Volta às aulas

Eu fui chegando e ela quis logo me mostrar os novos cadernos: “Este aqui é o caderno de História, esse eu vou usar nas aulas de Ciências, esse aqui é pro Inglês, porque está escrito ‘hello, girl!’.” A outra já veio puxando a mochilinha de Cinderela, com merendeira e estojo combinando em tons de azul e dourado. Livros novos, lápis de cor, canetinhas, o quarto era praticamente a filial de uma papelaria.

Aí fiquei me lembrando de quando eu, na idade delas, saía com minha mãe todo começo de ano para comprar o material escolar. Nada tão bonito quanto os cadernos ilustrados e de capa dura de agora, com milhares de temas diferentes, glitter e alto-relevo; quem foi pra escola nos anos setenta provavelmente vai se lembrar daqueles cadernos super sem-graça, com capa de papel trazendo no verso a letra do hino nacional ou lições de Moral e Cívica. A única alternativa eram os cadernos Caderflex, com capa imitando couro, bem mais caros do que os convencionais. Eu tinha colegas que só usavam caderflex e eu, com meus caderninhos com capa xadrez ou fotos de araras e praias de areia branca e coqueiros, olhava para os meninos com um misto de inveja e admiração. Em geral, esses eram os alunos que circulavam pra cima e pra baixo exibindo suas belas pastas Samsonite, o máximo do cool naqueles tempos, porque eram de alça longa, de levar a tiracolo, e não se pareciam em nada com as pastas marrons com duas ou três subdivisões internas e fecho dourado que a gente tinha, daquelas parecidas com as maletas antigas de médico. Que, além de tudo, entortavam a nossa coluna vertebral com o peso pendendo para um lado só na hora de carregar.

Era tudo muito igual e muito sem-graça, lápis preto número 2, borracha Mercur de duas cores, régua transparente de 30cm, estojo de madeira com mais araras e praias de areia branca e coqueiros pintados na tampa. Depois que recebíamos o OK para usar canetas esferográficas, a única opção eram as canetas BIC; o suprassumo da liberdade eram as lapiseiras coloridas. De resto, seguíamos bem a cartilha do governo militar da época, tudo igualzinho, tudo padronizado, sempre mais do mesmo.

E, mesmo assim, apesar de toda essa mesmice, a cada novo fevereiro eu me aventurava no maior entusiasmo pela confusão da Livraria e Papelaria Modelo, bem no centro da cidade, onde muitas outras mães e filhas encaravam uma quase sanguinária batalha entre pilhas de materiais. Chegando em casa, tudo era espalhado na mesa da copa e aí era o momento de encapar os cadernos com plástico colorido (a cada nova série no colégio, uma cor diferente) e, anos depois, com Contact – tarefa exclusiva da minha mãe, única a conseguir encapar o material sem embolar e grudar o plástico. A mim caberia a importantíssima tarefa de finalizar as etiquetas: nome completo, matéria, nome do professor, série e nome da escola. Na primeira página, escrevia tudo de novo e adicionava um decalque bonitinho pra enfeitar. A função podia levar uma tarde inteira e aquelas horas eram absurdamente divertidas.

Sempre fui boa aluna e sempre gostei de estudar mas, sem dúvida, o ponto alto do meu ano letivo era a compra do material escolar. Pelo visto, algumas coisas não mudam nunca, mesmo com outros tempos, outros materiais, outras crianças…

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26 respostas em “Volta às aulas

  1. Eita, Mônica. Essa do decalque eu até me arrepiei. Aqueles desenhozinhos no papel lustroso que a gente mergulhava no copo de água e pregava nas folhas do caderno. Quer saber de uma boa: revendo meus escritos antigos (aqueles do Corpo Estranho), alguns deles estavam num desses cadernos, com o Hino Nacional atrás. É, eu também nunca tive um Caderflex. Já tive foi uma daquelas canetas metálicas de 12 cores que minha tia trazia do Paraguai…. (Atchin! Êita mofo!)

