Once Brothers

Realmente, foi uma daquelas felizes coincidências. Porque, convenhamos, a probabilidade de estar na frente da TV numa sexta-feira à noite, no meu caso, é bem remota. Assistindo a ESPN, então, quase nula. E vendo algo relacionado com basquete, digamos que as chances se aproximariam do zero absoluto. Mas foi isso mesmo que aconteceu, pra minha sorte. Na verdade, eu parei no canal porque o sujeito que aparecia em close na tela da TV (e que eu não conhecia) tinha aquela cara simpática de gente boa, falava um inglês fluente mas claramente com sotaque e me lembrava o ator francês Jean Reno. O moço em questão era Vlade Divac, jogador de basquete sérvio de gigantescos 2,16m e não, aquele não era um documentário sobre o esporte. Quer dizer, não exatamente.

Muito mais interessante do que um filme sobre um dos maiores talentos do basquete iugoslavo/europeu/da NBA, o documentário Once Brothers coloca em destaque não apenas a carreira de Divac e a de seu melhor amigo, o croata Dražen Petrović, mas o que a guerra na ex-Iugoslávia fez com a vida desses jogadores e as de seus colegas. E como a morte prematura de Petrović, num acidente de carro na Alemanha em 93, jogou por terra a possibilidade de uma reconciliação entre os dois. Também mostra como um gesto aparentemente insignificante para um pode ser interpretado e usado de muitas maneiras por outros.

Divac e Petrović faziam parte do time da Iugoslávia que venceu o campeonato mundial de basquete em 1990. A seleção representava um país que estava a poucos meses do esfacelamento total, e os jogadores queriam reforçar em quadra a ideia de uma Iugoslávia unida. Por isso, quando um torcedor entrou em campo para comemorar a medalha de ouro agitando a bandeira da Croácia e ignorou o pedido de Divac de tirá-la dali, o jogador sérvio tirou-a das mãos do sujeito e jogou-a para um lado. Divac disse depois que teria feito o mesmo se a bandeira fosse a da Sérvia, porque não queria que um evento esportivo fosse usado com objetivos políticos. Não deu certo. O gesto foi mostrado à exaustão na mídia croata e Divac acabou saindo do episódio como ‘herói’ para os sérvios e ‘vilão’ para os croatas. E as coisas nunca mais foram as mesmas.

Dali pra frente, durante a guerra nos Bálcãs e mesmo depois dela, Divac perdeu contato com seus colegas croatas. Petrović, com quem falava ao telefone quase todos os dias, também passou a evitá-lo, embora ambos jogassem na NBA. Na Croácia, durante a filmagem do documentário, as pessoas o viam na rua e o reconheciam, mas quase ninguém vinha falar com ele. Divac esperava que o fim dos conflitos e o passar dos anos fizessem com que ele e Petrović voltassem a conversar e ser bons amigos, mas a morte do croata aos 28 anos acabou com tudo. A impressão que a gente tem assistindo ao documentário é a de que esse será um peso que o jogador sérvio vai carregar por toda a vida.

É um documentário imperdível até para quem, como eu, conhece muito pouco sobre basquete e nem se importa tanto com o esporte. As entrevistas com os familiares, o depoimento de outros jogadores da seleção iugoslava e um bate-papo descontraído na beira da piscina com o grande Earvin ‘Magic’ Johnson contrabalançam o lado ‘macro’ da guerra como pano de fundo e mostram que, no final das contas, os dramas são sobretudo pessoais, e o fim de um conflito político não significa necessariamente que tudo ficou bem.

Espero que a ESPN reprise o programa em horários alternativos. Mas se você não se importa com a ausência de legendas, o original pode ser encontrado no YouTube (onde mais?), dividido em seis partes (a primeira está aqui). Vai por mim, vale muito a pena.

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17 respostas em “Once Brothers

  1. É isso mesmo Monica, os dramas são sobretudo pessoais… é isso que conta.

