Irrelevâncias

Marco Aurélio Garcia, lembra dele? Virou manchete de jornal em 2007, quando foi pego no contra-pé ‘comemorando’ o acidente com o avião da TAM em São Paulo (ele afirma que não, a imagem diz que sim, enfim, não vou entrar nessa discussão). Eu até já tinha me esquecido completamente do Marco Aurélio, veja você, 3 anos é bastante tempo quando a vida da gente é tocada em gigabytes. Mas eis que outro dia vi seu nome numa outra notícia. E fiquei pensando, não no Marco Aurélio, que ele é apenas uma pessoa, mas no nosso grande patropi, abençoado por Deus e bonito por natureza, e em como a gente realmente não vai conseguir sair dessa mesmice enquanto existirem outros marcosaurélios à solta por aí, com essas ideias sem-noção na cabeça.

Introdução grande, né? Mas o Marco Aurélio comentou outro dia que existem coisas muito mais importantes para se discutir neste momento do que essa polêmica de ficar distribuindo passaporte diplomático pra filhos e netos de ex-presidente e parentes de parlamentares em viagem de turismo pelas Miamis e Nova Yorks da vida, e que isso é um assunto irrelevante. Até que eu concordo com o atual Assessor Especial para Assuntos Internacionais da Presidência da República (título bacana, esse!), existem mesmo temas bem mais urgentes no país e no mundo, temos aí uma inflação que ficou acima do esperado, temos as enchentes de praxe no verão, temos uma Copa do Mundo daqui a três anos e pouco e tem muita coisa ainda no papel, sem contar os problemas dos outros que eventualmente podem nos afetar. A gente tem que manter o foco, né, ter as coisas em perspectiva. Existem probleminhas, problemas e problemões.

Mas me desculpe aê o mau jeito, viu, eu gostaria de discordar veementemente desse ‘irrelevante’ que o sr. Marco Aurélio colocou na frase. É que eu não acho essa discussão irrelevante de jeito nenhum. Esse episódio expõe ainda mais a farra que é ser alto funcionário da Corte, eleito democraticamente por cidadãos deste país e embolsando quase 27 mil dinheiros todo mês. Onde já se viu um parlamentar pedir passaporte diplomático pra mulher fazer compras em Paris? Pras crianças curtirem férias na Disney? Que trabalho diplomático elas estão realizando para justificar a prerrogativa do Ministro das Relações Exteriores de emitir o documento em situações ‘de interesse do país’? Aí vem o Presidente da Câmara, percebam, o Presidente!, e diz que acha muito estranho que peçam ao pessoal da Câmara pra devolver esses passaportes mal-emitidos, quando nos outros poderes acontece a mesma coisa. Quer dizer, os outros fazem o errado, eu também faço, e ficamos por isso mesmo. Aparentemente, ninguém por ali tem consciência própria e a noção do que é certo e errado, todo mundo vai no embalo do que os outros fazem, principalmente se for do mal feito. E pedir é só um lado da questão, né, de onde o outro lado tirou que poderia fornecer os tais passaportes sim, que isso não tem nada de mais?

Você acha que é um fato isolado? Então o que dizer do senhor Pedro Novais, Ministro do Turismo, um advogado de 80 anos de idade e três mandatos, que achou super ok pagar uma conta de motel de mais de 2 mil reais com dinheiro público? E que, ao ser pego, simplesmente devolveu o dinheiro como se nada tivesse acontecido? Quer dizer, alguém rouba o seu carro, é parado numa blitz ali adiante e vira pro policial e diz na cara dura “Ah, desculpa, vou devolver o carro agora mesmo”? Gente, de onde sai uma coisa dessas?

