Primeiro dia de aula

Eis do que me lembro do meu primeiro dia de aula: a escola funcionava numa casa espaçosa muito bonita, com um quintal que tinha uma árvore enooorme bem no meio, parecia uma mangueira, mas aos 5 anos eu não fazia a mínima ideia. A diretora, dona Estela, recebia todos os alunos no portão com um sorriso gostoso de avó, e ia colocando as crianças nas fileiras certas pra ir para a sala de aula. Eu era pequena de idade e tamanho, ela me colocou na fila errada e durante uma boa parte da tarde eu fiquei desenhando e colorindo com outras crianças, sentada numa mesa de madeira que acomodava quatro de nós. Lá pelas tantas vieram me buscar, eu deveria estar numa outra sala, eu tinha cinco anos mas já sabia ler e escrever, e aquela não era a minha turma. Minha professora se chamava Ana Maria e tinha os cabelos muito lisos e louros e era um doce. Na hora do recreio, antes do lanche, a gente lavou as mãos em um banheiro com pias pequenininhas, o cheiro do sabonete eu ainda reconheço até hoje. Aquele medinho que muita criança sente, aquela sensação de ‘o que é que eu estou fazendo aqui neste lugar?’ eu não tive não, foi tudo muito, muito tranquilo. Mas quando eu penso em primeiro dia de aula eu me lembro deste poeminha do britânico Roger McGough, tão bonitinho (o poema, não o Roger McGough) e com cara de milhões de outros primeiros dias de aula de milhões de menininhas e menininhos, muito mais do que foi o meu.
***

FIRST DAY AT SCHOOL 

A millionbillionwillion miles from home
Waiting for the bell to go. (To go where?)
Why are they all so big, other children?
So noisy? So much at home they
Must have been born in uniform
Lived all their lives in playgrounds
Spent the years inventing games
That don’t let me in. Games
That are rough, that swallow you up.

And the railings.
All around, the railings.
Are they to keep out wolves and monsters?
Things that carry off and eat children?
Things you don’t take sweets from?
Perhaps they’re to stop us getting out
Running away from the lessins. Lessin.
What does a lessin look like?
Sounds small and slimy.
They keep them in the glassrooms.
Whole rooms made out of glass. Imagine.

I wish I could remember my name
Mummy said it would come in useful.
Like wellies. When there’s puddles.
Yellowwellies. I wish she was here.
I think my name is sewn on somewhere
Perhaps the teacher will read it for me.
Tea-cher. The one who makes the tea

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6 respostas em “Primeiro dia de aula

  1. O poema lembra muito o meu primeiro dia no jardim de infância. Medo de ficar longe dos meus pais e irmãos. Medo dos outros meninos. Mas diretoras da escola eram simpáticas, na época eram chamadas de dona, Dona Marizilda e Dona Cristina. E a professora era Dona Cleide, que eu me lembro que era linda, parecia com as minhas irmãs, lindas. E de repente eu já nem tinha medo de nada, nem de estar sem o uniforme da escola, que não tinha ficado pronto a tempo. E tinha cheiro de lápis de cera, de guache e de cola. E argila, que não existia massinha de modelar. E estojo de madeira, com os lápis lá dentro. E a hora do repouso com uma toalha colorida estendida no chão. E a hora de sentar na rodinha, num círculo pintado no piso de tacos de madeira.
    Foi há muito tempo, mais de 40 anos. A casa ainda existe mas foi muito modificada. E encolheu. Mas na minha memória ainda está lá.

  2. É… antes as professores eram ‘dona’, né? Dona Ana Maria, dona Beatriz, dona Alice. Quando será que a argila saiu de cena? Eu também fazia coisinhas com ela, mas sempre quebravam assim que eu chegava em casa. A gente tinha uma bandinha de música, tadinha da fessôra, tenho até foto da turma toda com os instrumentos de percussão. E o pão quentinho com manteiga derretendo na hora do lanche, mudei eu ou mudaram os pães? Nunca mais foram tão gostosos…
    A casa da minha primeira escola não existe há muitos anos, ficava na rua Curitiba, entre Aimorés e Bernardo Guimarães, imagina, bem no meio da especulação imobiliária do bairro de Lourdes! Coitada, não teve a menor chance.
    bjk

  3. Ah, eu adorava os primeiros dias de aula… devem ter sido muuuuito tranquilos pois não me lembro de nenhum em particular. Só lembro da véspera, a emoção de conhecer a professora nova, ver (ou rever) os colegas…era uma excitação. Eu também sou do tempo em que a gente chamava professora de ‘Dona’, mas olha que engraçado, fui o último ano em que isto aconteceu na minha escola. Quando estava no 4º ano, as turmas do 3º já chamavam a professora de ‘Tia’. Nós ficavamos indignados: que falta de respeito, o que vai ser dessa nova geração… é, já era assim quando eu tinha só 10 aninhos… o mundo dá muita volta mas não sai do lugar.
    Adorei o poema! Adoro essa poesia em inglês, em que as rimas parecem um bolo gostoso de comer… já viu isso, rimas com gosto de bolo?
    Bjs,
    Ana

    • Adorei essa história de rima com gosto de bolo, vou adotar! 🙂
      A gente chamava de ‘dona’, de ‘senhora’, né… Talvez fosse um pouco pesado para crianças pequenas, mas hoje em dia o pêndulo foi lááá pro outro lado e o pessoal chama o professor de cada nome!
      Eu também sempre gostei dos primeiros dias de aula.
      bjk

  4. Tenho poucas lembranças do jardim de infância e dos primeiros anos de escola. Mas me lembro muito bem de quando fomos visitar uma possivel escola para a Clara, há alguns poucos anos, e – incrível – o cheiro do lugar era o mesmo, uma mistura de madeira encerada e lápis de cor, um cheiro de merenda misturado com suor de meninos depois de educação física… Tive uma sensação de espanto, saudosismo e desse medo de ficar longe dos pais quando dão tchau no portão da escola… Memória olfativa e flashback, que meleca!

    • Agora explica aí, você que é neurologista: como é que nossa memória olfativa funciona bem desse jeito, mesmo depois de muitos e muitos anos, e a memória de trabalho não dá conta dos últimos 15 minutos??? 😀
      (e fassfavô de não me mandar perguntar pro Marcel Proust e suas madeleines não, quem que está em busca do tempo perdido sou eu…)

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