Como identificar um AVC

A moça estava lá, né, microfone na mão, sorriso largo mas concentrada, porque a câmera já estava ligada e ela só estava esperando a deixa pra entrar ao vivo na TV. Não era uma novata no ramo, era jornalista com Emmys enfeitando a prateleira de casa, anos de experiência, então o que era uma inserçãozinha de nada diante de tanto background? O âncora anunciou Serene Branson, ela a postos com o texto preparado, tudo certo. Mas aí aconteceu. Serene abriu a boca, sorridente, a primeira palavra saiu com uma letra trocada. A segunda já foi falada com dificuldade, as outras saíram como um amontoado de sons com entonação perfeita, mas sem qualquer sentido. Serene parecia estar tendo um AVC bem ali, na frente das câmeras, no horário nobre.

A CBS diz que ela está bem, não precisou ser hospitalizada nem nada. Que bom. Mas não foi isso que me impressionou. Logo depois, dezenas de vídeos foram parar no YouTube (onde mais?), mostrando ‘o mico’ da jornalista, a ‘cena hilária’, o ‘momento ridículo’. E eu pensei cá com meus botões: será que esse pessoal sem-noção não percebeu o que tinha acontecido? E se eles estivessem lá, na hora, na frente dela, teriam feito alguma coisa para ajudá-la ou apenas morreriam de rir da situação?

Aí eu me lembrei do tantinho de nada que a gente sabe sobre essas coisas. E me lembrei do que meu irmão, neurologista, me disse uma vez, e aí eu liguei pra ele pra poder confirmar tudo bonitinho antes de escrever aqui. Peça para a pessoa fazer três coisas super simples, e qualquer uma que não dê certo já é sinal de que existe algo errado e é hora de ir para o hospital:

1. Peça pra pessoa fazer caretas. Pedir para que ela sorria pode ser menos eficiente, ela provavelmente vai estar tão preocupada – ou apavorada – com o que está acontecendo, que sorrir é a última coisa que vai dar conta de fazer. A paralisia de um lado da face é um sinal de que alguma coisa não vai bem;

2. Peça pra pessoa levantar os braços. A perda de força muscular causada por um derrame pode fazer com que um dos braços fique imóvel ou não possa ser erguido com a mesma facilidade que o outro;

3. Peça para a pessoa dizer uma frase completa. Algo como ‘O trânsito da cidade fica muito pior quando chove no fim do dia’, ou qualquer coisa assim. Alguém que está tendo um derrame muitas vezes tem dificuldades cognitivas – e aí não consegue falar uma frase com sentido – ou de articulação dos sons.

Todo mundo deveria saber coisinhas assim, né mesmo? Coisas básicas que podem fazer toda diferença. Ensinadas pra todo mundo desde sempre, igual a gente aprende o teorema de Pitágoras ou a data do descobrimento do Brasil. Como fazer respiração boca-a-boca. Como fazer uma massagem cardíaca. Como executar a manobra de Heimlich. É que a gente realmente nunca sabe quando o inesperado vai fazer uma surpresa.

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15 respostas em “Como identificar um AVC

  1. A banalização de coisas assim por causa da Internet me chateia muito.
    Agora, coloca um vídeo de um cachorro triste e na coleira pra ver se nào é uma comoção generalizada…

    Minha cunhada teve um AVC na sala de aula, ela ensina no que seria o primário aqui. Ela queria escrever B e escreveu N no quadro. Teimou com os alunos que era B. Um aluninho perguntou se ela estava passando mal. Ela tentou lembrar como era a letra B e não conseguia… Chamaram os médicos.
    Foi para o hospital, ficou em repouso, fez exames e depois voltou pra casa. Mas, podia ter sido pior, né?

    Bjs!

    • Tá vendo? Uma criança tem mais juízo do que muito marmanjo por aí… A gente tem realmente que estar atento. Ainda bem que o que a sua cunhada teve foi algo transitório, sem consequências. Se não tivessem sido rápidos, poderia ter sido algo bem mais grave, né?
      bjk

  2. Já atendi dois casos assim! Um já chegou “em curto” e o outro aconteceu durante a consulta. A mente humana, por necessitar da coerência para se relacionar, é transparente nesses casos. Quanto a Henry Heimlich você só fica sabendo o nome completo dele quando um filho se engasga com uma bala Soft.