    • Minina, aquelas canetas de 12 cores, das quais uma meia dúzia secava a tinta na primeira semana!!! E as canetinhas Paper Mate pequeninnhas, lembra delas? Eu estava tentando me lembrar também daquela maquininha – como era o nome? – que tinha as letras do alfabeto pra gente imprimir numa fita plástica, aí a gente tirava o papelzinho da parte de trás e colava a fita com o nome da gente no caderno… Hahaha, jovem também tem saudade!!!
      bjk

  2. Monica!
    Que viagem no tempo! E que tempo bom!
    Tudo muito igual à minha história!
    Sabe do que mais lembro?
    Do cheirinho de novo do material…nunca me esqueci!
    Era uma verdadeira farra!
    Eu gostava de cortar o durex e ir fazendo uma filinha deles pregada na ponta da mesa, pra facilitar o trabalho de mamys…
    E quando lançaram o caderno de espiral de arame??? Meu Deus, sonho de consumo!
    Canetinha Paper Mate…um luxo!

    • Mônica,
      você falou em durex, eu lembrei dos durex coloridos que a gente usava para fazer moldura na cartolina, quando ia fazer alguma apresentação na sala de aula… é do seu tempo? 🙂
      É mesmo, o cheirinho de novo era fantástico. Livros novinhos, tudo encapado, lápis apontados, tudo impecável. Dava pra começar o ano no maior gás. Depois, é claro, a gente (e os materiais) iam perdendo o pique!
      bjk

  3. Sim, durex colorido é do meu tempo! rsrsrsrs
    Mas vou te falar, lembrei aqui que fino do fino mesmo era a cola em bastão!
    Eu ganhava uma, uma única por ano…depois tinha que ser cola líquida mesmo…

  4. Na minha época o tchan era a mochila da Company, caríssima, que nunca pude ter! E na verdade isso não fez, e não faz, diferença nenhuma, como quase tudo na vida!
    Beijo!

    • Não é engraçado isso, Cleo? Na época, a gente acha que a vida não tem sentido sem uma mochila da Company, estojo da Barbie ou cadernos da Hello Kitty. Daí cresce e vê que nada daquilo fazia a menor diferença…
      Quando as mochilas da Company entraram com tudo, eu já estava fora do esquema e o cool era justamente não carregar mochila, mas apenas o material daquele dia (os cadernos eram de várias matérias juntas, aquela ilusão de ser ‘adulto’, kkk…)
      bjk

  5. Muito legal essa viagem. Caderno Caderflex! Caramba, lembrei de estar andando sozinho, no Rio de Janeiro, com uns 11 anos, indo em uma papelaria looooonge só porque a nazista da professora exigia o Caderflex. Como diria meu filho: “uma bruxa, igual vai ser a do ano que vem”. That’s the spirit, boy!

    Eu ficava com aquela sensação de “tudo tão bonito, para receber minha letra ilegível”.

    Não parece que hoje tudo é tão melhor, que até as réguas de 30 cm são maiores?

    Abs

    • Alexandre,
      os materiais de hoje me dão até vontade de voltar pra escola, é tudo tão lindo! E a variedade então? Formatos, cores, tamanhos, até cheirinhos! Eu fico doida.
      Eu custei a ter cadernos caderflex, três crianças em idade escolar em colégio particular, não era fácil pra mâmi e pápi. O negócio era ser prático mesmo, enfeitar com capa colorida, decalque de soltar na água e título com canetinha hidrocor.
      Hoje eu curto tudo isso com as meninas, é como se eu estivesse num flashback maluco, voltando aí umas boas décadas. Extremamente divertido!
      abraço!

  6. Eta, que viagem no tunel do tempo… francamente, não me lembro dos meus cadernos, mas as Canetinha Paper Mate são inesquecíveis!
    Hoje eu vivo tudo isso quando vou comprar material escolar para os meus filhos… é o mesmo gostinho de sempre!
    Bjs,
    Ana

    • Não é uma delícia? Cada hora eu me lembro de mais uma coisa. Sem contar aquela história de uniforme novo, tênis, ir de uma sala no primeiro andar pros andares de cima (mais longe da diretoria), tudo tinha tanta importância! O mais incrível é ver, pelas conversas da meninada hoje, que as coisas continuam exatamente como sempre foram.
      bjk

  7. Mônica,
    e eu que aprendi a ler no Livro de Lili, tenho salvação?
    Aprendi a fazer ponta em lápis Johann Faber nº 2, com lâmina de gilete velha que meu pai me dava, porque não dava pra comprar apontador…
    Olha, né pra me gabar não, minina, mas que pontas eu fazia!
    Ah, que pontas!
    Beijim bem infantil, um abraço pro meu pai, pra minha mãe e pra Tia Dulce.

