A turma do é pra ontem

Tem gente que até que tenta se programar, não deixar tudo pra última hora, mas cadê que esse pessoal faz essas coisas com consistência e disciplina, Deus meu? Eu sou constantemente sondada pela turma do é-pra-ontem. Chega um email de alguém que eu não conheço, amigo do primo do vizinho de um aluno, pedindo pra eu passar o resumo da tese de doutorado do moço pro inglês. Coisinha de nada, só uma análise comparativa das partículas quânticas dos hologramas de Mylar, a influência da respiração deficiente de Nabucodonosor no crescimento das monocotiledôneas dos jardins suspensos da Babilônia, ou o tudo e o nada na obra de Djavan. Pra quando é mesmo? Pra ontem. Mas eu sei inglês, né? Só duas páginas no Word, dá pra fazer rapidinho. Não adianta eu explicar pro moço que não é rapidinho não, eu não sou tradutora profissional, não sei física quântica, não sei botânica, não entendo o que canta o Djavan, eu preciso de tempo. Mas isso é tudo que o moço não tem, depois de quatro anos debruçado sobre a tese, a #!%&* da tradução pro inglês tem que ser feita na velocidade da luz. Falo pro moço que eu sinto muitíssimo, mas não vou poder ajudar não. Ninguém espera que um neurologista faça transplante de coração, ou que um advogado trabalhista defenda um assassinato, que um engenheiro civil monte e desmonte um reator nuclear. Mas se você sabe falar uma lingua, é claro que vai saber traduzir tudo e qualquer coisa, né, direitinho e pra ontem.

A moça me liga, colega do amigo do primo, querendo aula de inglês. Sabe o que é, é que eu tenho que fazer uma prova lá na empresa onde eu trabalho, minha promoção depende disso. Quando é a prova? Na quarta-feira. Qual o seu nível de inglês? Ah, sabe, eu fiz inglês no colégio em 1887, depois fiz seis meses num desses cursos de idiomas mas parei e nunca mais voltei, isso foi em 1902. Por algum motivo que foge completamente à minha compreensão, tem gente que acha que o cérebro vai ficar pronto pra entender, falar e escrever de hoje até sexta-feira. Olha, o meu coração fica deste tamaninho, mas não dou ilusões pra moça não, só porque o anúncio daquela escola diz que você fica fluente em seis meses e o canal de televendas tá com promoção daquele curso que te coloca um cd debaixo do travesseiro e você aprende enquanto dorme, olha, não quer dizer que isso realmente aconteça na vida real. Na vida real a gente precisa de tempo, de amadurecimento, de prática, de erros e acertos, não é no vapt-vupt, não dá pra aprender pra ontem.

E assim vai, de telefonema em telefonema, de email em email, de conversa em conversa. Olha, se você leu até aqui e pensou que uma hora dessas você pode virar o moço ou a moça, faz isso não. Aprender uma língua é das coisas mais bacanas que existem, nunca antes na história deste mundo globalizado foi tão importante ser fluente em outros idiomas, o resumo da sua tese de doutorado merece o mesmo carinho e apreço da trabalheira toda que te deu, não tropece no último degrau, não entregue para o seja-o-que-Deus-quiser, não deixe pra ontem. O que vale a pena ser feito, vale a pena ser bem feito, não vá na base do improviso. Porque mágica até que rola, mas milagre tá em falta no mercado.

17 respostas em “A turma do é pra ontem

  1. Que chato!!!! Tenho alguns problemas parecidos, fiz versões de resumos de monografias e o avaliador disse para a amiga que me pediu o favor que estava incorreto porque tinha menor número de palavras do que o português!!! Às vezes é preciso dizer não, mas é tão difícil!
    Boa sorte!
    Adri

    • Tem muita gente que está mais preocupada com o número de palavras do que com o conteúdo, né? E acha que a transposição de uma língua pra outra é literal. O sujeito prefere a encheção de linguiça, pelo menos assim fica esteticamente correto. Se o texto faz sentido, já é uma outra história! 🙂
      bjk

  2. Mônica, bom dia!
    Eu detesto fazer as coisas correndo. Certamente, algo ficará para trás, ou ficará muito mal feito. Depois, haverá retrabalho (gíria corporativa da área de qualidade), com muito mais gasto de tempo e recursos.
    Durante minha vida profissional, e também na pessoal, já enfrentei muitas situações assim. A gente dá conta do recado por necessidade, mas, às vezes, sente que poderia ter feito mais e melhor.
    Um dia o tal cerumano vai acabar aprendendo. Nem que seja na base da pancada eheheh!!!
    Beijos, e até de repente!

