Marco e Ari

Quando a moça foi vaiada e humilhada pelos colegas na faculdade por estar usando aquele microvestido cor-de-rosa, todo mundo saiu em defesa dela. Com efeito, isso lá por acaso era jeito de criticar alguém? E como assim, a diretoria da faculdade agora queria expulsar a garota da escola? Claro, eu também achei a reação dos alunos e da administração um despropósito, não é assim que a gente protesta ao discordar de alguma coisa. Mas não cheguei a ficar com pena da moça não, talvez porque não tenha visto ali qualquer sinal de ingenuidade da parte dela. Ou talvez porque tenha aprendido com a minha mãe que não, a gente não veste o que bem entende. Pelo menos da porta de casa pra fora. E não, ir à escola com uma roupa daquelas só porque o destino seguinte era uma festa na sexta-feira à noite não era uma boa desculpa. Eu não vou dar aula de biquini se logo depois vou pra aula de natação, não atendo ninguém à porta de camisola se já estava pronta pra ir dormir. Ter bom senso quando se vive em sociedade é importante sim, e alguém que estava a um passo de se tornar uma profissional deveria saber essas coisas. Se estava a fim de quebrar convenções (e isso também é importante, do contrário ainda estaríamos andando por aí de cartola e espartilho), então que aguentasse o rojão. Mais ou menos por aí. Mas essa história rendeu horrores, lembra? Tanto que a garota aproveitou o embalo para capitalizar em cima de seus 15 minutos de fama de sub-celebridade. Lipo, silicone, grife de roupas, programas de TV, biografia (?), o que desse dinheiro e visibilidade, não necessariamente nesta ordem.

Pois eu então gostaria muito de saber onde estão todos aqueles que saíram bradando e agitando os braços e publicando verdadeiros tratados feministas e sociais/comportamentais/blablabláis, que ainda não prestaram atenção nesta história aqui, e o que estão esperando pra fazer um escarcéu trocentas vezes maior do que aquele que fizeram pela garota de microvestido. Porque, gente, se esse episódio tiver ocorrido da maneira como foi contado na reportagem, os motivos para a indignação ampla, geral e irrestrita são muito maiores. Você pode pegar pelo ângulo que quiser – o abuso de poder e de ‘se achar’, o fato do rapaz ser um mero estagiário, por ser negro, por ser pobre, por ser jovem. Seja lá qual for o ponto de partida para análise, nada, nada mesmo, justifica uma atitude sem-noção como a desse juiz. E aplaudo a decisão do rapaz. Que pode dar em nada, como tantas outras coisas que acontecem e dão em nada neste mundo, mas a atitude dele não poderia ser diferente. Mas bem que ele podia contar com o mesmo entusiasmo que a galera demonstrou ao sair em defesa da aluna da Uniban.

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23 respostas em “Marco e Ari

  1. Mônica, sábado fui na festa de 18 anos do filho de um amigo. Um monte de adolescentes e jovens de classe média alta (carro aos 18, férias do exterior, aquele negócio). 90% das meninas estava bastante alcoolizada E com vestidos que fariam o da Geisy parecer uma burca. Sabe a que conclusão cheguei? A de que ser humano é muito estranho mesmo.

  2. Li a reportagem do link que você sugere. Sabe o que eu acho? Que por mais que eu diga que aqui na Espanha o racismo contra os latinos, africanos e árabes seja gritante, o Brasil vence disparado. Me deu pena saber que esse ranço, essa pobreza de espírito ainda exista no nosso país, um lugar repleto, digo mais alto, RE-PLE-TO de cores e raças. E acontece justo com o lado mais fraco. Me dá pena, sabe?

    • Karine, eu não sei como andam as coisas pela Europa, sobretudo depois que a crise bateu pra valer. A gente ouve histórias de arrepiar em todo canto mas, de qualquer maneira, é aqui no Brasil que a gente vive, né, e a gente sabe que esse ‘você sabe com quem está falando?’ ainda rola adoidado. E, é verdade, a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Se atrás desse juiz estivesse um outro magistrado, duvide-o-dó que ele fosse botar essa banca toda. Por isso acho que o rapaz fez muito bem em registrar um B.O.

