E o Brasil está no Oscar, você sabia?

O Brasil está disputando um dos prêmios da Academia e muita gente por aí não fazia ideia. A imprensa estampou em primeira página que ‘Lula, o Filho do Brasil’ não chegou nem na pré-lista (sinceramente, gente, alguém achou mesmo que chegaria?) de candidatos a melhor filme em língua estrangeira e, enquanto isso, ‘Lixo Extraordinário’ (Waste Land) entrou pra valer na briga pela estatueta de melhor documentário em longa metragem. Minha torcida já começou, e quem me conhece sabe bem que isso não tem nadinha a ver com o fato de ser ou não brasileiro.

Eu caí de paraquedas nesse projeto do Vik Muniz, artista plástico e fotógrafo brasileiro radicado em Nova York, enquanto procurava imagens para ilustrar um texto que usaria com meus alunos – ‘isso é ou não arte?’ Sou ignorantona, gente, sou muito burrinha mesmo, quando se trata de arte contemporânea. Eu acho tudo interessante, curioso e divertido, mas a minha tendência é olhar aquelas instalações e só conseguir pensar que o varal de roupas da minha casa se parece muito com o que está em exibição. Entro na sala e fico sem saber se aquele montinho de areia mais o saco de cimento e a lata de tinta são um manifesto pós-moderno a favor da desconstrução do vazio enquanto uma metáfora para a arte ou se os pedreiros encarregados da reforma estão no intervalo de almoço. Pra mim, uma roda de bicicleta amarrada numa corda pendendo do teto, com um par de tênis velhos em cima de uma pilha de jornais amassados (tou brincando não, vi lá na Tate Modern) me dizem quase nada. Quando muito, me dizem que se a faxina do dia fosse por minha conta, o bololô todo ia parar na lata de lixo.

E não é que o projeto do Muniz é precisamente sobre lixo? Com a colaboração dos catadores de Jardim Gramacho, no Rio (aliás, catadores de recicláveis, lembra o líder da comunidade, Tião Santos, que lixo é aquilo que já não tem mais nenhuma serventia), Vik Muniz montou imagens gigantes usando objetos encontrados no aterro sanitário, transformou o lixo em arte e fotografou tudo. O resultado desse mosaico de pedaços de madeira, tampos de privada, latões de metal e sacolas plásticas e papéis é belíssimo. Transformados em fotografias gigantes, os trabalhos foram leiloados e vendidos por muitos e muitos dinheiros.

E aí vem a parte mais bacana. O dinheiro arrecadado com a venda das fotos – algo em torno de 250 mil dólares, segundo um artigo no NY Times – foi doado à associação desses catadores e serviu, entre outras coisas, para a aquisição de computadores e de um caminhão para transporte de recicláveis, montagem de uma biblioteca e cursos de treinamento para o pessoal. Lixo que se transforma em arte que se transforma em foto que vira dinheiro que ajuda a transformar a vida de muitas pessoas. Um projeto que, além de ser esteticamente bacana, merece, pelo seu alcance, ser divulgado, aplaudido, premiado e replicado.
***

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18 respostas em “E o Brasil está no Oscar, você sabia?

  1. Fantástico , Monica! Acho formidável qualquer maneira inteligente, sensata e bonita de mudar a vida das pessoas.
    No entanto, fica sempre aquela dor no coração desse fenómeno de cidade grande, gente vivendo do lixo e no lixo…”Lixo não, material reciclável”, como diz o moço.
    De qq forma, acho que ele é merecedor da estátua do homenzinho.
    Bjs,
    Ana

  2. Oi, Monica!

    Amei sua sinceridade ao escrever sobre como se sente frente a uma obra de arte contemporânea.
    Adorei o vídeo e o postei no Facebook.
    Abraço.
    Leda

    • Que bom, Leda, acho que esse é o tipo de trabalho que deve mesmo ser espalhado!
      Pois é, eu ‘dou o melhor de si’, mas geralmente empaco nessas pós-modernidades. Tou melhorando, uma hora dessas eu consigo desvendar os mistérios… 🙂
      abraço!

