príncipe Charles enquanto me amamentava. Naquele tempo, imagino o tamanho do frisson e muita gente cafona achando que aquela pompa era o cúmulo da chiqueza! Hoje, temos twitter. Olha… o espetáculo vai ser de encher o olhos. De lágrimas, né? De tanto rir!

    Beijão, Mônica!

    • Thaís,
      eu me lembro do casamento de Charles e Diana, ela com aquele vestido rodadão enoooorme, parecendo um merengue, madames enchapeladas e enluvadas, cavalheiros de fraque e cartola… É um outro universo, a gente se diverte justamente porque não faz parte do mundo real. Desta vez eu imagino que tudo vá ser mais sóbrio, afinal a situação econômica do país não está muito pra esbanjar. Mesmo que Sua Majestade banque o regabofe, pega mal na atual conjuntura. O mais divertido naquele país é que pra essas coisas de realeza ele ainda é tradicionalíssimo, mas em todo o resto ele está tão – ou mais – no século 21 do que muitos outros países! 🙂
      Eu sei é que a gente vai rir um bocado.
      bjk

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