É pra ser fashion

Eu vejo essas semanas de moda em janeiro mais ou menos como eu encaro os museus de arte moderna e as bienais: não entendo coisa nenhuma, mas acho tudo incrivelmente divertido. Principalmente a cara séria e aquela enxurrada de ‘jargões fashion`que os jornalistas e estilistas usam para tentar explicar que diabos é aquilo desfilando na passarela. Costuma ser mais enrolado do que título de samba-enredo, Confesso que aprendi a levar moda mais a sério depois que a Miranda Priestley/Meryl Streep passou uma descompostura na assistente dela e deu uma bela aula sobre como aquele tom de azul que ela estava usando saiu da coleção do St. Laurent e foi parar nas araras da C&A. Foi pra mim que ela falou também, mas eu ainda acho curioso perceber como uma indústria de milhões, onde muita gente criativa trabalha pra valer, convive de forma tão pacífica com o universo das subcelebridades e fashionistas de praxe, todos se achando o suprassumo da quintessência.

Eu morro de dó das modelos, sério. Olho para aquelas carinhas tristinhas e sorumbáticas e fico tentando entender se é fome ou saco cheio por estarem vestindo uma fantasia fora de hora. Se eu chegasse pra trabalhar de manhã com essa cara de tédio, não ficava ninguém na sala de aula mas, por obra de alugm mistério inexplicável, na passarela isso dá o maior ibope. E eu adoro os temas escholhidos pelos designers. O Herchcovitch, por exemplo, disse que sua coleção está inspirada nos vulcões. Fiquei esperando alguma modelo cuspir lava pela cabeça ou aparecer com os cabelos em chamas, talvez uma coberta de pó e escombros, mas não vi nada. Vai ver era um vulcão extinto. Já a Maria Bonita resolveu homenagear a arquitetura de Brasília. Imaginei alguém surgindo com um modelito cópia da catedral, gola subindo alta pelo pescoço e sala balonê plissada que nem o prédio, por exemplo, mas também não rolou. E ainda tem os cabelos que parecem ter sobrevivido a um tornado, a maquiagem de quem dormiu sem tirar o excesso, no dia seguinte está aquela borreira só, e por aí vai.

No final, o que parece ser tendência mesmo, entra ano e sai ano, é vestir umas roupas pavorosas, de cores e estampas esquisitas, e fazer a maior cara de Mortícia Addams. Passado o desfile, esses modelitos vão parar nas lojas e butiques em versões mais comportadinhas, em tecidos e qualidade de acabamento de todo tipo. Só duas coisas não mudam, ou mudam pra pior: os preços, que continuam exorbitantes, e a modelagem, que parece ser feita sob medida para vestir palitos de fósforo ambulantes, sem cintura, bunda ou quadril, mas com braços e pernas de 2m de comprimento. Talvez alguém devesse criar uma coleção inspirada nos extraterrestres.

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20 respostas em “É pra ser fashion

  1. Esse mundinho féxon é de lascar, acho insuportável, bom pra você que consegue achar divertido, eu só consigo ficar irritado com tanta babaquice que ronda o assunto.
    e você já viu alguém normal, algum cerumano andar que nem aquelas modelos?
    E quem é que acha aquelas meninas bonitas? uma vez li, não sei onde, que o padrão palito de fósforo foi criado pelos que dominam esse mercado (supostamente gays que odeiam mulheres) pra transformar as mulheres em coisas horríveis. Sei não, talvez faça sentido.

    • Sei não, Wagner, acho que não é isso tudo não… As meninas-palito são ‘úteis’ também porque elas ficam como cabides ambulantes pras roupas mesmo, é uma coisa bem fake. Não acho bonito e a própria indústria hoje em dia está fazendo restrições. Mas é verdade, andar como aquelas modelos deve dar dor nas juntas e causar belos tombos. Nunca tentei, mas não deve ser fácil. Vai ver é por isso que todas são tão novinhas, tem que ter muita coordenação motora! 🙂
      A indústria da moda eu acho bem legal, mas o mundinho fashion eu também acho uma chatice. Eu não me irrito não, atualmente eu escolho a dedo o que vai me irritar, senão eu surto! 😀