  3. Pingback: Tweets that mention E o Brasil está no Oscar, você sabia? « Crônicas Urbanas -- Topsy.com

  4. Mônica, acabo de assistir “O Concerto”, e fui por sua indicação. Imperdível, realmente. E, como você disse, é uma pena que filmes como esse não vão para os cinemas do “circuitão”. Aproveitei minha estadia no Rio, onde está passando em somente uma sala, e lá fui eu. Resultado: um cinema lotado aplaudindo o filme, inclusive eu! Mais tarde farei uma resenha lá no barco, com o devido link para seu post sobre essa obra prima do cinema!

    E vamos torcer para o “Lixo Extraordinário!”

    🙂

    • Nossa, que coisa boa, Marcus! Gosto é sempre uma coisa tão ‘particular de cada um’ (como diz meu irmão)… Eu gosto muito desses filmes que sabem dosar a veia cômica e a parte mais séria. E, confesso, adoro ouvir as pessoas falando outras línguas – estudei russo há muitos anos e acho legal ficar tentando pescar alguma coisa. Acho que minha única crítica é quanto ao filme mostrar os russos de uma maneira um pouco negativa demais, sempre bagunçados, fazendo qualquer coisa pra sair do país, qualquer coisa por dinheiro, por aí. Não devem ter gostado muito dessa imagem, né…

      E o concerto não é maravilhoso? A violinista que efetivamente toca na cena do concerto de Tchaikovsky (a atriz está, naturalmente, ‘dublando’ os movimentos) é Sarah Nemtanu, primeira-violinista da Orquestra Nacional da França.
      Avisa quando o post for publicado!
      E vamos na torcida pelo documentário…

  5. Mônica,
    reproduzo aqui uma notícia de quem já antevia o sucesso deste rapaz: “Silvana Meireles (uma antenada e sabida no quesito artes plásticas), que ótima notícia você me dá. Aliás, boa também para o mundo artístico e cultural do Estado, de que em novembro, a Fundação Joaquim Nabuco inaugura exposição com os trabalhos mais recentes do multimídia brasileiro Vick Muniz. Essa mostra será vista primeiro na Galeria Camargo Vilaça, em São Paulo. Vale a pena repetir, até para o conhecimento de quem ainda não sabe, Vick Muniz vai ganhar espaço com a individual The Things Temselves: Pictures of Dust, no conceituado Whitney Museum, de Nova York. Melhor ainda, se a previsão do artista vir para cá (Recife), fazer uma palestra e conversar com os artistas plásticos da cidade sobre arte contemporânea e o seu trabalho for confirmada.” (Confirmou-se)…(Notícia no JC, em Recife 07/03/2001 por Orismar Rodrigues. Pela data vemos que o moço iniciou bem sua carreira, sempre com originalidades: no donome.com.br – vejam:
    “As técnicas usadas nas réplicas foram geléia e manteiga de amendoim. Ele também trabalhou com açúcar, fios, arame, e xarope de chocolate, com o qual produziu uma recriação da Última Ceia de Leonardo.

    Reinterpretou várias pinturas de Monet, incluindo pinturas da catedral de Rouen, que Muniz produziu com pequenas porções de pigmento aspergidas sobre uma superfície plana. Ele fez as imagens com açúcar mascavo.

    Mais recentemente, tem criado obras em maior escala, tais como imagens esculpidas na terra (geoglifos) ou feitas de enormes pilhas de lixo. Para sua série “Imagens das Nuvens” ele fez com que um avião de publicidade desenhasse com fumaça contornos de nuvens no céu.”

    Tranquilizemo-nos todos!!! Ninguém é obrigado a entender de imediato. Estes movimentos pós… pós… pós…, mas aos poucos, quando associamos ao “social”, como se diz agora: “na inclusão social”, progressivamente entendemos o quê tem a ver com quê.

    Nas artes e ciências sempre existiram os “visionários”, e ninguém entendeu suas “profecias” àquela época, ninguém tem culpa! o momento do ‘insight’ vem depois, claro!!! Eles viram muito, muito antes da gente! Nenhum de nós tem culpa por não apreender a mensagem no momento. Aprendemos com os resultados!!! Que vença!!! Abração!