  3. Mônica, acho que o caso da Geisy é fichinha perto do caso do Marco Aurélio, sabe por que?! Porque ela estava querendo aparecer mesmo, tanto que apareceu mais ainda. Como dizia sua mãe e a minha também, tem hora pra tudo: você não vai para o clube com roupa de gala e nem vai para a sala de aula, como você mesma disse, de biquini. Quanto ao Marco Paulo dos Santos, homem honesto e trabalhador, cumprindo suas obrigações, foi vítima de brutal discriminação. Aliás toda discriminação é brutal! No meu entender, esse juiz devia estar fazendo alguma transação muito comprometedora para não poder ter ninguém atrás: medo de ele dar conta de ler na disctância em que ele se encontrava, na distância pedida?
    Deus é Pai! Alguma coisa há de acontecer com esse infeliz desse pseudo juíz de direito!
    Eu não vi essa história na mídia!

    • Chris, vi a história no estadão, mas não sei se outros jornais noticiaram. Eu ando meio fora de órbita ultimamente… Mas, de qualquer maneira, ficou por isso. No caso da garota da Uniban, fizeram um estardalhaço incrível, lembra? Jornais, internet, TV, saiu até na imprensa internacional. Pois eu acho que esse caso, se tiver acontecido desse jeito que foi contado mesmo, deveria receber muuuuito mais atenção da mídia e da sociedade, sem dúvida!

  4. Concordo contigo hoje em tudo kkkk
    Sobre a moça do vestido eu levei um susto com a posição super star da moça, triste por tanta gente ter dado a cara a tapa por ela, acredito que ficaram decepcionadas, e irada por ainda ter gente que defendeu as atirudes dela pós -vaia, falta senso ou sou eu uma reaça machista de saias?Chequei mesmo a me preocupar na época.

    Quanto ao Marcos, fiquei revoltada por isso não ter acontecido aqui, esse rapaz iria sair da pobreza com a quantidade de cargos que pesariam sobre o juiz, pq pra isso terra de gringo serve né?E como serve. E seguramente teria toda a notoriedade necessária. Ele está de parabéns ou seria a mãe dele por ter criado um filho com dignidade, enfim todos estão de parabéns.

    Essas são vitórias reais que deveriam ser mais valorizadas, é uma mudança de atitude e de perspectiva que indica que ainda o lado podre e nada tropical da nossa terra não é maioria.
    Bj

    • Pois é, Rosa, não sabemos ainda o desfecho do caso do rapaz, mas realmente não dava pra ficar sem qualquer resposta, né… Se isso já seria inadmissível em qualquer esfera, vindo de um magistrado então…
      A história realmente merece muito mais alarde do que a confusão que fizeram em nome da garota. Não acho que é machismo não. De jeito nenhum eu concordo com a atitude dos alunos e da faculdade, não é assim que se protesta e discorda da atitude de uma outra pessoa, mas daí a acharem que a moça foi vítima, sei não, achei que ficou um pouco além da conta.
      bjk

  5. Ah… mas ele foi se meter com Deus. Juiz no Brasil e’ Deus. Pode tudo.
    Com Deus, e do Velho Testamento, nao se brinca. Pobre mortal…

    Sou muito cinica?

  6. Que é um caso revoltante, isso é. Mas acho errado minimizar o episódio machista que ocorreu na Uniban. O fato dela ter feito seus 15 minutos de fama valida a atitude dos estudantes que a hostilizaram? Por favor, né? Vamos refletir… O que ela fez ou deixou de fazer depois desse episódio não muda nada. O que fizeram com ela foi escroto e ponto. Não se deve relativizar isso. Eu não me arrenpendi de nada, e defendi sim. Ora, essa. Se ela posar nua, fizer filme pornô, fazer programa. E eu com isso? E você com isso? Desde quando isso pode ser motivo? Não tô nem aí. Pois atriz de filme pornô e prostituta também merecem respeito e devem ser tratadas como cidadãs. Isso é indiscutível. Seguir essa linha é quase como corroborar com o preconceito que faz playboys acharem normal bater numa mulher na rua por acharem que ela é prostituta. Sério, esse pensamento é bem nocivo, dividir as mulheres no grupos das que devem ser respeitadas e das que não devem.