Eles fazem todas essas coisas, né, mas é que nós também incentivamos essas atitudes com o nosso silêncio, com a nossa conivência. Ficamos só reclamando pelos cantos, no banco de trás do táxi, na fila do banco, nas mesas de bar. Balançamos a cabeça desanimados e dizemos que este país tem jeito nenhum. E fica por isso mesmo. O problema? O problema maior não é ter um punhado de passaportes diplomáticos irregulares ou devolver uma ninharia (só pra quem ganha 27 mil, convém lembrar) de dois mil e poucos que pegou e não podia. O problema, pra mim, é a gente se acostumar. E passar a achar normal. E achar que todo mal feito, se parecer pequenininho, é irrelevante. Pegar a vaga de pessoas com deficiência. Guardar o troco a mais que recebeu. Usar o célebre ‘sabe com quem está falando?’. Isso tudo vai entranhando, gente, vai virando segunda pele. Enquanto isso, tem gente lá em cima (e cá embaixo também) que acredita que progresso mesmo é vender mais eletrodomésticos e negociar seus vários milhões na bolsa. Na verdade, ainda estamos láááá na base da pirâmide.

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12 respostas em “Irrelevâncias

  1. Monica,

    É preciso que se multipliquem atitudes como aquela relatada abaixo:

    Bispo recusa comenda e impõe constrangimento ao Senado Federal.

    Num plenário esvaziado, apenas com alguns parlamentares, parentes e amigos do homenageado, o bispo cearense de Limoeiro do Norte, dom Manuel Edmilson Cruz impôs um espetacular constrangimento ao Senado Federal, ontem.

    Dom Manuel chegou a receber a placa de referência da Comenda dos Direitos Humanos Dom Hélder Câmara, das mãos do senador Inácio Arruda (PCdoB/CE).

    Mas, ao discursar, ele recusou a homenagem em protesto ao reajuste de 61,8% concedidos pelos próprios deputados e senadores aos seus salários.
    “A comenda hoje outorgada não representa a pessoa do cearense maior que foi dom Hélder Câmara. Desfigura-a, porém. De seguro, sem ressentimentos e agindo por amor e com respeito a todos os senhores e senhoras, pelos quais oro todos os dias, só me resta uma atitude: recusá-la”.

    O público aplaudiu a decisão.

    O bispo destacou que a realidade da população mais carente, obrigada a enfrentar filas nos hospitais da rede pública, contrasta com a confortável situação salarial dos parlamentares.

    E acrescentou que o aumento “é um atentado, uma afronta ao povo brasileiro, ao cidadão contribuinte para bem de todos com o suor de seu rosto e a dignidade de seu trabalho”.

    Bjs,
    Evando

    • Parabéns ao dom Manuel! Isso devia ter saído estampado nos jornais com o mesmo alarde da notícia original, né? Quem sabe mais gente pegava o bonde…
      Achei ótimo ele recusar no plenário, e não quando foi convidado, deu muito mais visibilidade ao ‘não’.

      Mas é isso, a gente ainda tem um loooongo caminho a percorrer. Tá ficando cada vez mais difícil (mas cada vez mais necessário) ensinar os valores certos pra meninada, porque a gente faz o trabalho daqui, aí vêm outros e mostram que pra se chegar no topo o jogo é outro. Aliás, isso de ‘chegar no topo’ é o fim – a menos que você seja alpinista…
      bjk

  2. caramba, finalmente um texto (uma cronica) sobre corrupcao muito boa e que nao cai no senso comum, sinceramente, parabens.
    cai nesse site por um acaso do destino e nao sai mais.
    parabens pelo texto e pelo excelente blog

    • Obrigada, Ale, o que eu escrevi no post é, sinceramente, o que eu sinto. E tenho certeza que é o que muita gente sente e acha também…
      Que bom que você chegou aqui, gostou e sentou praça. Sinta-se à vontade pra explorar o blog, tem coisa pra caramba, de todo tipo.
      Obrigada e apareça sempre!
      abraço

  3. Monica.

    Ver esse tipo de notícia realmente me deprimi, sério. Eu fico impressionado como nesse alto escalão rola a farra e nós que colocamos os caras lá assistimos tudo como se fosse normal, comum.

    Sei lá sinto falta de pessoas mais revoltadas, que vão às ruas reclamarem um direito que é nosso. Hoje em dia é muito mais fácil reclamar pela internet, protegido, seguro em casa, não há ninguém que bote a cara a tapa. E não é só a questão dos passaportes, são tantas outras coisas, tantos escândalos.