    • Pois é… Li há um tempo que um médico começou nos EUA uma super campanha para a divulgação da manobra de Heimlich, com cartazes em todo lugar, explicações na TV, essas coisas. Um dia, ele estava no aeroporto, quando engasgou com um sanduíche. Foi salvo porque ao lado dele tinha um sujeito que aprendeu a fazer a manobra assistindo a um programa com esse mesmo médico.
      Ou seja, ele foi salvo por ele mesmo! 🙂

  3. Monica
    tive um extenso período de aprendizado na vida e de vida, exatamente por estar ao lado de uma pessoa querida, com as sequelas de um AVC isquêmico durante quatorze anos, todas as variações de terapias de suporte às consultas neuro-psiquiátricas, pq o comportamento muda enormemente. Os contatos com médicos de várias especialidades; o sofrimento dele e de nossa família, me fizeram pesquisar (leiga que sou), sobre várias ciências correlatas a estas sequelas. Isto fez-me desde então, uma pessoa diferente para o resto de minha vida!
    Todos os comentários de hoje são mt apropriados, e estas orientações são de grande valor! Agradeço.
    Abraços.

    • A experiência ‘de perto’ dá uma outra dimensão a essas coisas, né Vanilda? Nunca tive pessoas próximas que tivessem sofrido um AVC, mas já sim com outros problemas. Realmente a gente não é a mesma depois.
      abraço!

  4. Mônica, parabens pelo seu blog!
    Descobri-o meio por acaso e agora acesso todos os dias. Seus textos são sempre muito saborosos, relaxantes, informativos..ajudam-nos a escapar da loucura do cotidiano..

    Se puder, passa no meu blog depois, também gosto de dar uma de escritora.. rsrsrs vamos instigar as discusões filosóficas (ou banais mesmo) no mundo virtual.. rsrs

    bjs

    • Ei Alyssa, obrigada!
      Que bom que você se diverte por aqui, é sempre muito legal ouvir (ou melhor, ler!) isso das pessoasl. Passei rapidinho lá no seu blog – colega jornalista! – mas, com o adiantado da hora, não li os posts com calma, prometo voltar depois pra comentar!
      Discussões filosóficas eu não garanto, mas banais é comigo mesmo!!! 🙂
      bjk

  5. Legal, Mônica,
    Informação é a coisa mais importante que existe; cê sabe que quanto mais rápido a pessoa é atendida em um hospital melhor a chance de recuperação e ter menos ou nenhuma sequela. Muitas não procuram auxílio por puro desconhecimento. A gente brinca que se você tiver uma dor no peito você corre pro hospital, mas algumas pessoas ficam com um “braço bobo” ou “falando esquisito” por vários dias antes de iniciar algum tratamento.
    Que nos ouçam os fumantes…

    • A gente não pode bobear mesmo, né? Tem mais é que ir correndo checar, as pessoas têm mania de fazer diagnóstico, recomendar remédio, sugerir tratamento, tudo sem o menor conhecimento de causa. O médico (pelo menos teoricamente) estudou, especializou-se, tá lá no hospital com aqueles aparelhinhos todos, o plano de saúde tá sendo pago mesmo, não faz sentido ficar ‘esperando pra ver se passa’…
      É, a turma dos fumantes…
      bjk

  6. O que eu me questiono é o seguinte: será que, num momento desses, viriam, a minha cabeça, essas dicas do seu irmao? Porque acredito que essas dicas sumiram num momento como esse.
    Obs.: desculpe-me a falta do til… teclado espanhol… já sabe!
    Beijos

    • É verdade, Karine, por isso é que a gente tem que saber mesmo, e não só de ouvir falar. Em geral eu sou calma na hora do aperto, mas o engraçado é que eu nunca pensei que seria! De repente me descobri mais bem preparada do que imaginava…
      Sem problemas com os acentos! 🙂
      bjk

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