  2. Monica,
    criatura! Sonhastes conversando com Mário Quintana? Ri às pampas! mas… concordando contigo e o Wagner. Às vezes as pessoas rotulam “intelectualóides!”, peraí… o bom senso, ainda se faz necessário! O limite ‘na’ arte e não ‘da’ arte, vai até o ponto onde não se subestime a inteligência normal do espectador.
    Comunicar, exibir, tudo bem, estamos em tempos ultramodernos… não significa contudo, que por medo de ser execrado por teu ponto de vista, tenhas que engulir tudo, para não ser tachado de ‘superado’ ou qualquer coisa que o valha! tem a ver com responsabilidade na formação de opiniões.
    Tá bem, já se fez de tudo no mundo! que seja necessário releitura, recriar, reinventar, re… re… re… mas não REtroceder. Se não for possível inovar: arte… sim, mas não apresentá-la como FUNCIONAL, tendência para uso.
    Seria o caso de colocá-la para a sociedade com a função crítica, circunstancial, reflexão da mobilidade do mundo, ou… a quantas andam a cabeça do ‘cerumano’ como vcs costumam dizer, rs, rs, rs. O mundo fashion, não é passatempo se for inserido na arte propriamente dita.

    • Tem mesmo coisas muito legais no universo da moda, né (eu, por mim, não acharia nada ruim ter uma meia dúzia de Valentinos aqui no meu closet, hehehe) e aparece muita gente de talento. Chatinho mesmo é o grupo que só quer os holofotes, ver e ser visto fazendo cara de conteúdo.
      E essa história de subestimar a inteligência do outro é dureza, né? Acho que é por isso que eu costumo gostar das coisas do Ronaldo Fraga. Ele é um artista mais do que um estilista, e diz que apenas se diverte fazendo também moda, sem achar que descobriu a América…

  3. Quando me referi ao ‘limite na arte e não da arte!” para não gerar polêmica… não significa podar a liberdade de expressão ou expansão do ato criativo inerentes ao artista. Mas… para quem? e por quê? se… uma EXRESSÃO DA ÓTICA utilizando a estética, para apontar como disse, os reflexos e evolução da moda de conformidade com períodos históricos, incluindo nisto até a política: a liberdade e o ostracismo; fluidez, leveza, e por aí vai.
    ‘A arte do estilo e o estilo da arte’, são conceitos que transcendem o fazer por fazer, a busca de notoriedade, a superficialidade.
    Qd se realiza um projeto artístico, até para chocar – escandalizar – impactar (palavra mt em uso atualmente), tem-se que ter embasamento, justificativa. A arte tem meios, mas há que se considerar o fim!

    • Como diria a Coca Cola, ‘é isso aí’! Eu também tenho preguicinha da turma que quer causar – e tem um bocado de gente assim nesse mundo. E, como causar está cada vez mais difícil, o pessoal às vezes carrega na mão. Acho o fim da dinastia. Ficam aí fazendo caras e bocas, quando o simples é tão mais bonito e ‘impactante’! 🙂

  4. Monica,
    Eu tenho PAVOR de moda…me incomoda,acho estranha e pior:ainda não entendi pra que serve!
    Quem sabe um dia eu entenda esse tsunami de informação?
    rs..rs…rs…
    Beijo!

    • A moda não me incomoda (putz, tentei mas não consegui sair dessa rima pobre!), o modismo sim. Tem muita gente boa de serviço e muitos mais sem-noção, mas acho que essa tendência está em todo lugar. No final das contas, a gente é que tem que fazer a própria filtragem, aproveitar o que é bom e deletar o resto, sem se preocupar muito com seguir o que todo mundo está fazendo…
      bjk

  5. Uma coisa que me intriga nas passarelas é quando no desfile de moda praia, todas as manequins ficam reduzidas a nada mesmo. Nada de pernas, de bum-bum, de quadril! Elas ficam extremamente feias e sem graça de biquini. Quando uma revista quer mostrar a beleza da mulher na praia, escolhe sempre as popozudas, as que tem coxas grossas, quadril arredondado. Então porque na passarela escolhem aquelas anoréticas que não sustentam o biquini?

    • Nossa, sabe que eu nunca tinha pensado nisso? Sem contar que a gente não cabe naqueles biquinis, né, porque a modelagem deve ter sido criada pras modelos sem-bunda-sem-peito usarem. Realmente não faz o menor sentido!
      bjk

  6. Eu também adorei a explicação do azul naquele filme, kkkkkkk!!!
    Mas confesso que acho aquelas roupas que desfilam pelas passarelas “uó”. Pra mim, elas passam por uma metamorfose gigantesca até chegar nas nossas prateleiras!!! Só pode.

