Uiquilícs

A primeira vez que ouvi falar de Julian Assange e seu Wikileaks foi nesta matéria publicada em junho no The Guardian. Aquela coisa, né, a confusão prestes a estourar e eu e os alunos concentrados no vocabulário peculiar das manchetes dos jornais ingleses. Seis meses depois, Assange está preso na Inglaterra acusado de assédio sexual ou coisa parecida (a história toda está tão mal contada que cada um tem uma versão), no melhor estilo Al Capone: já que não conseguimos pegá-lo por contrabando y otras cositas más, uma sonegação de impostos está de ótimo tamanho.

Não sei se esse caso envolvendo o sujeito e as duas moças é isso mesmo que estão falando. Se for, segundo um amigo sueco, é crime passível de pagamento de multa, mas não é caso de prisão. Assange não está encrencado por conta desse episódio. Alguém tinha que achar alguma coisa pra segurá-lo; vamos combinar, se não fosse por um crime sexual, teria sido por atravessar a rua fora da faixa, passar a mão na bunda do guarda ou usar cinto e sapato caramelo combinando.

E, aparentemente, as 260 mil páginas de documentos que chegaram às suas mãos, cortesia do soldado americano Bradley Manning, hoje também preso, nem eram lá essa Coca Cola toda. Os casos mais escabrosos foram passados para jornais como o próprio The Guardian e o New York Times (Assange estava cansado de saber que o caso só teria credibilidade e visibilidade se aparecesse na dita imprensa ‘séria’) e publicados há mais tempo. De resto, o temido dossiê parece ser mais um apanhado de telegramas e memorandos de menor impacto. Dizem que tinha até o nome do seu amigo secreto da festinha do escritório e o segredo do Gerson.

Mas o governo americano não quer nem saber, quer mais é acabar com a festa, porque essa história de vazamento de informações ‘de dentro’ dá uma dor de cabeça danada. Já imaginou se qualquer blogueiro xereta agora resolver encher o saco e expor a infinita quantidade de merda que os governos ao redor do mundo são capazes de produzir? Porque, né, tem presidente por aí achando pouco e bom o aperto que o Pentágono está passando, mas eu queria ver se essa conversa de ‘liberdade de expressão’ funcionaria se fosse o governo dele que estivesse na berlinda. E até parece que tem algum por aí sem sua quota de esqueletos no armário…

O pessoal do Wikileaks já mandou avisar que vai continuar publicando todos os documentos, com ou sem Julian Assange. O que não é uma má ideia: primeiro, porque é importante que as pessoas saibam pelo menos alguns detalhes dos podres que os governantes preferem esconder; depois porque, como lembrou Daniel Ellsberg (americano que passou documentos da guerra do Vietnã para o New York Times em 1973 e deu uma trabalheira horrorosa para Nixon e seus amigos, e ano passado foi tema de um documentário muito bom), o auê todo pode dar uma proteção extra para Assange. Seja como for, o que está em jogo é muito mais do que usar ou não camisinha. Mas é que, ultimamente, isso costuma causar mais polêmica do que alguns milhares de civis mortos, vítimas de guerras estúpidas.

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6 respostas em “Uiquilícs

  1. Uma reação que gostei foi o ataque aos sites de grandes empresas pelos “simpatizantes” da Uiquilícs. Apesar de ser ilegal, achei uma surra bem dada e um recado bem passado: “vcs não estão tão no poder quanto pensam”.
    essa parte, a de enfraquecer poderes, essa, sim, me agrada.

    Desde o início achei essa história bem esquisita. no meu mundo, camisinhas furadas só sao caso de puliça qdo uma das partes tem DST e não avisou, ou resulta em gravidez sem reconhecimento. considerar isso, pela lei sueca, estupro acho bem conveniente. (se bem que considerar todo e qualquer abuso sexual como estupro ou tentativa de é uma coisa boa para as mulheres. só que há sempre as interpretações e qto algumas mulheres cobram pra ferrar grander executivos, né?). teorias de conspiração…

    bjs!!

    • Peraí que ficou parecendo que eu to sendo contra a lei sueca. Não é isso. É só que foi “conveniente” que o “crime” tenha acontecido num país em que a lei é essa. Oh, deixa pra lá. rs
      bjs de nv!

  2. Eve, a gente lê e ouve tantas versões dessa história que já está difícil saber o que realmente aconteceu. Seja como for, se algum crime tiver sido cometido, claro, não é pra deixar passar. Mas a gente sabe que, neste caso, está tudo fora de noção. Assange estava na Suécia porque o país tem uma das leis mais rígidas em favor de delatores de crimes – ou seja, ali ele estava protegido nessa área. Por ali não tinha jeito de pegá-lo, então tinha que ser de algum outro jeito.
    Também acho bom esse susto, porque a gente sabe que muito podre é feito e empurrado pra debaixo do tapete, né? Aparecer alguém com provas do mal feito (ao invés do disse-me-disse) é super importante. E cria uma relação interessante entre os meios de informação: os pequenos passam pelos buraquinhos e não têm muito a perder, então mergulham de cabeça. Mas eles precisam dos grandões para uma divulgação mais ampla e completa. Os governos podem controlar os maiores, mas segurar as piabinhas é que são elas… 🙂
    bjk

  3. Na mosca: até parece que o cara cometeu algo tão grave quanto combinar cinto e sapatos cor de caramelo. Absurdo mesmo. 😛

    Báideuêi, democracia não combina com segredos de Estado. Governo democrático tem que ser aberto, transparente, explícito mesmo. Sempre.

    E olha que eu nem sou um democrata…

  4. Aí é que tá. Todo governo, até aqueles bem democráticos, têm lá seus segredinhos. Acho que o pulo do gato está no que acontece quando eles são descobertos: nos países realmente democráticos, o caboclo leva ferro. Nos outros, a história vem à tona e fica por isso mesmo.

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