    Esse vídeo do Bono e Pavarotti é pra mim das coisas mais extraordinárias sobre a Guerra da Jugoslávia: http://www.youtube.com/watch?v=mj3oQkgzX-I

    Uma guerra aqui, no coração da europa, que os vizinhos preferiram ignorar até não poder mais… Eu nunca consegui compreender a dimensão a que chegaram os campos de concentração nazistas e acho que da mesma forma nunca vou conseguir compreender a Guerra da Jugoslávia.
    Vou ver o documentário.
    Bjs,
    Ana

    • Ana, acho que você vai gostar do programa sim. Quando eu fui à França em 93/94, os artistas estavam organizando diversos concertos para ajudar a Bósnia, e a gente via refugiados nas ruas e metrôs de Paris o tempo todo. Eu me lembro de entrevistas do Bono e de um show muito bonito organizado pela soprano Barbara Hendricks. Foi por aí que muita gente ficou sabendo como as coisas andavam realmente em Sarajevo. E a guerra já ia longe…
      A gente tem muita sorte de só viver essas coisas pelas manchetes de jornais.
      bjk

  2. Prezada Mônica, hoje eu vivi exatamente o que você viveu. Passei, meio que sem querer, para a ESPN, no meu horário de almoço (trabalho sábados e domingos), e por algo que não sei explicar (possivelmente a simpatia do sujeito exibido na tela), eu resolvi ficar no canal. E ali estava passando esse documentário que realmente mexeu comigo e me fez pensar e repensar muitas coisas. Por isso, resolvi procurar mais, e ver se eu o encontro com legendas. Até agora não encontrei, mas já valeu a pena minha busca, pois encontrei seu blog, que é muito bom por sinal. Parabéns!

    Atenciosamente,
    André Marques – Curitiba-PR

    • Obrigada, André!
      O documentário realmente foi uma bela surpresa. Como eu disse, não me entusiasmo muito com basquete, mas a história dos dois jogadores é comovente. Tenho amigos sérvios e croatas e eles contam histórias incríveis dessa guerra. Faz a gente pensar em como a vida da gente pode se transformar assim, de uma hora pra outra, sem que tenhamos muito controle da situação…
      Abraço e apareça sempre

  3. Impressionante… Você acabou descrevendo tudo o que aconteceu comigo no dia em que assisti a esse documentário. Muito bom mesmo! Recomendo fortemente.

    • Parece que a ESPN tem reprisado o docuemntário, né? Fico feliz, acho que é um programa pra muita gente ver. Que bom que a minha impressão também foi a de outras pessoas, acho que é das melhores coisas que andei vendo na TV ultimamente. O que não significa muito, porque não sou muito ‘televisiva’…

  4. Olá a todos.
    Estou doente para assistir a este documentario. A ESPN irá reprisa-lo na noite de natal. Gostaria de deixar aqui minha sugestao de outro documentario muito interessante; claro que nao tao quanto ao 30 for 30 once brothers.
    Porem é algo que acontece diante de nossos olhos e apenas apreciamos. O nome é “Brasil Olímpico Uma candidatura passada a limpo”, só achei no you tube.

    • Oi Denis,
      que bom que a ESPN vai reprisar o documentário, mas pena que será exatamente na noite de Natal, né? Tomara que passem outras vezes depois.
      Obrigada pela dica, vou conferir sua sugestão!

  5. Realmente “Once Brothers” é sensacional. A ESPN está reprisando com uma certa frequência, já assisti 2 vezes e hoje à noite (24/12) irá passar novamente.
    A sensação que a gente fica ao acompanhar o drama do Vlade, é de “pena”, “dó”, pelo fardo que ele parece querer se livrar. Tudo o que ele mais queria era se reconciliar com o “ex-melhor amigo”, mas o acidente lhe tirou essa chance. E saber que tudo foi causado por um gesto quase insignificante para muitos. Parabéns pelo seu blog, Mônica. Muito bom mesmo!