    • Ah, com certeza ninguém veste as coleções de passarela, os próprios estilistas gostam de dizer que é ‘conceito’. Já imaginou, tem hora que eu já acho difícil usar o que está na vitrine, o que foi desfilado então… 😀
      O filme é ótimo, daqueles que, quando passam, eu sempre assisto pelo menos um pedacinho.
      bjk

  7. Monica e todo pessoal aqui,
    as pessoas costumam não dar importância para as citações, mas às vezes, elas são tão “exatas”, que nos fazem calar, concordar ou fazer nossos juízos. Lembrei-me de algumas pertinentes ao assunto.
    Quando vc disse acima:(Ficam aí fazendo caras e bocas, quando o simples é tão mais bonito e ‘impactante’!)
    – Veja quem falou sobre a simplicidade:

    “A simplicidade é o máximo da sofisticação” (Leonardo Da Vinci, ‘mil e uma criatividades’).

    “A roupa mais bonita para vestir uma mulher são os braços do homem que ela ama. Para as que não tiverem esta felicidade, eu estou aqui” (Yves Saint-Laurent, estilista francês)
    – Este… sempre me deslumbrou! cá entre nós! mesmo as não acompanhadas e feminismos à parte, ‘se sentirem desejadas’ conforme Jacques Lacan, é muito importante! Disse ele, respondendo à clássica pergunta de Freud: “A grande questão que nunca foi respondida, e que eu ainda não fui capaz de responder, apesar de 30 anos de pesquisa sobre a alma feminina, é: o que querem as mulheres?”.

    “O luxo é tudo aquilo que não se vê.” (Chanel, estilista francesa)

    “A elegância não está nas roupas nem nas idéias, ela está no coração”. (Christian Lacroix, estilista francês)

    “Precisamos mais da moda do que das roupas, não para cobrir nossa nudez, mas para vestir nossa auto-estima”. Colin Mcdowell (escritor inglês, crítico de moda)

    “A moda morre nova. É isso que torna grave a sua leviandade”. (Jean Cocteau, poeta, ator francês)

    “A moda é a transmissão da civilização.”
    (Pierre Cardin, costureiro francês)

    “Só os homens que não se interessam por mulheres interessam-se por suas roupas. Os homens que realmente gostam de mulheres nem percebem o que elas estão usando”. (Anatole de France, escritor francês)
    – Bien, bien, bien… uma roupa bonita sempre confere um ‘charme’, mas ainda existem os que conseguem enxergar outros valores!

    “Mulher elegante é a que sabe vestir-se de acordo com a ocasião e o momento. É a que se conhece o suficiente para não se enganar. É a que não segue a moda, mas faz sua própria moda” (Pierre Balmain, costureiro francês)

    É isto gente, o que verdadeiramente importa é que – uma MULHER POSSA SER NOTADA ATÉ PELA SUA AUSÊNCIA!
    Esta… será um marco – a roupa – por bela que for,
    é acessório, ou seja… acompanha o principal!!!
    Concluindo com Harriet Rubin:
    “A arte da Princesa consiste em equilibrar o terror de ser mulher com o fascínio de ser mulher”

    Enorme abraço a todos, não me expulsem! já estou saindo!

  8. Sempre bem vinda, Vanilda!
    Adorei as citações. Concordo, uma roupa bonita, na ocasião certa, sempre ‘adiciona aquele plus a mais a nível de bônus’, como dia uma amiga minha.
    Quanto a pergunta do dr. Freud, não posso responder por todas, mas ultimamente o que eu quero mesmo é aquele bilhetinho com os seis números premiados da MegaSena! 🙂

  9. Monica
    muito grata! sabe… … ontologia de lado e pragmatismo à frente – da utopia para a realidade: ACERTOU-ME! (lógico, não por mal, ao contrário!) e CONFESSO, também gostaria!!! o objetivo é conscientizar, cair na real. Sabe o que me acontece? já fiz minha parte, enquanto din din não vem, eu fico pensaaaaaando! Sempre digo aos que me cercam: até para morte, o danadinho às vezes é oportuno! Quanto mais ao resto!!! Grande beijo!

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