    • Andréia,
      não sei se eu me expressei mal ou se você leu interpretando diferente a minha opinião. Em nenhum momento eu disse que a atitude dos estudantes era justificável. Muito menos a da faculdade. Foi um despropósito, foi ridícula e impensável numa sociedade que quer se dizer democrática. Não é dessa maneira que as pessoas podem e devem expressar opiniões divergentes e sim, a moça tem todo o direito de exigir respeito. O processo que ela ganhou sobre a faculdade mostrou isso claramente, e acho que sempre que um caso desses acontecer, o caminho é esse mesmo, ela estava certíssima.
      Disse isso não apenas neste post, mas em outros anteriormente. O que eu critico é o auê todo feito quando a história veio a público, o excesso de atenção na figura da garota. O auê em cima da atitude ridícula dos alunos e da administração é inclusive louvável, a sociedade pode e deve se manifestar em defesa dos direitos de qualquer cidadão. Mas muita gente colocou Geisy Arruda como coitadinha, coisa que nunca achei correto.
      Se a moça quer fazer plástica, publicar, aparecer na TV, seja o que for, é direito dela, não me afeta em absoluto.
      Minha ideia ao escrever este post foi justamente para lembrar às pessoas que saíram em defesa da garota que, ó, tem aí uma outra situação escancaradamente errada, e eu não vi até agora (o episódio, aparentemente, é de outubro) o mesmo nível de engajamento por parte da mídia, da internet, nada.
      abraço

  7. Às vezes a gente fala e não pensa no significado das coisas… Eu pensava mais ou menos como você sobre o caso da menina do vestido curto, mas aí me questionaram algumas coisas…
    A menina foi ameaçada de estupro e espancamento na faculdade. Devia ter aguentado quieta, porque quis inovar então problema dela?
    Se ela gosta de aparecer então mereceu tudo, porque mulher pra ser respeitável tem que ficar quietinha e de perna cruzada… Ela devia ter entrado em depressão e passado a usar só preto após o acontecido, ao invés de aproveitar o (único) lado bom da história?
    Só pra fazer um contraponto…

    Sobre a história do Marco: a diferença da publicidade sobre um e outro caso (o dele e da menina do vestido) é que no caso da menina, quem fez besteira foi órgão particular, então a concorrência não titubeia em fazer bastante barulho pra manchar a imagem… Mas quando o problema é dentro de casa, a história sempre é outra. Dinheiro de monte tem nos dois casos.
    Só mesmo através de blogs pra ficar sabendo dessas coisas que “não interessam”… Não tenho um, mas vou divulgar a notícia no facebook. 🙂

    • Não, Mari, é claro que ela não devia ter aguentado calada. Fez muito bem de ir a público, com o auxílio da mídia, dos blogueiros e de quem mais achou, como eu, que a atitude da faculdade e dos alunos estava erradíssima. Eu não disse em momento algum que o que eles fizeram foi justificável. Disse que foi um despropósito, foi ridículo, e foi mesmo. Ela fez bem em ir à imprensa, em processar a faculdade, tudo o mais. Não deveria ficar quieta não. Consigo vê-la como vítima, mas não como coitadinha, como muitos a pintaram.
      Mas concordo com você – é muitíssimo mais difícil conseguir publicidade quando outras esferas estão envolvidas. Mais um motivo para as pessoas na internet, que saíram tão prontamente em favor da Geisy, fazerem o mesmo no caso desse rapaz.
      Divulgar é o mínimo que a gente deve fazer, né?
      Mas não acho que Geisy está errada em aproveitar a chance não. Acho até mesmo que era um pouco isso que ela queria. Tá no direito dela, uai.
      Só não entendo porque o caso dela mereceu repercussão e o do Marco Paulo, até agora, não. Meu recado no post não é pra ela, é pra quem ajudou a divulgar o caso dela, mas nem está sabendo do caso dele… 🙂
      abraço

  8. De certa forma meu comentário foi mais criticando alguns comentários aqui e não o post especificamente. Tem gente dizendo (preguiça de ir ver nome) dizendo que o episódio não foi machista. Oi? Como assim? Claro que foi. E também dizendo que “quem defendeu ela deve ter se arrependido”. Porque? Porque ela aproveitou a oportunidade pra ter seus 15 minutos de fama? As atitudes que ela tomou ou deixou de tomar mudam alguma coisa sobre a atitude escrota das pessoas? Não, né, não deveria. Isso é meio absurdo, não?

    Eu não tenho blog, nem twitter famoso, mas eu twittei a notícia assim que vi. Achei a coisa mais injusta do mundo, um abuso de autoridade absurdo. Espero que a justiça seja feita. O cara não fez NADA. É revoltante.

