Crônica de mortes anunciadas

Em qualquer país decente do planeta, em qualquer outro lugar onde os direitos do cidadão fossem plenamente garantidos, a Justiça já teria entrado em cena e indiciado todo mundo: a prefeitura, o estado, o governo federal, nominalmente todos aqueles que ocupam cargos cuja descrição inclui a responsabilidade real pelo que acontece, e não apenas o recebimento de um belo contracheque no final do mês. Todos responderiam criminalmente, todos, se isso aqui não fosse uma piada de mau gosto. Eu ouço as sirenes das ambulâncias passando aflitas, vejo o helicóptero sobrevoando o escritório e já sei, todo mundo já sabe: mais um acidente no Anel Rodoviário. Exatamente no mesmo trecho. Exatamente pelo mesmo motivo. O número de carros envolvidos varia, assim como varia o número de mortos. Desta vez foram cinco. Até agora. Inclusive um jovem de 16 anos e uma criança de dois, que foi arremessada para fora do carro. Como é que se explica uma coisa dessas? Como é que os responsáveis pela segurança, pelo trânsito, dormem à noite? Dizem que a culpa é do motorista do caminhão que perdeu os freios. É claro que é. Fosse esse um caso isolado, eu diria que a culpa é só dele e de ninguém mais. Eu não tenho números, e sei que alguém certamente os tem, mas estamos falando de dezenas de vítimas. Não passa um mês sem um acidente grave bem ali, no mesmo lugar. Outro dia um deles virou manchete. Por que? Porque ninguém morreu. Os carros viraram um monte de ferro retorcido, mas sabe-se lá como, ninguém se feriu com gravidade. Desta vez não tinha chuva, não tinha pista escorregadia, pouca visibilidade, nada. Eu não sei qual é o número mágico, o número que vai fazer com que se tomem as providências que vêm sendo adiadas há anos. Não sei se estão esperando por uma tragédia espetacular, dessas com explosões de caminhões-tanque, como nos filmes de Hollywood. Não sei se eles estão aguardando que alguém muito importante morra ali, naquele mesmo lugar, pra então fazer alguma coisa. Não sei mesmo. Não é o aumento do poder de consumo, o aumento do emprego formal, a diplomacia com o Irã, o empréstimo ao FMI, a eleição da primeira mulher presidente, que vai nos fazer um país verdadeiramente decente. É o respeito às pessoas, puro e simples, no seu sentido mais fundamental, mais básico. Até isso acontecer, estaremos vivendo de aparências, mostrando as bonitezas pro mundo lá fora, achando que estamos adentrando o ‘primeiro mundo’, enquanto por baixo vamos ficando cada vez mais podres.

Anúncios

10 respostas em “Crônica de mortes anunciadas

  1. Boa Noite Monica, a cada dia que passa mais sou sua fã, você consegue exprimir em palavras a nossa indignação que é geral!! contra toda essa acomodação, contra toda essa falta de vergonha das nossas autoridades.
    Parabéns!
    Gosto tanto dos seus posts que fui te procurar no twitter…rss.. bjs
    Gy

  2. Obrigada, Gy!
    Eu conheço tanta gente que tem que pegar essa avenida (hoje o movimento é tanto que ela já é super urbana), a cada novo acidente meu coração fica deste tamaninho. E olha, já está virando rotina, um horror…
    Me achou lá no twitter? 🙂
    bjk

  3. Monica, você disse bem, num país decente, onde os direitos fossem garantidos, e mais que isso, onde esses cidadãos exigissem que fossem respeitados, cobrassem o que tem de direito, pois há o habito de se achar um culpado, seja alguém ou algo, e a única coisa que nao fazem é solucionar, vao empurrando, para os próximos governantes, porque quando entravam já estava assim, e se solucionam como ficaria a campanha para o próximo pleito, ficariam sem ter o que prometer, é sempre a mesma coisa, como no caso das chuvas, só esperam acontecer e depois lamentam.

    • Pois é, né Fernando, se resolverem o problema, acabam-se as promessas, as licitações para solucionar os problemas (que então não saem do papel) e por aí vai. Quando querem, resolve. Há um tempo houve um acidente semelhante em uma avenida na entrada da cidade. Não foi o primeiro no local, acesso a zona sul, bairros de classe média alta, etc., o problema foi sanado com a proibição do tráfego de caminhões. Claro que em um anel rodoviário isso não funciona, já que os caminhões precisam passar pelo local. Mas aí a gente vê que vontade política eiste quando convém…

  4. Mônica,
    também assisti, estupefato, aos helicópteros sobrevoando por sobre minha cabeça, aqui no Jardim América, seguindo em direção à região hospitalar de BH, levando as vítimas. Tudo com a tv ligada, com os fatos ali na minha frente, ao vivo. Coisa dantesca.
    Espetáculo macabro!
    Cada vez mais os fatos me fazem pensar que o Brasil é um país completamente infantil (ou seria infantilizado? Idiotizado?).
    As “otoridade” se comportam igual aquelas crianças de dois anos de idade, que se escondem atrás de cadeiras, para se “esconder” de “perigos” que simulamos em brincadeiras com elas.
    Como diziam na minha terra, quando eu era criança: “Tou frito, na manteiga do cabrito”!
    Ponto

    Um beijo,

    Stélio

  5. Nosso cabeça entontece, nossas vísceras se contraem.
    Vocês disseram tudo! Comentei outro dia… ‘desejavam ser eleitos?! ADMINISTREM. Façam jus a seus proventos.’

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s