Como fazíamos sem…

Meu avô dizia que foi a luz elétrica que acabou com os fantasmas. Era muito mais fácil acreditar neles quando as salas e quartos ainda eram mal iluminados pela luz do lampião ou do fogão de lenha e a casa toda rangia com os estalos da madeira. Quando o silêncio do lado de fora metia medo e as sombras das árvores e dos bichos não deixavam a meninada dormir sossegada. Quando a distração à noite era ficar contando histórias de mula-sem-cabeça e almas penadas e os cemitérios ficavam pertinho, logo ali atrás da igreja matriz. Vovô nasceu no interior de Minas, em 1891. Foram muitos anos antes que a eletricidade entrasse realmente em sua vida. Quando ele morreu, o mundo no qual tinha vivido durante quase 86 anos era muito, muito diferente.

Mas, olha, eu também vi muita coisa mudar. Nasci na década de 60, com vitrola, máquina de moer carne, gravador de rolo e fita cassete, pesquisas escolares na Enciclopédia Barsa e Delta Larrousse, carro a álcool que ficava esquentando um tempão de manhã antes de sair de casa, pneu com câmara, filme que a gente tinha que levar pra revelar e demorava eternidade pra ficar pronto,  máquina de escrever manual, telefone de discar, agulhas enormes de anestesia (pra quem sempre teve medo delas, era de tremer nas bases…), videocassete. Boa parte dessas invenções a gente só encontra atualmente em museus; quando ainda estão em uso, em geral é mesmo por opção do freguês. 

Então pense em outras coisas. Um tempo sem água limpa. Sem avião. Correio. Elevador. Escola. Escova de dentes. Dinheiro. Fósforos. Geladeira. Internet. Medicamentos. Óculos. Sobrenomes. Telefone. O cerumano já viveu sem tudo isso (às vezes até ainda vive), mas hoje em dia certamente nem cogita ter que abrir mão de qualquer uma dessas invenções depois de entrar em contato com elas. Lembra daquela história de ‘take for granted’? Pois então.

E é esse exercício que a Barbara Soalheiro propõe em seu livro ‘Como Fazíamos Sem…‘. Eu entrei na livraria procurando um presente  bacana para uma menina de onze anos e, quando dei por mim, estava acomodada na poltrona da loja, prestando a maior atenção no livro, mas alheia a tudo e todos em minha volta, e já ia lá pela página 30. O texto é informativo e ao mesmo tempo leve, numa linguagem que certamente agrada à meninada (e agrada também aos já nem tão meninos assim, acredite). As ilustrações são divertidas, o layout é muito bacana, mas o interessante mesmo é dar essa paradinha providencial e pensar: como era o mundo antes? Como era o mundo até ainda outro dia, quando eu era pequena, quando estava na escola, quando arrumei meu primeiro emprego? O que mudou radicalmente? O que mudou e a gente mal percebeu? O que deve acontecer daqui pra frente?

Para a moçada que cresceu com TV a cabo, banda larga, celular, mp3 e comida pronta, olhar para trás pra essa ‘velharia’ pode ser um exercício incrível. Um dia, lá pra frente, eles vão descobrir que seu mundo também foi envelhecendo e se transformando, e que seus filhos e netos vão olhar para ele com um misto de curiosidade e incredulidade. ‘Como Fazíamos Sem…’ ajuda a fazer isso agora.
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PS- pra arrematar, um vídeo genial. Crianças ‘descobrem’ velhas tecnologias dos anos 80, 70 e 60 e especulam o que são e para que servem…
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13 respostas em “Como fazíamos sem…

    • Não é lindinha demais? E pensa bem, pra ela, fazia muito mais sentido mesmo ser um tapete, né? O livro é muito legal, tanta coisa que eu nem fazia ideia! Quase comprei um pra mim também, mas depois vou pegar emprestado com a dona, hehehe. Mas já passei a dica pra um tanto de gente. Na época do Natal me disseram que a gente nem encontrava nas livrarias, tal o sucesso. Bom, né?

  1. Interessante, esse artigo! Realmente, a tecnologia disparou mesmo, deixando para trás na memória muita coisa, como a fita cassete, e outros! Uma coisa que compreendo e respeito, mas não engulo fácil é a aversão que várias pessoas das antigas tem às novidades, como por exemplo, as pessoas que chamo de “cyberfóbicos”, que têm aversão ao computador e à internet (O acento de “têm” caiu?).

    Minha resenha de “O Concerto já está lá no barco”. 🙂

    • Pra algumas pessoas a adaptação pode ser bem difícil, Marcus, mas concordo com você que esse ‘nunca usei e não gosto’ é um pouquinho irritante. Pelo menos experimentar, né?
      E além das tecnologias que apareceram e desapareceram, eu acho legal também ver o que foi aprimorado e a gente nem se dá conta. Já reparou que hoje em dia pneu quase não fura? Outro dia achei que o do meu carro estava um pouquinho baixo, dei uma passada no borracheiro e simplesmente havia 3 pregos nele! E eu circulando toda feliz! Em priscas eras, ele iria pro chão em questão de minutos…
      Ah, vou lá no barco pra conferir, valeu o aviso!

