A morte do Cisne Negro

Foi tudo uma questão de timing. Melhor dizendo, de falta de. Porque, se é verdade que para tudo há um tempo, tempo de plantar, tempo de colher, aquela longa história, o Eclesiastes deveria ter incluído a cláusula ‘um tempo de assistir a um thriller psicológico, e um tempo de ficar em casa quieta vendo novela, sua boba’. Soubesse eu desse detalhe, teria ficado onde estava e dado pelo menos uma aliviada na barra de Hermengarda e Adamastor, os meus dois neurônios, que na última segunda-feira deviam estar inadvertidamente operando no modo power save.

Então que eu fui ver Cisne Negro. E até gostei. Mas gostei médio, enquanto muita gente diz que amou. Sabe aquele filme que você assiste e no final só consegue dizer “ah, tá…”? Foi assim. Mas não foi culpa dele não, que eu sei, existe todo um visual muito bacana, aquela economia de cores, quase tudo preto, branco e cinza, como convém a um filme do gênero, muitas sombras, câmera por trás dos personagens pra criar um clima, a belíssima atuação da Natalie Portman, linda, quase quebrando de tão frágil, realmente uma atuação digna de Oscar, tinha o balé, tinha tudo pra dar certo. Mas acho que eu é que não estava para um filme assim naquela noite específica, fazer o quê?

Aí me ocorreu que quem sabe eu não tinha era entendido o filme, as metáforas, as leituras psicanalíticas? Fui lá no Google, busquei algumas resenhas, vários comentários, entrevistas, muitos e muitos elogios, tudo lá, bonitinho, não era uma questão de entendimento não, essa parte eu tinha pegado. Também não era problema de não gostar de balé, que eu gosto e é muito mesmo, e adoro O Lago dos Cisnes, até sem fazer aquelas interpretações todas que fazem sobre a dualidade do Bem e do Mal, da sensualidade e da sexualidade e tudo o mais. E nem me importo muito com eventuais liberdades tomadas, a coreografia que o Matthew Bourne fez há tempos (e que a gente vê um pedacinho de nada no final de Billy Elliot) é sensacional, a paródia dos moços do Trockadéro de Monte Carlo é genial. Aliás, costumo gostar mais das novas versões para clássicos do balé do que daquelas apresentações tradicionais com tutus e sapatilhas de ponta. Tá bom, o filme tem cortes e sangue, e isso me dá uma aflição danada. A violência de cartoon dos filmes do Tarantino me diverte, gente explodindo os miolos, olho pulando pra fora, nada disso é problema pra mim. Mas coloque um estilete rasgando a pele devagarinho, uma agulha entrando, um caco de vidro furando, e eu bambeio as pernas, fecho os olhos, gosto não. Pra azar meu, tem várias cenas assim no filme. Ou, pelo menos, mais do que eu estava preparada pra ver naquela segunda à noite. Darren Aronofsky pegou pesado comigo.

Mas de jeito nenhum se prenda por mim. Vá ver sim, que eu provavelmente vou ver de novo uma hora dessas, mas não no cinema, que a lista de filmes pra ver só tá aumentando nessa temporada pré-Oscar. Eu devia estar num dia ruim pra uma história desse tipo, só isso. Tem um bocado de gente falando super bem de Cisne Negro, tudo gente que fala com propriedade, com conhecimento, com ótimos argumentos. Eu é que acabei ficando desse jeito, saindo pela tangente com aquela opinião bem mineira quando me perguntam o que eu achei do filme: ah, é muito legal, mas eu não gostei muito não.

Pê Ésse: Olha, se eu não tivesse visto o nome da Winona Ryder nos créditos, nunquinhas que eu teria acreditado que ela estava lá.

Anúncios

21 respostas em “A morte do Cisne Negro

  1. Estou querendo muito ver, pois o que já li sobre o filme não é brincadeira, todo mundo comentando.
    Acho inclusive que o fato de muita gente comentar e dizer que o filme é maravilhoso cria uma expectativa muito grande e quando a gente espera muito de algo pode rolar uma decepcão.
    Doida pra ver, mas vou esperar pra ver em casa, acho que espero pelo menos mais uns dois meses e quando eu for ver já vai tá todo mundo comentando sobre outro filme.

    Beijo

    • É mesmo, Luciana, comentários demais costumam trabalhar contra o filme. A gente cria uma expectativa enorme, no final das contas nem é essa Coca Cola toda. Nesse caso (no meu caso) foi diferente, porque boa parte das resenhas eu só li depois de assistir, no eomeço foi mais o pessoal comentando que tinha gostado (o que, claro, aumenta a expectativa). Acho que a gente tem que assistir e decidir por conta própria, né? Ou esperar pra ver em casa. De qualquer maneira, a Natalie Portman está fantástica. Se levar a estatueta, tá de ótimo tamanho!
      bjk

  2. Olha, eu vi o trailler pra aí umas 3 vezes, de todas elas achei que aquele bocadinho contava o filme todo! E tudo que tenho lido mostra que eu não tô enganada não! Eu nunca vou ver filme que eu acho que o trailler diz tudo, mostra a minha experiência que a decepção é certa. Esse tá fora da minha lista. Tô espera pra semana da estréia de ‘True Grit’. E ainda estou na dúvida se vou ver ou não ‘O discurso do rei’, só pelo Colin Firth…
    Bjs,
    Ana