    Stélio

    • TIA DULCE??? KKKKKK… 😀
      Meus apontadores ficavam com a lâmina cega em dois tempos, mamãe sempre refazia as pontas dos lápis com gilete, mas não deixava a gente usar não.
      Livro da Lili não é do meu tempo, mas aprendi a ler com Lalau, Lili e o Lobo. E minha primeira literatura foi “As Mais Belas Histórias”, aquela coletânea da Lúcia Casassanta. Sou doida pra achar um exemplar daquele livro, nunca encontrei nem nos bons sebos da cidade. Sumiram como as sombrinhas e os pés-de-meia…
      bjk

  8. Nóssinhora!
    “As Mais Belas Histórias”!
    Claro que a Lúcia Monteiro Casassanta também foi leitura no meu primário.
    Belíssima lembrança.
    Beijim

    • Acho que ela pegou muita gente…
      As primeiras poesias que li (Cecília Meireles, Manoel Bandeira, Henriqueta Lisboa) foram lá.
      Ilustrações feitas com nanquim e tudo. Uma joia, sou doida pra encontrar um desses.
      bjk

  9. Sabe que me deu vontade e saudade de ler de novo, também.
    Vou fuçar um site de sebos que tenho.
    Quem sabe.
    Se descobrir este tesouro, informo vosmecê.
    Beijo,
    Stélio

  10. nossa, que viagem. eu ajudava minha mae a encapar os cadernos e os livros com aquele plastico xadrezinho. e colocava aquela etiqueta branca com vermelho na capa, coloria um desenho bem bonito pra poder colocar na primeira folha do caderno. e toda a sexta feira, era O DIA da “tia” olhar os cadernos, olhar o cabelo pra ver se tinha piolho e cortar as unhas grandes. e antes de entrar na sala, cantar o hino nacional e rezar o pai nosso. kkk nossa quanto tempo… e olha q fui criada em bh nos anos 90… acho uma pena as crianças de hoje nao terem a mesma educação que a gente teve, se bobear nao sabem nem o hino nacional.

    bj

    • haha, e não é divertido a gente lembrar essas coisas, Poliana? Eu fiz o ‘curso primário’ nos anos 70 e tinha isso tudo que você comentou. Era uma escola excelente, mas dessas bem tradicionais mesmo, seguindo a cartilha do que o governo militar ditava. Em casa a conversa era outra! 🙂
      Foi um tempo muito legal. Ainda hoje vejo as sobrinhas vibrando com o material escolar novinho e eu me divirto vendo como as coisas mudam mas, lá no fundo, nem mudam tanto assim!
      bjk

  11. Naquele tempo, estudar era coisa séria. O professor (a) eram as pessoas mais amadas, além dos pais. Todos gostavam, ninguém reclamava. quando chegavam as férias, fim de ano era muito triste, parecia despedida algumas crianças choram.Era uma perfeita união. “As Mais Belas Histórias” de Lúcia Monteiro Casassanta, completava o gosto de se ler e interpretar uma história. Dá saudades…

    • Nossa, sou louca pra encontrar uma edição de As Mais Belas Histórias, acredita que só encontrei uma em sebo, e fotocópia? O cara queria uma fortuna por ela… Meus primeiros textos em leitura vieram de lá, foi um clássico!

  12. ha sobre as canetinhas paper mate , como era febre , eu tinha e adorava aquelas de tinham uns coraçõezinhos desenhados e vc fazia um desenho , depois passava a branca por cima e elas mudavam de cor , já procurei tanto para comprar para minha filha , + hoje em dia o povo nem conhece + …ai q saudade q tenho delas ….c alguém tiver notícias de onde comprá-las me avisem por favor….daiane_kamilly@hotmail.com.

    • Nunca mais vi dessas canetinhas também, uma pena, né? Acho que a marca Papermate nem existe mais. Mas se eu souber de alguma outra que faça o mesmo efeito, pode deixar que eu te aviso!

      • Acho que estão trocando as marcas. As canetinhas hidrograficas eram da SYLVAPEN. E vinham em estojinhos com 6 e 12 cores. Os estojos eram de acrilico branco com a tampinha transparente. Depois lancaram um kit maior parecendo uma pasta com.alcas e que tinham 36 ou 48 cores se nao me engano…

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