  6. A propósito, não é Vick Muniz, mas brilhou! eu que não acompanho TV com assiduidade, me encantei com a abertura da novela “Passíone”, observaram a riqueza de detalhes! (se é que alguém viu, lógico não precisava assistir à novela!)
    Num plano alto percebíamos o belo desenho do casal, à medida que a tomada ia se aproximando era uma profusão de objetos colocados com muita precisão, de forma a resultar naquela maravilha! eram parafusos, lixeira, pneus, molas, caixa de chocolates, flores, uma porção de bugingangas!
    ‘Eu deveria ter gravado! valia à pena e um prêmio!’ criatividade, técnica… Pôxa! quanto a novela, deixa prá lá!!!

  7. Sim, acredito Monica!
    assim como para mim, que sou daquelas de ler créditos até o final, não observei exatamente a sua autoria -erro crasso- mas coisas de quem não assiste TV de modo frequente. (Fui capaz de associar a qualidade do trabalho ao nível deste artista e não percebi a sua autoria), sou-lhe imensamente, mas… imensamente grata, por ter-me elucidado e acrescentado esta valiosa informação, sensacional o trabalho da equipe técnica, às vezes, até ficava me perguntando, a proporção de tudo aquilo, possibilitando uma vista aérea de tamanha beleza e realidade! Tá vendo como vale a pena trocarmos ‘figurinhas’, acrescentamo-nos e completamo-nos uns aos outros, o meu encanto por esta ‘abertura Passíone’, aumentou… qd vc buscou mais!!! Lamento que vc não tenha visto – em movimento! e que, insisto, ‘eu não tenha gravado!’ Fico mt feliz qd aprendo algo! sou assim, a cada dia agradeço às pessoas que fazem parte da minha vida e contribuem com ela!
    Para vc que não assistiu, na foto deu para perceber a diversidade – do requinte com o obsoleto, o inútil, no uso dos materiais? por trás de tudo isto fica a mensagem dos paradoxos, dos valores não só dos objetos, como de tudo que nos rodeia, ao final… menos e mais, pobreza e opulência, estão lado a lado, e permanecerão inseparáveis queiramos ou não, isto é o social, isto é o antropos!
    Beijos de felicidades!

    • Eu não sabia era que a foto estava na abertura da novela (não sou nem um pouco noveleira, então essas coisas passam batido mesmo!). Eu tinha baixado essa e outras fotos quando peguei o artigo no NY Times pra conversar com os alunos sobre arte, mas isso foi no final do ano passado… Só agora é que me caiu a ficha também! 🙂
      bjk

  8. Monica,
    me empolguei, permita-me aqui colocar a letra da música que acompanhou o trabalho que mencionamos, e que fechou com chave de ouro! Qd disse: isto é o social, isto é o antropos, deixei de acrescentar, isto é… o amor, pois foi através do amor que o Vik Muniz, se doou a uma causa, a uma comunidade que precisava de… TUDO!!!

    “Aquilo Que Dá No Coração”
    (Tema de Abertura Novela Passíone)
    Compositor: Lenine

    Aquilo que dá no coração
    E nos joga nessa sinuca
    Que faz perder o ar e a razão
    E arrepia o pêlo da nuca
    Aquilo reage em cadeia
    Incendeia o corpo inteiro
    Faísca, risca, trisca, arrodeia
    Dispara o rito certeiro

    Avassalador
    Chega sem avisar
    Toma de assalto, atropela
    Vela de incendiar
    Arrebatador
    Vem de qualquer lugar
    Chega, nem pede licença
    Avança sem ponderar

    Aquilo bate, ilumina
    Invade a retina
    Retém no olhar
    O lance que laça na hora
    Aqui e agora,
    Futuro não há
    Aquilo se pega de jeito
    Te dá um sacode
    Pra lá de além
    O mundo muda, estremece
    O caos acontece
    Não poupa ninguém

    Avassalador…

    Avassalador
    Chega sem avisar
    Arrebatador
    Vem de qualquer lugar
    Aquilo que dá no coração
    Que faz perder o ar e a razão
    Aquilo reage em cadeia
    Incendeia

    É isto aí, haverão cupidos???
    (desculpe-me usar seu espaço, mas senti que precisava da “pièce de résistence”) Abração, tudo de bom!

    • Legal, thanks!
      Aproveitando então o embalo, pra completar, aqui vai pra você o link da abertura da novela (o que a gente não acha nesse mundo de São Google, não é mesmo?) De lá você pode baixar pro seu computador!

      hahaha, o blog tá aqui pra isso também! Pièce de résistence e tudo o mais…
      bjk

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