    Acho que ou estamos incrivelmente idiotizados, ou chegamos num ponto que já achamos tão normal sermos enganados que não fazemos mais nada e isso em minha opinião é inadmissível.

    Eu tenho 26 anos e não vivi na época da ditadura, dos caras pintadas e tudo o mais, mas sinceramente me pergunto onde foram parar as pessoas que se opõe a essa bandidagem?
    Não sei se isso acontece com você, mas às vezes prefiro não ler a notícia por saber que vou me sentir mais uma vez sendo feito de idiota.
    Ótimo post. Concordo com tudo!

    • Bruno, essa tendência parece ser verdadeira no mundo todo, não só aqui. Outro dia um amigo americano comentou que a guerra no Iraque teria outra reação do povo americano (sobretudo jovem) se o espírito dos anos 60, dos protestos contra o Vietnã, ainda existisse. Por lá, e aparentemente por todo canto, prevalesce o ‘bloco do eu sozinho’.
      Malcolm Gladwell, jornalista do New Yorker, escreveu um artigo interessante há pouco tempo, questionando justamente essa ‘falsa mobilização’ da internet, que dá o pontapé inicial da reação, pra morrer devagarinho logo depois. Ele pergunta o que teria acontecido com o movimento pelos direitos civis nos anos 60 se Martin Luther King tivesse liderado a marcha via internet…
      É desanimador sim, uma amiga perguntou hoje no Facebook qual é a solução. Não sei se existe uma; tudo o que posso dizer é que eu tento fazer o trabalho de formiguinha que fizeram meus pais, tentando passar para as crianças da família valores que considero certos e justos, discutindo o que acontece com meus alunos e amigos e, na medida do possível, deixando alguma coisa aqui no blog. O que a gente não pode é fingir que nada está acontecendo…
      Obrigada e um abraço!

  4. Aquilo de que você com tanta pertinência fala, a dissolução do carácter da classe dirigente é notória e preocupante. Mas, não menos preocupante é a própria existência de uma “classe dirigente”. Porque, que diabo, não era suposto os órgãos de poder serem uma amostragem da população? Serem a população? E não esse clube de elite, dinástico e fechado, ao qual se acede por nascimento, casamento ou pela mão de interesses mais ou menos instalados?
    Mas, mais importante, é o descaso, indiferença, a passividade com que a elite e os seus desmandos são olhados pelos “outros”, por nós ou pela esmagadora maioria de nós. Essa ausência de revolta, a incapacidade ou a falta de vontade de tomar o destino nas mãos, esse adormecimento que permite que a situação se perpetue, que impede a regeneração e a auto-correcção do sistema. Que compromete a evolução, o futuro. Que, creio, nos faz caminhar a passos largos para uma crise civilizacional…
    E, feita a profecia, desço de meu caixote e saio de cena, de fininho…

    • Essa foi digna de um Speaker’s Corner numa manhã de domingo em Hyde Park! 🙂
      É isso mesmo, Pedro, e está em todo lugar, né? Já tem é tempo que a turma lá de cima só fica fazendo a dança das cadeiras (mas, curiosamente, com o mesmo número de participantes e cadeiras, só ficam mesmo trocando de lugar). Quando eu disse que iria anular meu voto desta vez, muita gente disse que eu estava me omitindo. Mas, sinceramente, não consigo ver diferença quase nenhuma nessas mudanças. Até marquei consulta com meu oftalmologista, vai que minha dificuldade em enxergar isso é física e pode ser consertada com lentes novas? 😛
      bjk

  5. Menina, parabéns! não é que eu penso igualzinho, igualzinho! senti-me ‘absurdamente feliz’, por descobrir que graças a Deus, existe pessoa (você) e pessoas (que responderam) de forma tão lúcida. Claro, também ‘pesarosa’ por independente de nossos juízos, estarmos no mesmo barco! Salva-vidas, urgente!!!

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