  2. Monica, mais um belo texto seu, o tempo mudo tudo, inclusive nós, ou mudamos o tempo, e consequentemente nós, não sei, difícil definir, mas hoje em dia acho que um exercicio complicado ou tão mais, seria o de imaginar como faríamos sem, quem nunca teve algo não sente sua falta, está acostumado, e se de um dia para outro ficássemos sem todas essas facilidades, internet, energia elétrica, só pra citar dois exemplos, como nos adaptaríamos, nem consigo imaginar, e nem quero pensar em uma coisa dessas chega a dar medo, abraços.

    • Obrigada, Fernando! Vou te confessar que eu ‘me apego’ com a maior facilidade ao conforto! Vivi feliz da vida sem celular, internet e microondas, mas depois que entraram na minha casa, nunquinhas que vou abrir mão deles! 🙂

      Eu até gosto de me desligar dessas coisas de vez em quando – ir pro mato sem sinal de celular, sem banda larga, até sem eletricidade – eu acho um ótimo exercício, mas só porque sei que dali a alguns dias vou ‘voltar ao normal’. O grande lance é saber viver com tudo isso sem se tornar escravo de nada, sem deixar de ir a algum lugar ou fazer alguma coisa porque não tem o suprassumo da quintessência tecnológica disponível.

      E a gente pensa em tecnologia como computador, telefone, etc., mas pensa o que a gente já consegue hoje na medicina, na engenharia, nas artes, por conta dessas ‘modernidades’? Também não consigo voltar lááá atrás no tempo não… 🙂
      abraço!

  3. Mas esse leitor de cassete amarelo e esse tal de ‘videodisque’ eu nem cheguei a conhecer! Se visse agora ia ter a mesma reação dos meninos!
    Os meus filhos já me perguntaram como é que se fazia para marcar o número naqueles telefones de discar… e no entanto parece que a gente já nascia sabendo isso!
    Bjs,
    Ana

    • Ana, na casa da minha mãe ainda telefone de discar até hoje, imagina – acho o máximo!
      Eu me lembro dos videodiscos, eles eram caríssimos, na casa dos pais de uma amiga tinha. Geralmente eram de óperas, grandes concertos, mas a coisa não decolou não. Eu via sempre os da loja Gramophone, que ficava ali na av. Brasil, perto do colégio Arnaldo, lembra?
      Agora, esse leitor amarelão eu ia achar que era bomba também! 😀
      Eu me lembro que papai costumava levar pra casa pilhas e pilhas de formulário contínuo de computador, pra gente usar como rascunho e folha pra desenhar, era uma festa!
      bjk

      • É, eu peguei o último semestre no ICEX em que se usou cartão perfurado… a gente fazia o programa, perfurava os cartões e entregava numa salinha, depois vinha buscar a listagem do computador no dia seguinte. Era dose! Quando eu digo isso aqui ninguém acredita!
        Bjs,
        Ana

  4. É uma delícia ver a cara das crianças descobrindo o “velho”. Quando eu era criança percebia que gente “velha”, todo mundo é velho quando somos crianças kkk, só contavam coisas de seu tempo e não entendia pra quê.
    Hoje eu me sinto uma fascinada por tecnologia, mas nem tudo eu uso, tem coisas que aboli, como microondas, enfim hoje eu entendo, graças a Deus kkk, que nem tudo que é “velho” é descartável.
    Bj

    • Ainda bem, né Rosa, porque se tudo que for ‘velho’ virar descartável, no futuro a gente vai ter problemas! 🙂
      Mas é engraçado mesmo como a visão da gente muda. Tenho alguns amigos que são amigões mesmo há 30 anos, começamos a amizade na adolescência, e quando eu penso nisso eu me lembro dos meus pais – esses sim, tinham amigos há 30 anos!
      A carinha das crianças é mesmo uma delícia. Ainda vou fazer um teste com as da família, a casa dos meus pais tem cada coisa ‘do arco da velha’!!! 😉
      bjk

  5. Nossa,

    Mto bom o Post…

    Outro dia estava conversando com minha mae sobre isso, ela me dizendo que para ter uma linha telefonica era um absurdo aqui no Rio.

    Eu paro as vezes e fico me perguntando, como conseguiamos viver sem internet, e-mail e telefone celular(!!) É surreal como vc fica dependente das invenções.

    • Pois é, e eu me lembro perfeitamente quando esses três entraram na vida da gente! E em priscas eras era só um telefone fixo na sala (no máximo com um fio enoooorme pra efeito de portabilidade, hehehe), internet discada que demorava horas pra entrar, e-mail que tinha limite de tamanho de mensagem e telefone celular que, de tão grande e pesado, era quase uma arma! Estamos falando de outro dia mesmo, hein…
      Não diria que eu sou exatamente dependente delas (bah, que nada, sou sim) mas, já que estão aí, disponíveis, acho a maior falta de lógica não fazer bom uso delas!

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