    • Ana,
      eu tinha visto o trailer só uma vez antes de assistir ao filme e aí revi quando escrevi o post. Sabe que ele até tem umas coisas legais? Algumas cenas foram editadas pra dar uma impressão no trailer, mas no filme mesmo é um pouco diferente. Mas sim, a gente começa o filme e sabe pra que lado ele vai. Mas acho que é assim com boa parte dos filmes hoje em dia…
      ‘True Grit’ eu tou doidinha pra ver. Está pra estrear por aqui. E, claro, Colin Firth e Geoffrey Rush num mesmo filme, é garantido de ser coisa boa, né? Mesmo se não for um filmaço.
      bjk

  3. Li uma crítica bem negativa desse filme, do Xexéo. Aí vai o link, se você não tiver lido.
    http://oglobo.globo.com/cultura/xexeo/posts/2011/02/06/a-morte-do-cisne-360520.asp

    Eu, que estou na fase de descer do mundo (e como ele não vai parar mesmo, estou treinando para descer com ele em movimento), tenho ido cada vez menos ao cinema por conta das chatices envolvidas (engarrafamentos, estacionamentos, filas, celulares, etc).
    Por outro lado, como adoro cinema, estou me dedicando a ver ou rever maravilhas antigas (alguns exemplos: um dia muito especial, o porteiro da noite, a moça com a valise, a felicidade não se compra, etc, a lista é longa).
    Quando chegar nas décadas 00/10 pego o que tiver sido peneirado pelo tempo, e, quem sabe, o cisne estará lá.

    Mas gosto de ler comentários, e, como sempre, o seu texto é muito bom.

    • Wagner, eu ainda adoro a experiência de ir ao cinema. Costumo esperar a neura de novidade passar, pra poder escolher sala e horário, não tenho essa de ter que ver logo só porque estreou, isso realmente é uma chatice. Mas com boa companhia, um cinema confortável com telona, sonzão e poltronas convidativas, um cafezinho depois… ainda acho uma combinação irresistível. No caso do Cisne Negro, ainda teve o bônus de ter sido uma sessão de promoção – seis reaizinhos a inteira, ó que pechincha! 🙂
      Mas ‘clássico é clássico e vice-e-versa’, não dispenso nada que for bom. E ainda gosto das garimpadas, aqueles filmes que não fizeram o auê todo, mas que são bons de se ver.
      Obrigada pelo link, vou ler a crítica com calma!
      bjk

  4. Mônica,
    Achei o filme mais ou menos. Muitos elogios para a obviedade do argumento e a previsibilidade da usual competência técnica da equipe. Oscar da chatice para a crítica. Beijos.
    Patrícia.

    • Ai que bom, Patrícia, você também tá na turma do mais ou menos! Tecnicamente é muito bonito sim, eu até nem me importo muito com a obviedade, porque eu sabia que o roteiro seguia a ideia do balé. Mas é isso, como dizia o meu avô, ‘gente é que nem sorvete, tem de diversas qualidades.’ Uns gostaram muito, outros pouco, outros nada…
      bjk

  5. Esse filme tá me parecendo Alice, No País das Maravilhas… eu fui enlouquecida pra ver e no final do filme saí que nem tu: “ah, é legal, mas não gostei muito” kkkkkkkkkkk

    • Ah, mas tem pé e cabeça sim, Cris, é que tem hora que eles misturam a realidade com as piradas da garota. Mas dá pra seguir sem problemas. Dá pelo menos pra uma olhada quando sair em DVD. Não achei essa coisa toda, mas não é um horror como tantos outros filmes que Hollywood costuma produzir… 🙂

  6. Puxa, acho que o seu deve ser, no mínimo, o quinto blog que vejo comentarem desse filme, aqui os filmes passam um pouco mais tarde do que no Brasil, estou morrendo de curiosidade! Valeu a dica!
    Bj
    Adri

    • Uai, achei que já tivesse saído por aí! Mas às vezes isso acontece, alguns filmes são lançados aqui antes de aparecerem em outros países. Antigamente a gente penava, só entrava em cartaz muuuuuito depois!
      bjk

  7. Natalie Portman estava mais bela que nunca. Isso pra mim já basta pro filme ser 10!

    Mas ouvi comentário de alguem que foi ver no cinema, que, quando o filme acabou, todo mundo ficou atônito durante um bom tempo. Eu acho isso exagero, não é pra tanto.

    Mas é um bom filme, gostei do final, inclusive. Fui muito surpreendido pela atuação da Portman. Não imaginava que ela era capaz de fazer uma mocinha ingênua com tamanha propriedade. Subiu no meu conceito.

    • Também acho que a performance dela é o ponto alto do filme, Teles. E ela é linda mesmo. No geral, a ideia do filme é legal, o auê todo é que eu não entendi…
      Por mim, acho que o grande filme pro Oscar é Bravura Indômita (ainda não vi, mas a expectativa é grande do meu lado). Se vai ganhar, aí eu não sei…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s