À luz de velas

Vivi boa parte da minha vida numa parte da cidade onde não havia edifícios. Todo mundo morava em casas espaçosas construídas em terrenos enormes, jardins bem cuidados e quintais com árvores e muito espaço pra meninada brincar. Minha rua era de calçamento de pedra, ladeada por flamboyants que na primavera cobriam tudo de vermelho, laranja e verde. À noite tinha aquele cheirinho inconfundível do pé de dama-da-noite que ficava do lado do portão, a gente ouvia sapos e corujas, de manhã cedo tinha bem-te-vi cantando bem embaixo da janela. Era uma delícia. Problema mesmo, só quando chovia. Aliás, nem precisava chover, era só ameaçar e pronto, a luz ia embora. O estoque de velas, fósforos e lanternas da nossa casa era respeitável e aos primeiros sinais de uma possível tempestade (um vento mais forte ou trovões, mesmo que bem longe) todo mundo já se colocava a postos. Quando o céu desabava pesado, ventania nos galhos das árvores, o cheiro de terra molhada, era uma questão de tempo pra ficarmos sem luz. Não que me importasse muito, sobretudo se fosse à noite, eu adorava ficar vendo o quintal e a lagoa através do clarão dos relâmpagos. A gente sentava na mesa da sala de jantar e ia bater papo, ou então meu irmão pegava o violão e começava a tocar. Algumas (raras) vezes a luz voltava logo, mas o mais comum era irmos pra cama levando velas para o quarto. Ainda hoje gosto de ver as tempestades quando estou quietinha e quentinha em casa, elas me trazem imagens e sensações da infância. E, mesmo morando hoje numa região onde esse problema não existe, continuo mantendo velas e fósforos sempre à mão…

6 respostas em “À luz de velas

  1. Minha flor,felicidade a sua não ocorrer isso aí,pq aqui mesmo sendo Rio e próximo do Centro,não impede que qq chuvinha acabe nossa luz por horas!
    Eu fico apavorada qd elas acontecem,da última vez fiquei 08 horas sem luz e torrando de madrugada com o calorão que anda por aqui!
    Beijo!

    • Nossa, no calor não deve ser fácil mesmo… Aqui não faz o calor do Rio e eu já estou pedindo pelamordedeus chega logo, inverno!!! 🙂
      Onde eu moro agora praticamente não tenho problemas com o fornecimento de energia elétrica, grazadeus. Porque a gente se acostuma e se apega mesmo, né? Nem consegue imaginar a vida sem ela mais.
      bjk

  2. Lindo texto Mónica!
    Eu não conheço nada disso, vivi a vida inteira em cidade grande… mas confesso que também não sinto falta. Aliás, quando vamos para casa dos meus sogros, na aldeia, fico logo cheia de vontade de voltar…
    Bjs,
    Ana

    • São as memórias da gente, né Ana… O legal é que isso tudo que eu descrevi ficava a 20 minutos do centro da cidade. Hoje a cidade cresceu demais e o sossego de priscas eras também já foi pro saco. Fim de semana, principalmente, dá vontade de sumir, parece que todo mundo que mora no centro resolve ir pra lá ‘descansar’…
      bjk

  3. Belíssimo, Mônica.
    Me fez voltar alguns anos, até ao Caramulo da minha infância.
    Como era frequente essa falta de electricidade. E como eram belas as tempestades e os relâmpagos sobre o Vale de Besteiros.
    E como é bom, ainda hoje, dormir ouvindo os grilos lá fora, procurar pirilampos nas noites de Verão ou esperar pelo primeiro cuco da primavera…
    Belo texto!
    Bj
    Pedro

    • Obrigada, Pedro! Em geral sou super urbana, mas adoro esse cheirinho e os sons do mato. De vez em quando tenho que dar uma fugida pra recarregar as baterias e dar conta da doidolândia de uma cidade de quase 3 milhões de malucos.
      Menino, sabe que tem é tempo que não vejo um pirilampo? Antigamente a gente via aos montes, hoje é uma raridade por aqui!
      bjk

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