    • Eu também não gosto da correria, GeGe, embora às vezes não tenha como fugir dela. Mas quando a correria é ‘de mim para comigo’, tudo bem. Dureza é quando um atrasa, mas fica na cola do seguinte pra ele dar conta de tudo em tempo recorde.
      Tenho uma amiga engenheira orçamentista que fica uma fera com os responsáveis pelo planejamento, projeto e cálculo, porque eles enrolam, enrolam, mas na hora de sair correndo pra orçar a tempo do prazo da concorrência, eles nem querem saber: tem que sair no prazo, nem que seja preciso virar noite e entrar pelo fim de semana…
      Sem contar que fica um monte de beiradas pra aparar depois, né?
      Será que o cerumano um dia aprende? Olha, tenho cá minhas dúvidas… 🙂
      bjk!

  3. Monica, talvez chegou a hora de apresentar a esse pessoal o mundo Matrix, é só conectar um cabo ao cérebro e tudo se resolve, ih já vi que não vai dar, Matrix é ficção, fora da realidade em que vivemos, mas e o que esse povo te pediu se enquadra em realidade? Boa semana.

    • O dia em que eu tiver algum poder, espero que seja o de prever os números da MegaSena, kkk…
      Mas tou brincando não, gente como essa moça aparece sempre. Alguns ainda têm um tempo e são dedicados pra tirar a diferença, mas outros realmente esperam um milagre…
      Eu ‘dou o melhor de si’ mas, né…
      bjk

  4. Mônica, bem vinda ao mundo da Publicidade e Propaganda. Tudo, mas TU-DO mesmo é pra ontem ou semana passada. E começa com o cliente que nos procura, não é “trabalho” interno não!

  5. Perfeito o post, Mônica. Superiormente escrito, e infelizmente certeiro, nesse mundo globalizado em que tudo é para ontem, em que o fazer bem não é o essencial,em que tudo é anunciadamente fácil, em que tudo está impregnado de hologramas quânticos de Mylar…
    Ô canseira…
    Bjs,
    Pedro

    • Por isso é que médicos e terapeutas estão com seus consultórios cheios! A pressa e o estresse são o mal da vez, e aí sobra pra todo mundo, até pra quem está tentando levar a vida mais leve…
      bjk

    • Já sim, Alexandre, e esse pessoal tá reinventando a roda. Olha, dou aulas de inglês desde 1987 (comecei quando era bebê, hohoho) e, apesar de conhecer os métodos todos de ‘aprender primeiro, falar depois’, nunca vi nenhuma escola séria que não usasse uma abordagem comunicativa nas aulas e não incentivasse os alunos a tentar a comunicação na própria língua que estão estudando. O que os language hackers propõem já existe nas escolas, mas aprender um idioma é algo bem mais complexo do que três meses vão te dar. Trabalhei muito tempo com intercambistas, 3 meses noutro país (ou eles aqui) dá pra começar a se comunicar (bem, é claro que existem as exceções). Se 3 meses já ajudarem a fazer o aluno ficar mais à vontade pra arriscar, eu já acho muito bom!

      A matemática é até simples: quando você está aprendendo nos EUA ou na Inglaterra, por exemplo, seu mundo está em inglês. Você sai da sala de aula e imediatamente vai ter que por em uso o que aprendeu, e até o que não aprendeu! A sala de aula ajuda a organizar as ideias, mas o que faz diferença mesmo é o lado de fora e a disponibilidade da pessoa em tentar falar (porque eu conheço gente que mora nos EUA há anos e fala que nem Tarzan). Aqui no Brasil você tem, talvez, com muita sorte, 3 horas de inglês por semana. Se tivesse aulas nas 52 semanas do ano, sem perder nenhuma aula, sem feriados, nada – o que não acontece -seriam pouco mais de 150 horas por ano, o que dá menos de uma semana em 52! E, saiu da sala, tudo em volta está na sua língua materna, não na língua-alvo…

      Ih, isso dá pano pra manga, mas acho que a pergunta que se deve fazer é: quer aprender rápido ou aprender direito? 😉

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