O d-d-discurso do rei

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Albert Frederick Arthur George começou vindo ao mundo no dia errado: aquele 14 de dezembro de 1895 era o 34 º aniversário de morte de seu bisavô. Na maioria das famílias do planeta isso não seria problema algum, mas é que nem todo mundo é bisneto do Príncipe Albert e da Rainha Victoria, aquela que ficou eternizada pela cara séria de poucos amigos e sua célebre frase ‘We are not amused’ (algo como “não estamos achando a menor graça”). Sua Majestade viveu em luto fechado após a morte do marido, mandou que todas as portas das casas do reino fossem pintadas de preto (mas reza a lenda que, só pra sacanear, os irlandeses pintaram cada uma de uma cor) e provavelmente um evento como aniversário de criança não estava no repertório da soberana numa data como aquela. Pra dar um upgrade no carma, o pai achou por bem dar o nome de Albert ao pequeno, e a rainha ficou muito satisfeita da vida.

Com um pontapé inicial desses, as coisas não pareciam mesmo muito promissoras pro menino. Ele cresceu com muitos de problemas de saúde, tadinho, dores de estômago crônicas, os joelhos tortos para dentro, parecia sempre amedrontado e chorava por qualquer coisa. Era canhoto mas, como acontecia frequentemente naquela época, foi obrigado a aprender a usar a mão direita, o que lhe causou (ou piorou) uma gagueira séria. Resolveu o problema dos joelhos, aprendeu a conviver com as dores de estômago, mas não havia médico no império que desse conta daquela gagueira real. Até entrar em cena Lionel Logue.

É esse o tema central de O Discurso do Rei, filme que está aí concorrendo a nada menos do que 12 estatuetas no dia 27. A história é real e narra como o australiano Logue (Geoffrey Rush), um ator-dublê-de-fonoaudiólogo, consegue curar o problema de fala de Albert (Colin Firth, fantástico) usando métodos bem pouco convencionais e uma boa dose de conversa para elevar sua auto-estima. O Duque de York sofre nas mãos do ‘terapeuta’ e a relação entre os dois está longe de ser pacífica mas, claro, a terapia dá certo. Quem diria que um ator que não conseguia papéis em peças de Shakespeare por causa de seu sotaque (ah, a Austrália, aquela enorme colônia penal do império!) seria o autor da façanha?

E Albert precisava desesperadamente que o tratamento funcionasse. Se a vida tivesse tomado seu curso sem percalços, ele jamais teria se tornado rei. Rei era o seu pai, George V (vivido pelo ótimo Michael Gambon), um orador nato que logo percebeu a importância de um novo meio de comunicação chamado rádio. “Viramos atores”, diz a Albert. “Antes bastava parecer respeitável usando um uniforme e não cair do cavalo.” Agora imagine só o pânico de um jovem gago tendo que ler um pronunciamento real ao microfone. A primeira cena do filme, com um apavorado Duque de York abrindo uma cerimônia em Wembley no lugar do rei, mostra bem isso. Albert não assumiria o trono depois da morte do pai. O herdeiro natural era seu irmão Edward VIII, só que este se apaixonou por uma americana, Wallis Simpson, duas vezes divorciada, e aí não haveria a mínima possibilidade de um chefe da nação e da Igreja Anglicana colocar no trono um filho bastardo no futuro, né? Edward abdica e eis que Albert é então coroado oficialmente rei George VI. Um rei gago que morria de pavor de falar em público, olha que problemão. Para complicar ainda mais as coisas, os últimos anos da década de 1930 traziam a ameaça de Hitler e do nazismo; isso exigia firmeza e determinação para lidar com uma guerra iminente, algo que, infelizmente, seu problema de fala não conseguia transmitir. “A Nação acredita que, quando eu falo, falo por eles. Mas eu não consigo falar.” Uma enorme encrenca para o pobre Albert, sem dúvida.

O Discurso do Rei, dirigido por Tom Hooper, é um daqueles filmes em que a competência dos atores e o apuro técnico e cenográfico valem o ingresso com troco. Além de Firth, Rush e Gambon, Guy Pearce se sai bem como Edward VIII e Helena Bonham-Carter, que eu sempre acho esquisita quando faz um papel normal, também dá super conta do recado como a rainha Elizabeth (mais tarde chamada de A Rainha-Mãe). Só achei um pouco caricato demais o Winston Churchill de Timothy Spall, mas vá lá. Os críticos e históriadores chiaram mesmo foi com a maneira morna com que a simpatia de Edward VIII pelo nazismo foi mostrada, e com o fato de ficarmos com a impressão de que Churchill apoiava George VI, quando na verdade seu apoio foi, durante muito tempo, dado a Edward. Bem, o filme não é um documentário do History Channel e seu foco principal está na gagueira de Albert/George VI, mas realmente não custava nada dar uma caprichada na veracidade dos fatos. OK, pode não ser um filmaço daqueles que te deixam de queixo caído. Mas de vez em quando tudo o que a gente precisa é ouvir (e ver) uma história sendo bem contada.

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6 respostas em “O d-d-discurso do rei

  1. Realmente, o filme é… majestoso. Sem desmerecer a impressionante atuação do Colin Firth (ele consegue passar a angústia que a gagueira pode causar em uma pessoa, ainda mais em um rei despreparado, às vésperas de uma segunda guerra mundial), pra mim, quem dá o tom ao filme mesmo é o Geoffrey Rush (e, da mesma forma, mas em menor medida, a Helena Carter). A personagem dele é a síntese do filme, que, para mim, é sobre a quebra de paradigmas. Um australiano, que não fala o “king’s English”, no início da era do rádio, praticamente forja aquele que viria a ser o rei mais popular de toda a história britânica. E ela dá muita dignidade à futura “queen mom”, uma mulher também à frente do seu tempo, simples, justa, que não se prestava às frivolidades normalmente ligadas à realeza e que, quando a guerra chegou em seu quintal, não se escondeu no palácio, mas foi para a linha de frente e, com seu esposo, foi a figura feminina da resistência contra as investidas nazistas.

    • É verdade, George e Elizabeth saíram super bem na foto, com merecimento. E o Geoffrey Rush está ótimo, como sempre. Engraçado é que eu o ouvia falar, os outros metidos a ‘royal’ criticando o sotaque, e eu achando ele tão pouco Aussie… 🙂
      O que mais me faz lembrar da Rainha-Mãe foi seu aniversário de 97 anos. Eu e mâmi estávamos visitando a Torre no dia e, lá pelas tantas, resolvem dar uns tiros de canhão pra comemorar o evento. Achei a ideia legal, até que me dei conta de que seriam 97 disparos!!! 😀

    • ‘Brigada, Ana! Essa época do ano é uma loucura, né, a quantidade de filmes pra ver tudoaomesmotempoagora! Eu não sou muito de baixar esses filmes não, gosto mesmo é de ir ao cinema. Assista sim, é muito bonito.
      bjk

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