Dez em um, mas só pra rico

Quando a escritora britânica Barbara Cartland morreu, aos 98 anos, já tinha deixado publicada a impressionante marca de 736 romances, traduzidos em 36 idiomas. A senhorinha gostava de dizer que levava apenas duas semanas para concluir um livro, sempre auxiliada por um pequeno esquadrão de assistentes. Suas histórias podiam ser simples e todas parecidas umas com as outras, mas ela fazia questão de que fossem historicamente corretas, então tudo (até os horários dos trens no século 19) era cuidadosamente pesquisado antes. 

Pois eu tou começando a achar que pelo menos um pedacinho de dame Barbara reencarnou na Vera Fischer. A loura atriz-agora-escritora está lançando Serena, o primeiro de dez romances escritos no tempo recorde de um ano. Olha, longe de mim querer falar de um livro que não li (e que muito provavelmente nem vou ler), mas eu fico aqui pensando que, das duas, uma: ou a moça teve um furor literário de causar inveja a muito autor, ou a marca de quase um livro por mês deve mesmo passar meio distante do quesito qualidade. “Êpa, não tenho nada com isso!”, provavelmente protestaria Barbara.

Isso tudo não tem a menor importância na minha vida, claro. Tem livro de todo jeito e leitor de todo tipo. Quer ler, vai lá e compra; diversidade é tudo de bom. O que eu achei irritante foi a arrogância do comentário da atriz ao explicar por que as protagonistas de seus romances são todas mulheres super ricas e bem sucedidas: “Eu não sei escrever pra gente pobre. Eu detesto.” Quer dizer, né, foi um comentário tão infeliz e tão idiota que eu me pergunto se ela disse uma asneira dessas mesmo ou se, sei lá, o jornalista é que entendeu alguma coisa errado.

Claro, pobre não vai ler livro dela mesmo. Pobre tem coisa bem mais urgente para fazer com 33 reais do que gastar em 240 páginas de um romance escrito em pouco mais de 30 dias. Em geral, pobre não compra livro nenhum. Os que gostam de ler – e alguns são verdadeiros devoradores de livros – geralmente buscam bibliotecas públicas e comunitárias, porque leitura neste país ainda é um luxo para poucos. O problema que a Vera periga ter é que o seu público rico do Leblon também não anda lá muito bom nessa história de hábito de leitura. Só que aí a questão já não é de orçamento; afinal de contas, dindin pra balada e pras comprinhas no xópin não costuma faltar. Sei não, mas tou achando que vai ter livro encalhado na prateleira…

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19 respostas em “Dez em um, mas só pra rico

  1. Mônica,
    desculpe-me, mas não concordo com vc, leitura não é para poucos. Ninguém precisa comprar livros para ler. Como vc mesma disse, tem muita gente que utiliza bibliotecas e lê muito, às vezes bem mais do que quem compra livros. Na minha opinião esses equipamentos são os mais generosos que existem, utilizo com muita frequencia e recomendo a todos, inclusive a quem pode comprar.
    Beijo,
    Cléo

    • Cléo, acho que talvez eu tenha me expressado mal. Não é que eu ache que leitura deva ser para poucos. Pelo contrário, quero mais é que muita gente leia, e de tudo.
      Quando disse que leitura ainda é um luxo para poucos, estava pensando mais na proporção ‘número de habitantes X número de leitores efetivos’. Não me lembro mais dos números exatos, mas há pouco tempo li um artigo baseado numa tese de doutorado sobre estatística de leitores/livros no país, e ainda é um número bastante baixo, mesmo comparado com outros países da América Latina. Quem gosta de ler, lê mesmo, e muito. As crianças, por exemplo, começam no maior embalo (geralmente com o entusiasmo de ter aprendido a ler); na adolescência, começam a perder o interesse, e isso se mantém mais ou menos estável na vida adulta. Uma boa pergunta que a tese tenta responder é ‘o que será que acontece para a criança começar tão embalada e perder o pique depois’.
      As iniciativas de incentivo à leitura são louváveis (eu mesma sou grande doadora de livros pra bibliotecas, me desfaço de mais de 90% do que leio porque acho que livro é pra circular), mas se levarmos em consideração aspectos como preço de livros (se menos gente compra, menos gente doa, eu imagino), hábitos de leitura e mesmo nível de letramento no país, acho que isso ainda é um luxo para poucos.
      beijo!

  2. Eu sou pobre mas compro livros pela net que acabam custando mais barato!
    E na minha casa pode faltar roupa,sapato,bolsa…mas livro?
    NUNCA!!!
    Me recuso!
    E coloquei no meu caçula esse bom hábito!
    Beijo!

    • E é interessante como é hábito mesmo, né? Eu sempre via meus pais lendo, não consigo viver sem livros. E é verdade, com a internet ficou bem mais fácil encontrar pechinchas por aí (se bem que nada substitui aquele prazer de folhear o livro na livraria, mas fazer o quê, né…).
      Você faz muito bem em ‘viciar’ o pequeno nisso. É das melhores coisas que poderiam acontecer com ele! 🙂
      bjk

    • Bom, ela disse na entrevista que algumas coisas de suas personagens são autobiográficas, entào há chance, né? Mas eu não me entusiasmo nem um pouco. Tanta coisa boa na minha lista de espera, ultimamente eu ando bem seletiva nas aquisições – e mesmo nas leituras emprestadas!
      bjk

  3. Mônica, minha linda, talvez a ociosidade da “moça” (ficar fora do ar por muito tempo pode ter mexido com os dois neurônios dela) tenha feito a “autora” dar um estalo para seu “talento” relâmpago. Creio que não passa de um só “livro” seguido de uma série de paráfrases.

    Bjos de montão.

    • É possível, Cláudio… Mas fiquei impressionada com a marca de 10 livros em um ano. Eu fico me perguntando o que outros escritores diriam de tamanho furor literário, já que escrever não costuma ser um ato que resulta nessa overdose toda. Sei lá, de repente estamos testemunhando o nascimento de um verdadeiro fenômeno das letras, né? 🙂

  4. Não sabia dessa febre literária da Vera Fischer, mas o que me parece é que esse tipo de frase tem geralmente um objectivo bem definido: publicidade. E essa, pela amostra, está resultando em pleno…
    Bj
    Pedro

  5. é a verdadeira prostituição da literatura… não, eu não quis insinuar nada… espera aí, eu não quis chamar ela de… não era essa a intenção, de forma alguma, até porque, tem profissionais da área ganhando horrores com seus livros…

    • E imagina, você aí pelejando com seus livros, pesquisas, revisões, edições, e a loura me aparece com DEZ livros em um espaço de UM ano! Viu só como é fácil escrever?
      Como diria o meu pai, ‘tem profissionais da área ganhando horrores com seus livros lá deles’, né, porque com os meus… 😛

  6. Mônica,
    Bello, o pagodeiro-louro-traficante-conquistador já anunciou que vai escrever a biografia dele.
    Devia fazer noite de autógrafos junto com a Vera…
    Beijo,
    Stélio

    • Num tou falando, o monstro saiu da caverna…
      Ainda bem que pelo menos a decisão final de comprar o livro ainda é nossa, né?
      A moda definitivamente pegou.
      Fuja para as montanhas…

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