    E sim, eu entendi o intuito do post. Mas é bom tomar cuidado pra não relativizar as coisas, criticar um preconceito praticando outro. A gente que é contra o preconceito, deve ser contra todos. De classe, de cor, de sexo, de sexualidade, de tudo. 😉

    • E eu acho que quanto mais gente espalhar essa história, melhor, né? Como bem lembrou a Mari ali em cima, publicidade contra uma faculdade particular é fácil fazer, mas sair comprando briga com peixe grande é coisa que a mídia tradicional não fica muito entusiasmada em fazer não! 🙂
      abraço

    • Gente poderíamos ter aberto um debate legal…
      Mas partindo pelo desprezo da opinião alheia acho que é desperdício de espaço, Andreia.
      Bem, pelo que vc disse acho meio difícil que queira ouvir mais alguma coisa de mim, acho também que vc nem liga pra minha opinião, eu senti dessa maneira pela forma que vc colocou. Nossa! eu estava só a duas pessoas encima do seu 1o comentário…

      Mas o que percebi é que vc leu coisas que eu não escrevi e justificou seus comentários sobre um interpretação falsa. sobre o seu 1o comentário eu posso dizer é que o que ela fez depois me interessou pq derrubou o argumento usado na época de que não houve provocação da parte dela ou seja ela se aproveitou do episódio e isso decepciona.
      Não é o fato isolado das fotos, mas conduta. Critérios de conduta existem e podem prejudicar ou vangloriar uma pessoa de acordo a sua manipulação por isso é nocivo, mas não é colaborar ou defende os agressores dizer que a vítima estava ciente que a conduta era inadeguada.
      O respeitável ou não foi por sua conta e apesar de concordar com vc sobre todo o pensamento que gera a violência contra a mulher, são eles dois pontos diferentes e não teve nada a ver com o que comentei, a sua opinião diferi da minha, mas eu não sou por isso a favor de violência desculpável ou tolerante contra criatura alguma.

      Sobre o 2o comentário, eu não disse que o episódio não foi machista, EU me senti machista foi o que eu disse. E o contexto é que na época eu também defendi a garota, mas não por achar apropriada a atitude dela e sim pela canalhice dos alunos, eu achei que o direito dela se vestir como queria fugia a questão feminista era sim universal e mais cultural que revolucionário e isso ia em contra quem estava defendendo a garota na época e onde eu estava.
      Eu me senti mal. É horrível ver quem luta por direitos ter igual ou maior capacidade de etiquetar quem não está de acordo com a sua opinião mesmo que não esteja contra ela ou a favor do agressor, apenas tem ponto de vista diferente.

      Acho que ser contra preconceito é utópico e pobre. TODOS somos preconceituosos e seremos, o que devemos lutar para garantir melhoria social e tolerância é ser a favor de igualdade de direitos. Assim a gente pode superar os lugares comuns e ter responsabilidade sobre as nossas atitudes .
      Abraço, Rosa.

  9. Eu tb queria saber onde está essa gente toda que vc descreveu?
    Acho que o ato injusto que ele sofreu foi muito pior que o dela,uma vez que ELA procurou pelo acontecido e ele foi um mero expectador do abuso de poder que certas pessoas se acham no direito de exercer!
    tô bege!
    Beijo
    Afrodite

  10. Criticar opiniões está bem longe de desprezar. Eu não fui olhar nomes porque tava com pressa e tinha que comentar rápido. Rosa, você tá pegando a conduta dela e a usando pra dizer que “ela provocou” o ataque. Como é que ela ia adivinhar que um vestido curto causaria tanta comoção? E como é que a gente pode julgar sumarimente a criatura desse jeito, dizendo que ela provocou tudo pra aparecer?

    Peço desculpas pela confusão sobre o termo “machista”. Confesso que botei na cabeça que tinha lido alguém dizer que o episódio não tinha sido machista.

    Quando eu falo em ser contra o preconceito é justamente isso. Preconceito sempre vai haver algum, não dá pra acabar 100%. Mas ser contra o preconceito é justamente isso, lutar para garantir a melhoria social e a tolerância. Dá no mesmo, não?

    E uma coisa que não me sai da cabeça. O que é que a Geisy fez de tão errado assim? Que grande pecado foi esse? Eu ainda não vi motivo pra tanta gente “voltar” atrás na defesa dela.

  11. Esse é o perigo. Muita gente está usando a conduta dela pós-ataque pra justificá-lo. E isso é absurdo. As pessoas consideram que ela não merece respeito por ter feito x e y, mas isso não deveria mudar nada. A atitude dos estudantes foi escrota, mas a gente vê muito por aí as pessoas crucificando a Geisy, dizendo que ela mereceu e tudo o mais. E eu, pessoalmente, acho errado colaborar com esse julgamento.

    Peço para que leiam esse post da Marjorie Rodrigues sobre Geisy pós-Uniban:

    http://www.fmanha.com.br/blogs/ocrueocozido/?p=221

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