    • Obrigada, João Roberto!
      Pois é, o que mais me atraiu nesse documentário foi exatamente o foco na história pessoal dos dois jogadores e como um evento externo pôde modificar tão profundamente suas vidas. Tenho amigos da ex-Iugoslávia e vários possuem histórias semelhantes de perdas, amigos, familiares, colegas. Pra nós, que sempre vivemos em um país pacífico e livre de conflitos desse tipo, coisas assim são quase inimagináveis.
      Bom saber que a ESPN tem reprisado o programa.
      Um abraço e Feliz Natal!

  6. Boa noite, Monica… Parece que a lista de pessoas que passaram exatamente por aquilo que vc passou e descreve por aqui só vem à aumentar à cada reprise desse fenomenal documentário na grande ESPN Brasil.

    Comigo não foi diferente. Já me preparava pra deitar quando, zapeando pelos canais aqui me deparo com essa impressionante história. Te digo que vejo muita coisa do gênero e raramente fico tão emocionado como foi o caso de hoje.

    Buscando por mais notícias sobre o documentário descobri seu blog e esse belo texto e acabei tomando a liberdade de usar parte dele na descrição de minha indicação do documentário no facebook. Espero que vc não se importe.

    Bom, é isso. Meus parabéns pelo “pioneirismo” e pelo extremo bom gosto, obrigado por compartilhar e desde já um ótimo natal e um feliz ano novo pra vc e pra toda sua familia.

    Um abraço!

    Vou procurar o documentário pra rever

    • Thiago,
      antes de mais nada, um ótimo Natal (ainda tá em tempo!) e um Ano Novo de muita paz e felicidade pra você, família e amigos!
      Pois é, acho que esse foi um daqueles documentários onde o pessoal acertou em cheio. Claro que a história ajuda, mas uma coisa muito bacana que eu achei (e acho cada vez mais, quando revejo cenas no YouTube) é que ele emociona sem resvalar nas emoções baratas, tipo reportagem do Fantástico. A história dos dois jogadores é emocionante, a situação da guerra também, e quem dirigiu o programa soube dosar informação e emoção na medida certa, sem criar aquela coisa piegas, mas sem deixar de nos emocionar. Tiro o chapéu pra quem consegue fazer isso bem!
      Fico feliz que tenha gostado do meu texto! Acho que você deve achar o documentário pra baixar, eu só vi mesmo o que mencionei, no YouTube, mas está sem legendas…
      Um abraço!

  7. sou filho de um servio, e meu pai falou que nunca tinha visto jogador com tanta habilidade para um chute de tres pontos como drazen petrovic. vi esse documentaro e fiquei emocionado, pois aqui em casa temos a camisa dele quando era dos nets. Pena que a gerra destrui nosso país. será que em barcelona tinamos vencido os eua, se ainda fosse a iugoslavia???? acho que sim!!!!, a mesma coisa seria no futebol, o futebol do leste europeu ja teria um titulo mundial.

    • Pelo que vi e li sobre o Petrovic, ele era mesmo um fenômeno. Concordo com você, é realmente uma pena o que uma guerra é capaz de fazer com a vida das pessoas, gente que, via de regra, deseja simplesmente continuar a viver em paz. Como eu disse, nunca fui de acompanhar o basquete, mas me lembro que o time da Iugoslávia sempre dava trabalho pro adversário… Um belo documentário, sem dúvida.

  8. O melhor documentário que assisti em toda minha vida. Quem acompanhou na época a NBA e essa guerra que nem os americanos tiveram corajem de entrar fica ainda mais emocionado.

    • Pois foi isso que eu achei tão interessante, Luciano: nunca fui de acompanhar a NBA ou qualquer coisa relacionada ao basquete, e o documentário me fisgou em dois segundos. Com certeza ele agradou muito aos fãs do esporte, e mesmo gente como eu, ‘de fora’, achou o programa muito sensacional mesmo. O pessoal da ESPN brilhou, podiam fazer mais documentários assim…

  9. Pingback: Drama e coincidências! « Chico Maia

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